Capítulo 3 - Explorando a profundidade do Amor
A sala era a mesma. O cheiro de madeira envelhecida, a luz fraca que tremulava nas paredes, como se temesse desaparecer completamente. Mas, desta vez, não havia coelhos, não havia gatos.
Ela estava sentada em uma cadeira de balanço, com as mãos enrugadas repousando no colo.
Seu olhar perdido parecia flutuar entre a vigília e a lembrança, como se estivesse presa em algum ponto distante do tempo.
Kyou não sabia quem ela era. Apenas que Uruma a trouxera ali.
Kyou
Qual é a lição desta vez?
Uruma olhou para a idosa com uma calma quase desconfortável.
Kyou
Depois de tudo, agora vamos falar de amor?
Kyou
Depois de coelhos mortos, de um gato despedaçado, você quer falar sobre amor?
Uruma não respondeu de imediato. Apenas puxou uma segunda cadeira e se sentou ao lado da idosa.
Uruma
O amor não é tão simples quanto acreditam.
Uruma
Não é um instinto, como o medo. Não é um conceito, como a arrogância. O amor… é o que resta quando tudo se vai.
Kyou
E essa mulher? O que ela tem a ver com isso?
A idosa sorriu de leve, mas seus olhos não se moveram. Ainda estavam presos em algum lugar distante.
Uruma apontou para as mãos dela.
Uruma
Veja. Ela já não tem mais juventude. Sua pele carrega a história do tempo.
Uruma
Seus ossos, a lembrança de cada esforço. Ela já perdeu amigos, irmãos, talvez até filhos.
Uruma
Tudo o que poderia ser tomado dela, foi. E, ainda assim, ela sorri.
Kyou olhou para a mulher, agora com um olhar mais atento. Ela realmente parecia… vazia, de alguma forma. Como se fosse feita apenas de lembranças e tempo acumulado.
Kyou
Isso é só… resignação.
Ele então se inclinou levemente para frente e tocou a mão da idosa.
Uruma
Senhora, pode nos contar sobre o que mais amou em sua vida?
Uruma
E o que aconteceu com ele?
Kyou queria dizer algo, mas Uruma foi mais rápido.
Uruma
E mesmo assim você ainda o ama?
Idosa/amor
Como eu poderia não amar?
Uruma virou-se para Kyou.
Uruma
Amor não é posse. Amor não é presença. Se fosse, ele teria morrido junto com aquele que partiu.
Kyou
Então você está dizendo que amor é só… saudade?
Uruma
Saudade é o vazio. Amor é o que o preenche.
Idosa/amor
Eu vivi tanto tempo sem ele… mas nunca sem o amor que sentia por ele.
Idosa/amor
Eu estou perto da morte.
Idosa/amor
Mas não me sinto arrependida.
Kyou a observava, sem saber o que dizer. Era uma resposta que não se encaixava na lógica que ele esperava.
Kyou
Não sente que faltou algo? Que deveria ter feito mais?
Idosa/amor
O medo já passou há muito tempo. O que restou foi a paz de saber que vivi.
Kyou olhou para Uruma, buscando alguma explicação, mas Uruma parecia absorto, observando a mulher com uma atenção calma, como se já soubesse o que ela diria antes mesmo que falasse.
Idosa/amor
Muitos me perguntam se eu me arrependo. Se gostaria de ter feito algo diferente.
Idosa/amor
Mas a verdade é que, em todos esses anos, eu vivi cada momento com a intensidade que pude.
Idosa/amor
Amar alguém é se entregar ao tempo, ao fluxo da vida, sabendo que tudo é efêmero.
Idosa/amor
E eu nunca precisei que o amor fosse eterno. O que importa é o que ele foi, enquanto durou.
Kyou
Então, você não tem arrependimentos?
Kyou
Não tem nada que você faria de outra forma?
Idosa/amor
Não. Eu fiz o que pude, e o que não fiz, ficou para trás. O que importa agora é o que ainda posso viver, mesmo que seja apenas mais um dia.
Idosa/amor
Eu não sou diferente de vocês
Idosa/amor
O amor não significa perfeição. Não significa controle. Ele é, simplesmente, uma escolha. E, no fim, não importa o quanto você ame, ou quanto você perca. O que importa é o que você faz com o tempo que tem.
Uruma
O arrependimento vem do medo de não ter vivido o que se deveria.
Uruma
Mas o que ela nos ensina, Kyou, é que, quando se ama profundamente, não há espaço para arrependimento.
Uruma
O que passou, passou. O que importa é o que se sente agora.
Uruma se levantou lentamente, os movimentos tão precisos e calculados que o som do seu corpo se erguendo parecia ensurdecedor na quietude da sala.
Ele estava tão calmo quanto sempre, mas algo no ar mudara. Ele se aproximou da idosa, os olhos fixos nela, um olhar inexpressivo, mas carregado de uma intenção que Kyou ainda não conseguia decifrar.
