Dois Silêncios se Encontram
O Lago das Cerejeiras estava quieto. As árvores sem flor, os galhos finos apontando pro céu nublado e sem cor. Era o tipo de lugar que só atraía quem não tinha mais para aonde ir.
Isis Hayami abraçava os joelhos com o queixo apoiado neles. Passou o dia servindo clientes, sorrindo por obrigação, agora só queria existir um pouco em paz no seu lugar favorito.
Passaram-se 10 minutos, Isis olhava pro Lago, com a cabeça baixa e a mente perturbada. Foi aí que ouviu passos.
Ela olhou de lado, devagar.
Um rapaz. Alto, magro, com os ombros caídos. Parecia cansado do próprio corpo. Usava uma jaqueta preta de couro, e tinha as mãos no bolso. Parou perto da margem, não muito longe dela. Não disse nada. Nem olhou.
Voltou os olhos pro lago, fingindo que não ligava. Mas lá dentro, algo sentia.
O vento passou devagar entre os dois.
As folhas se mexiam, mas eles não.
Passaram-se 10 minutos, os dois calados, um clima melancólico no ar e o silêncio já dizia por eles.
Isis Hayami
Você... vem sempre aqui?
Ela perguntou, com a voz meio baixa e tímida.
O Homem demorou um pouco, depois acenou com a cabeça, como se estivesse decidindo se podia confiar.
Itsuki Komori
Quando preciso sumir um pouco… sim.
Disse ele, sem muito ânimo, mas com honestidade.
Isis Hayami
Venho quase todas as tardes, nesse mesmo horário. Quando não quero lembrar que eu existo.
Ele assentiu, olhando pro chão.
Isis Hayami
Hoje foi um desses dias.
Disse Isis, apertando as mangas de seu casaco.
Ela olhou pra ele. Ele também olhou.
Itsuki Komori
Na minha vida... tudo é barulhento. Mas ninguém ouve nada do que importa.
A garganta dela apertou um pouco. Mas mesmo assim, confortável pra falar.
Isis Hayami
Eu sirvo mesas o dia inteiro. Sorrindo. Fingindo que tá tudo bem.
Isis Hayami
A parte mais triste é que ninguém percebe que é fingimento.
Itsuki Komori
Eu também finjo. Com os amigos. Com a vida. Só aqui... parece que não precisa, esse Lago guarda todas as mágoas.
Isis Hayami
Meus pais vivem ligando, mas não é porque se importam. É só pra controlar. Tipo: “onde você tá?”, “por que não responde?”. Mas quando eu morava com eles... eu não era nada. Só servia pra levar a culpa de tudo que acontecia na vida deles.
Itsuki Komori
O meu pai grita. A minha mãe finge que não vê. Eu meio que aprendi a sumir sem sair do lugar.
Itsuki Komori
Moro sozinho, mas parece que sou atormentado todos os dias por essas lembranças.
Ficaram quietos por um tempo, o silêncio já estava curioso.
Isis Hayami
Contar essas coisas pra alguém que eu acabei de conhecer.
Itsuki Komori
É, Mas talvez seja por isso mesmo que dá pra contar.
Ela sorriu de canto. Um sorriso triste.
Itsuki Komori
Aliás... Qual é o seu nome?
Isis Hayami
Isis! Isis Hayami.
Itsuki Komori
Itsuki Komori.
Ficaram assim, com os nomes soltos no ar. Naquele momento, não eram dois estranhos.
Eram só dois jovens cansados, finalmente falando sobre as suas dores.
Isis Hayami
Você vai vir aqui de novo?
Ela perguntou, com a voz mais baixa que queria. Com medo de parecer intrometida.
Itsuki Komori
Acho que sim. É o único lugar onde encontro a paz.
Isis Hayami
Se... você quiser passar aqui de novo.
Ele olhou pra ela. O olhar era cansado, mas tinha um pedaço pequeno de algo quase impossível: um começo.
Ficaram mais uns minutos ali, calados. Depois, Itsuki se levantou.
