Capítulo 2 - Explorando a arrogância humana
O ambiente era o mesmo. A mesa de madeira, a luz fraca, a tensão silenciosa entre os dois.
Mas, desta vez, não havia coelhos.
No centro da mesa, um gato siamês os observava com olhos azul-gelo, sua cauda balançando lentamente.
Kyou apoiou o cotovelo na mesa, descansando o queixo sobre a mão.
Kyou
E agora? O que esse gato tem a ver com a mente humana?
Uruma deslizou um pedaço de carne crua na direção do felino. O gato o ignorou por um instante, lambendo a própria pata antes de finalmente se dignar a comer.
Uruma
Diferente dos coelhos, que vivem em medo ou submissão, o gato não se importa com a nossa presença.
Uruma
Ele age conforme sua própria vontade.
Kyou observou o animal com um olhar pensativo.
Kyou
Então ele representa o quê? O instinto?
Uruma negou levemente com a cabeça.
Uruma
Ele representa a arrogância humana.
Uruma
Humanos acreditam que dominam tudo.
Uruma
Criam cidades, leis, tecnologias. Colocam cercas ao redor do que chamam de lar e declaram que pertencem a algum lugar.
Uruma
Mas olhe para esse gato. Ele vive sob o mesmo teto que um humano, mas nunca pertence a ninguém.
Kyou olhou para o animal, que agora os ignorava completamente, focado apenas em lamber a própria pata.
Kyou
Então, você quer dizer que a arrogância humana está em achar que controla tudo?
Uruma pegou um pequeno sininho dourado e o colocou diante do gato. O felino ergueu os olhos por um instante, depois virou o rosto, desinteressado.
Uruma
Humanos acreditam que podem domesticar qualquer coisa.
Uruma
Mas há uma grande diferença entre coexistir e possuir.
Uruma
Esse gato está aqui porque quer, não porque precisa.
Kyou
Mas se nós oferecermos comida, proteção… ele vai depender de nós, não?
Uruma
E essa é a maior ilusão de todas.
Uruma
Você pode alimentá-lo, cuidar dele, dar-lhe um nome.
Uruma
Mas, se abrir a porta, ele pode simplesmente ir embora sem olhar para trás.
Kyou ficou em silêncio por um momento. O gato continuava impassível, soberano em sua indiferença.
Kyou
Então a arrogância humana… está em achar que tudo precisa deles?
Uruma
E, mais do que isso, está em achar que tudo deveria ser moldado à sua vontade.
Kyou olhou para o gato por um longo tempo. Um animal tão pequeno e, ainda assim, carregava uma liberdade que os humanos nunca teriam.
Kyou
No fim, somos nós os que vivem enjaulados, não é?
O silêncio foi interrompido por um rosnado baixo.
Kyou se virou, apenas para ver um vulto na sombra. Um cachorro grande, de olhos famintos, parado na soleira da porta.
O gato, que até então se limpava sem pressa, finalmente ergueu a cabeça. Sua cauda parou de se mover.
Uruma não se moveu. Apenas observava.
Uruma
Agora vamos ver até onde vai o orgulho de quem se acha livre.
Kyou sentiu um nó na garganta. O gato não correu.
Ficou ali, como se desafiasse o cachorro a recuar primeiro. Seu erro foi acreditar que estava no controle.
O gato tentou reagir, desferindo um golpe com as garras no focinho do predador, mas foi tarde demais.
Dentes se fecharam ao redor de seu corpo. Um grito agudo cortou o ar.
Um estalo seco. O corpo do gato se debateu por segundos, então ficou mole.
Kyou assistiu em silêncio, sentindo o peito apertar. O cachorro largou a presa no chão, lambendo os beiços, enquanto o felino jazia ali, o pescoço torcido em um ângulo antinatural.
Uruma fechou os olhos por um instante.
Uruma
A arrogância cobra seu preço.
Kyou
Ele poderia ter corrido… poderia ter se escondido…
Uruma abriu os olhos lentamente, frios como a lâmina de uma faca.
Uruma
Mas ele não aceitou que existia algo maior do que ele.
O cachorro virou-se e sumiu na escuridão, como se nada tivesse acontecido.
O gato ficou para trás. Pequeno. Frágil. Silencioso.
Kyou manteve o olhar fixo nele, como se tentasse encontrar alguma justificativa para o que vira.
Kyou
Por que sempre acaba em morte?
Uruma não respondeu de imediato. Apenas pegou o sininho dourado que antes havia colocado diante do gato e o fez tilintar suavemente entre os dedos.
Uruma
Porque a morte é a única coisa absoluta.
Kyou
Isso não faz sentido. As lições não poderiam terminar de outra forma?
Uruma girou o sininho entre os dedos, o olhar divertido.
Uruma
Poderiam, mas não teriam impacto.
Kyou
Então você está dizendo que a única forma de aprender é perdendo?
Uruma
O ser humano só entende a fragilidade da vida quando a vê desaparecer diante de seus olhos.
Uruma
Enquanto tudo está vivo, acreditamos ser invencíveis.
Uruma
A morte é o único espelho que reflete a verdade sem distorções.
Uruma
O mundo é cruel. Só estou te mostrando o que ele já faz todos os dias.
Kyou apertou os punhos sobre a mesa, sentindo o sangue pulsar em suas têmporas.
O corpo do gato ainda jazia imóvel no chão, e o som do sininho que Uruma largara parecia ecoar em sua mente, repetindo-se como um aviso tardio.
Aquela cena se repetia. Sempre. Primeiro os coelhos, agora o gato. Um ciclo cruel, sem fim.
Ele ergueu os olhos e encarou Uruma. O outro continuava ali, inexpressivo, impassível, como se nada tivesse acontecido.
Como se a morte fosse apenas mais um detalhe, irrelevante e esperado.
Kyou
Você se diverte com isso?
Kyou
Assistindo esses animais morrerem como se fossem apenas… experimentos?
Kyou
Então por que continuar? Por que sempre acabar em morte?
Uruma
Porque a morte não é um experimento. Ela é uma verdade.
Uruma
E o que faço aqui… é apenas remover as ilusões que vocês insistem em criar.
Kyou
Então é isso que você pensa? Que somos todos cegos
Kyou
Que só entendemos algo quando vemos morrer diante de nós?
Uruma não respondeu de imediato. Apenas abaixou o olhar para o gato morto e, depois, voltou a encará-lo.
Uruma
Me diga você. Se o gato não tivesse morrido, você realmente estaria pensando nisso agora?
Kyou abriu a boca para retrucar, mas as palavras morreram em sua garganta.
Porque, no fundo, ele sabia a resposta.
E isso o enfurecia ainda mais.
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