A idosa parecia não perceber a mudança na atmosfera, ou talvez, soubesse exatamente o que estava acontecendo, mas nada indicava que ela se importasse. Seu sorriso continuava lá, sereno e silencioso.
Uruma puxou um canivete pequeno da bolsa, a lâmina brilhando à luz suave da sala. Kyou engoliu em seco, um arrepio percorreu sua espinha. O que ele estava fazendo?..
Uruma
Senhora, morreria por amor?
Kyou sentiu um choque percorrer seu corpo. O que estava acontecendo? Ele tentou dizer algo, mas as palavras simplesmente não saíam.
A idosa olhou fixamente para o canivete, mas seu sorriso não vacilou. Seu olhar, profundo e penetrante, parecia não se importar com a lâmina ou com a pergunta.
Idosa/amor
Morrer por amor?
Idosa/amor
Eu não preciso morrer por amor. O amor que vivi já foi suficiente para me preencher. A morte, para mim, não é um sacrifício, mas apenas uma parte do ciclo.
Uruma não se moveu, não retirou a lâmina. Ele parecia esperar, como se a resposta dela fosse parte de um experimento.
Kyou, por outro lado, sentia o pânico se espalhar pelo seu corpo. Ele queria intervir, perguntar se Uruma estava realmente disposto a fazer algo tão extremo.
Mas, antes que ele pudesse reagir, a idosa deu um sorriso mais profundo, como se tivesse compreendido algo que ninguém mais compreendia.
Idosa/amor
A morte não é o fim do amor, jovem
Idosa/amor
O amor transcende isso. Não é a vida ou a morte que determinam o valor do que sentimos.
Finalmente, Uruma guardou o canivete, ainda em silêncio. Não havia necessidade de mais palavras. A idosa tinha falado o suficiente para ele.
Ela não morreria por amor, não porque não fosse capaz de amar, mas porque o amor que ela carregava já era uma eternidade em si mesmo.
A tensão na sala diminuiu, mas Kyou ainda sentia o peso do que acabara de acontecer.
Uruma
O que você acha, Kyou? O amor pode ser um sacrifício? Ou ele transcende até a morte?
Uruma estava calmo, como sempre, mas havia algo nos seus olhos, uma intenção que Kyou nunca havia visto antes. Ele observava a idosa com uma frieza gélida, como se ela fosse apenas um objeto para sua próxima experiência.
Uruma se aproximou dela mais uma vez, seus passos leves e calculados. Ele não falava, não explicava, mas a atmosfera mudava a cada movimento seu.
A lâmina do canivete brilhava em sua mão como se fosse uma extensão de sua própria vontade, e Kyou percebeu, com um calafrio crescente, que Uruma não estava apenas testando as palavras da idosa. Ele estava testando a própria natureza do amor, da vida e da morte.
A idosa olhou para Uruma, ainda com aquele sorriso suave, como se nada no mundo pudesse abalá-la. Ela não temia. A morte, para ela, já havia se tornado algo distante, quase irrelevante. Ela já havia aceitado a vida e o amor que vivera, e agora parecia apenas aguardar a conclusão do ciclo.
Uruma parou diante dela e, sem dizer uma palavra, levantou o canivete. Kyou sentiu seu corpo se mover involuntariamente para frente, tentando evitar o que sabia que estava prestes a acontecer, mas não conseguia. Seus pés estavam como raízes, presos ao chão.
Ele não sabia se era o choque, o medo ou algo mais, mas não conseguia impedir o que estava prestes a acontecer.
Com uma precisão impiedosa, Uruma cravou a lâmina no peito da idosa. Não foi um golpe rápido, como Kyou esperava, mas um movimento deliberado, quase ritualístico, como se estivesse arrancando algo vital e profundo de dentro dela. A idosa não gritou.
Não houve sofrimento visível. Ela simplesmente olhou para Uruma com seus olhos, ainda serenos, e exalou um último suspiro.
A lâmina do canivete ainda estava enterrada no peito dela quando Uruma retirou a mão, limpando o canivete com um gesto simples, sem pressa. Ele não parecia alterado. Não parecia sentir o peso do que havia feito. Apenas observava a idosa com um olhar calculado, como se estivesse analisando os resultados de um experimento.
Kyou
Você... você realmente matou ela?
Uruma
A morte não é um fim, Kyou. É uma consequência. Ela já tinha vivido o suficiente.
Uruma
Ela não tem mais nada a aprender ou a ensinar. Tudo o que restava a ela era uma escolha. Ela escolheu o amor, e a morte foi apenas a próxima parte dessa escolha.
Uruma deu um passo em direção à porta, como se a cena anterior não tivesse qualquer relevância. Ele se virou para Kyou uma última vez, o rosto imutável.
Uruma
Você ainda não entende, Kyou. Não é sobre amar ou matar. É sobre o controle.
Uruma
O controle sobre a vida, sobre a morte, sobre o amor. A verdadeira questão é: quem decide o que é o fim?
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