Itsuki Komori
Fique bem, Isis.
Ela dá um sorriso leve, quase sem jeito
Isis Hayami
Você também, Itsuki.
E então ele foi embora, andando devagar e as mãos no bolso. O lugar ficou vazio ao lado dela, mas o mundo, de repente, parecia um pouquinho menos pesado.
Estava anoitecendo, Isis levanta e vai para casa, com o coração mais calmo.
No dia seguinte, ela trabalhou calada.
Como sempre, mas... diferente.
Os pratos batiam, os pedidos vinham e iam, a senhora Fumiko resmungava como sempre. Mas nada parecia igual aquele jeito pesado de antes.
Às 17h15 em ponto, tirou o avental com pressa e pegou o caminho do lago. Os pés doíam. O corpo também. Mas havia algo lá dentro empurrando ela pra frente.
Chegou e olhou o banco, estava vazio.
Sentou mesmo assim. Fingiu que não esperava ninguém mais. Apenas ela, como sempre.
Ficou ali alguns minutos, o sol já se pondo entre os galhos, e pensou:
Isis Hayami
“Ele não vem. Claro que não vem. Por que viria?”
Virou o rosto, e lá estava ele.
Itsuki. De novo com aquele jeito meio sem jeito, e as mãos nos bolsos.
Isis Hayami
Achei que não vinha.
Itsuki Komori
Também achei. Mas...
Itsuki Komori
Não consegui não vir.
Isis fez um espaço ao lado no banco, como se fosse natural. E ele sentou.
Ficaram em silêncio por um tempo, só ouvindo o barulho da água e o vento passando entre os galhos.
Isis Hayami
Hoje quase chorei no meio do trabalho.
Isis Hayami
Um cliente gritou comigo por um erro que nem foi meu. Eu só... engoli. Fingi que tava tudo bem.
Itsuki Komori
Às vezes eu acho que se eu sumisse, ninguém ia perceber por uns bons dias.
Nenhum dos dois falava nada sobre o outro, diziam sobre suas vidas, querendo apenas ouvidos.
Isis Hayami
Eu acho que meus pais iam notar se eu sumisse. Só pra reclamar que eu deixei o celular desligado.
Itsuki virou o rosto devagar, e olhou pra ela com cuidado. Não pena. Só... atenção.
Itsuki Komori
Você é boa em esconder.
Isis Hayami
É. E você também.
Por um instante, o mundo inteiro parecia ter parado, apenas os dois respirando o mesmo ar.
Depois daquele segundo encontro, os dias começaram a seguir um novo ritmo.
O mundo lá fora continuava igual — barulhento, exigente, pesado. Mas às 17h30, Isis sabia que algo esperava por ela. Ou melhor, alguém.
Itsuki quase sempre já estava lá, sentado, mexendo nas pedrinhas perto do banco ou só encarando o céu como se quisesse entender alguma coisa.
Eles não falavam muito.
Às vezes sim, outras vezes só dividiam
Passaram-se semanas, até que um dia no Lago das Cerejeiras:
Era fim de tarde. As nuvens estavam rosadas, e o lago refletia aquele céu calmo demais pra combinar com o que Isis sentia por dentro.
Itsuki apareceu alguns minutos depois, do mesmo jeito de sempre — quieto, com passos leves, como quem não quer incomodar o mundo.
Isis estava sentada em um banco, olhando para o chão.
Itsuki sentou ao lado dela sem dizer nada.
Por um tempo, ficaram olhando a água se mover.
Itsuki Komori
Você vem amanhã, Isis?
Ele perguntou, quebrando o silêncio com uma voz baixa.
Isis Hayami
Vou tentar... se a senhora Fumiko me segurar mais uma vez, talvez eu me jogue dentro da pia de louça.
Itsuki Komori
Então... Eu posso pegar o seu número?
Isis olhou para ele, sem jeito.
Itsuki Komori
Só pra saber se tá tudo bem. Não vou mandar mensagem toda a hora, nem lhe emcomodar, prometo.
