O domingo amanheceu com o céu limpo e uma brisa leve — como se o mundo estivesse irônica e propositalmente calmo demais. Mas aquele seria o tipo de manhã que rasga certezas, que vira famílias do avesso.
Na casa dos Ferraz, o café da manhã corria como sempre: Isadora sorrindo como a filha perfeita, Daniel ao lado, cada vez mais à vontade na casa, e os pais de Elisa trocando comentários sobre negócios e aparências sociais.
Até que o celular de dona Helena vibrou. E vibrou de novo. E de novo. Notificações pipocavam de grupos de amigas, colegas da igreja, vizinhas.
Ela franziu o cenho, destravou a tela e leu em voz alta, sem perceber:
— “O empresário Leonardo Vasconcellos está noivo. E a noiva é Elisa Ferraz, ex-assistente da sua própria empresa. O anúncio oficial foi feito por meio de nota à imprensa divulgada hoje cedo, com fotos exclusivas do casal em jantar íntimo em Paris.”
O silêncio foi imediato. A colher de Daniel parou no meio do caminho. O sorriso de Isadora desmanchou como cera sob fogo.
— O quê? — perguntou o pai, pegando o celular da mão da esposa com brusquidão.
Isadora se levantou, puxando o próprio celular. Os sites de fofoca e colunas sociais exibiam as mesmas manchetes:
“Leonardo Vasconcellos oficializa noivado com funcionária da própria empresa.”
“Quem é Elisa Ferraz, a mulher que conquistou o CEO mais cobiçado do país?”
“Elisa e Leonardo: o casal surpresa do ano.”
Havia fotos. Elisa estava linda, com um vestido elegante, o cabelo preso num coque sofisticado. Ao lado de Leonardo, ela parecia diferente. Mais forte. Mais mulher. Mais... intocável.
— Isso não faz sentido — disse Daniel, pálido. — Ela nunca... nunca falou nada sobre isso.
— Isso deve ser mentira! — esbravejou Isadora, os olhos marejando de raiva. — Essa... essa garota não tem esse tipo de poder. Ela é apagada, insegura. Ele nunca se casaria com alguém como ela!
Dona Helena olhou para a tela em silêncio. Pela primeira vez, via a filha mais velha estampada como destaque. Como mulher de um homem poderoso. E pela primeira vez, teve que admitir: Elisa não era mais a sombra de ninguém.
— Quando ela viajou para aquele curso na Europa — murmurou o pai — foi nessa época que ela sumiu por alguns dias, lembram?
Daniel levantou-se da mesa de repente, nervoso, andando de um lado para o outro.
— Ela fez isso por vingança — murmurou. — Ela descobriu. Ela sabe de mim e da Isadora. E agora está esfregando isso na nossa cara.
Isadora apertou o celular com força.
— Isso não vai ficar assim.
Mas todos sabiam, naquele momento, que o estrago estava feito.
Elisa havia renascido. E o mundo estava vendo.
O telefone fixo da casa já não tocava com frequência — tudo agora era por mensagem, por vídeo, por redes sociais. Mas naquela manhã, o som do velho telefone ecoou como uma sirene.
Seu Antônio Ferraz caminhou até o aparelho com o cenho franzido, os olhos ainda grudados na manchete no celular. Discou o número de Elisa com raiva contida, como se estivesse ligando para uma funcionária que havia ultrapassado os limites da hierarquia.
Ela atendeu no segundo toque.
— Alô?
A voz dela veio serena. Segura. Quase indiferente.
— Elisa! O que é isso que está em todos os jornais? Você ficou noiva e não foi capaz de contar para a sua família?
Houve uma pausa breve do outro lado da linha. Depois, Elisa respondeu com calma:
— Ah, então agora eu sou da família?
Seu Antônio cerrou os dentes.
— Não comece com isso. Você sabe que temos uma reputação. Um escândalo desses... com fotos em Paris, um comunicado oficial! Que absurdo é esse?
— Escândalo? — ela repetiu, com uma leve risada. — Pai, me diga, onde está o escândalo? Estou noiva de um homem poderoso, admirado. Um empresário de sucesso. Parece um sonho, não?
— Você fez isso por vingança? Contra Daniel? Contra nós?
— Vocês acham que tudo gira em torno de vocês — disse ela, o tom agora firme. — Vocês nunca se importaram com quem eu era, com o que eu sentia. E agora se importam porque sou notícia?
O silêncio do outro lado foi quase um grito.
— Você está cometendo um erro, Elisa. Isso não é a sua realidade. Você vai se queimar.
— Não se preocupe, pai. Eu aprendi a lidar com o fogo sozinha.
E dessa vez... não vai ser eu quem vai sair queimada.
Ela desligou.
Seu Antônio ficou parado, o telefone ainda na mão, a respiração pesada.
Dona Helena o observava da sala, tensa.
— O que ela disse?
Ele largou o telefone no gancho com força.
— Disse que sabe lidar com o fogo. Essa menina... está diferente.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 30
Comments
Severa Romana
amei..espero que ela continue sendo forte e essa família dela escrota que fiquem na sarjeta
2025-05-09
1
Lucianna
Toma , isso mesmo Elisa pisa neles
2025-05-13
0