Aquele pedido parecia simples, mas não era. Ninguém nunca perguntava se ela estava bem. Só cobravam, mandavam, exigiam.
Ela pegou o celular do bolso e estendeu pra ele, com as mãos trêmulas.
Isis Hayami
É estranho… mas eu confio em você.
Itsuki pegou o celular devagar, como se fosse algo frágil, e digitou o próprio número ali, com cuidado. Depois devolveu pra ela.
Itsuki Komori
Me manda um “oi” quando quiser. Ou um “não quero falar hoje”. Qualquer coisa. Só… sei lá. Pra eu saber que você ainda tá aqui.
Tá. Eu mando. Nem que seja só um “To viva”.
Os dois riram, meio tristes, meio leves.
As horas foram se passando, conversas leves e desajeitadas. Mas mesmo falando pouco, os dois pareciam se entender.
As 19:00, os dois se despedem, sabendo que não será um Adeus.
- NA CASA DE ISIS HAYAMI -
Era quase meia-noite.
O quarto de Isis estava escuro, só iluminado pela tela do celular.
Ela tinha aberto a conversa com Itsuki umas dez vezes. Escrito, apagado. Escrito de novo, apagado.
Tinha medo de incomodar. Medo de parecer boba e chata.
Mas, no fundo, mais medo ainda de continuar invisível ali.
Finalmente, respirou fundo.
Isis Hayami
[Isis – 00:11]
Oi.
Ela encarou a mensagem por uns segundos. Queria apagar. Queria sumir.
Itsuki Komori
[Itsuki – 00:12]
Oi. :) Fico feliz que você mandou.
Isis Hayami
[Isis – 00:13]
Não sei o que dizer. Só… queria saber se você tava bem.
Itsuki Komori
[Itsuki – 00:13]
Tô meio quebrado, mas ainda aqui. E você? Sobreviveu à senhora Fumiko?
Ela riu baixinho. Sozinha no quarto.
Isis Hayami
[Isis – 00:14]
Sobrevivi. Quase virei parte da louça. Mas tô inteira.
Itsuki Komori
[Itsuki – 00:13]
Então já é uma vitória.
Isis Hayami
[Isis – 00:17]
Obrigada por responder. De verdade.
Itsuki Komori
[Itsuki – 00:18]
Você não incomoda, Isis. Nunca
Ela ficou olhando por um tempo. Aquelas palavras simples, mas tão raras pra ela.
Alguém dizendo que ela não era demais, não era um peso.
Naquela noite, ela dormiu com o celular no peito. Pela primeira vez, parecia feliz de verdade.
Os dias passavam, o trabalho continuava cansativo, Fumiko continuava rígida (com cuidado disfarçado), e os pais de Isis continuavam tentando controlar ela à distância.
Mas… havia o lago.
E havia Itsuki.
Nem todos os dias eles se viam.
Mas todos os dias ela pensava: será que ele vai estar lá?
E quase sempre… ele estava.
Numa tarde em que o céu estava nublado, Isis se sentou mais perto dele que o habitual.
Estava calada.
Itsuki Komori
Aconteceu alguma coisa?
Ela demorou a responder. Ficou encarando o chão, as mãos escondidas nas mangas. Os olhos estavam úmidos, mas ela não chorava.
Isis Hayami
Você já teve vontade de sumir? Tipo... não morrer exatamente, apenas sumir e querer que todos esqueçam de você?
Itsuki demorou para responder.
Itsuki Komori
Sempre. Desde pequeno.
Isis Hayami
Eu sempre achei que eu era o problema. Que se eu só me esforçasse mais, falasse menos, tirasse notas melhores… talvez a minha mãe gostasse mais de mim. Talvez o meu pai tivesse ficado. Talvez eu não me odiasse tanto.
A voz dela falhou um pouco no final. Mas ela não chorou. Só respirou fundo.
Itsuki Komori
Você não é o problema, Isis. Você nunca foi.
Itsuki Komori
Eles é que não souberam te ver. E agora você tá tentando sobreviver com o espelho que eles deixaram na sua cabeça. Apenas acha isso porquê eles te disseram, não por você pensar.
Ela virou o rosto, encarou ele por um instante. Era raro alguém falar com tanta firmeza, mas sem raiva. Sem pena.
Isis Hayami
Às vezes eu penso que se eu desaparecesse, eles iam só dizer “ela sempre foi estranha mesmo” ou "Ainda bem que ela não está aqui".
Ele disse, encarando Isis nos olhos.
Itsuki Komori
Eu sentiria sua falta. De verdade.
Foi aí que Isis chorou. Sem barulho. Sem escândalo. As lágrimas só escorreram devagar, como se já estivessem esperando pra sair há muito tempo.
Itsuki não disse nada. Só ficou ali.
Presente. Inteiro. Firme.
Estava ao lado, quieto. Não encostava. Não falava. Só respirava do lado dela, como quem dizia: eu tô aqui, mesmo que você não consiga olhar pra mim agora.
Depois de um tempo, Isis conseguiu falar. Baixo.
A voz falhada, como se cada palavra tivesse que atravessar um espinho.
Isis Hayami
Eles me fazem sentir como se eu fosse o erro. Sempre eu. Nunca eles. Se eu reclamo, sou ingrata. Se me afasto, sou cruel. E se fico perto… sufoco, sinto que não mereço sentir nada.
Itsuki Komori
Quando eu era pequeno...
Ele começou, quase sem olhar pra ela.
Itsuki Komori
...meu pai bebia muito. E batia mais quando tava sóbrio.
Isis parou de chorar por um instante. Olhou pra ele de lado.
Ele ainda encarava o chão
Itsuki Komori
A minha mãe… fingia que não via. Ou dizia que eu tinha provocado. Que era só “educação firme”. Cresci achando que amor doía. Que era normal viver com medo de abrir a boca na hora errada.
Itsuki Komori
Engraçado, né? Crescemos de formas tão diferentes… mas o buraco parece o mesmo.
Isis encostou a cabeça no ombro dele. Pela primeira vez.
Ficaram ali por longos minutos, com os olhos serenos e o peito exposto, feito dois cacos se encostando devagar.
Isis Hayami
Como você aprendeu a viver com isso?
Itsuki Komori
Eu não aprendi ainda. Só… aceito que tem dias que dói. E outros em que eu consigo respirar. E quando não dá pra respirar sozinho… eu tento achar um lugar onde alguém fique quieto comigo.
Isis apertou os olhos, lutando pra não chorar de novo. Mas agora era diferente.
O choro já não era só dor.
Era… alívio.
Isis Hayami
Você é esse lugar.
Itsuki fica calado, seus olhos se encontram. Encostando a testa na dela, levemente.
Itsuki Komori
E você é a primeira pessoa que me deixa ser fraco sem querer fugir.
As árvores balançavam devagar, como se soubessem o que estavam sentindo.
Naquele silêncio cheio de verdades, dois corações cansados aprenderam que não estavam mais sozinhos.
E às vezes… isso é o começo da cura.
Nos dias seguintes, o mundo não ficou mais leve. Mas seus corações... talvez.
Eles começaram a criar pequenas rotinas.
Contar quantos barcos passavam no lago. Inventar nomes pros patos. Jogar pedra na água vendo quem fazia mais ondinha.
Nada disso curava. Mas distraía. Aquecia.
Itsuki Komori
Trouxe pão de mel.
Disse ele uma tarde, sem cerimônia, estendendo o pacotinho como quem entrega um presente raro.
Isis Hayami
Isso parece suborno emocional!
Itsuki Komori
É. Eu quero comprar teu carinho com açúcar.
Ela riu de novo. Um pouco mais alto dessa vez.
Ali, não se sentiu culpada por estar feliz.
Passou-se uma hora. Isis mexia os dedos na água do lago, distraída, e Itsuki olhava um peixe tentando subir contra a corrente, como se o esforço fizesse sentido.
Isis Hayami
Você acha que ele vai conseguir?
Ela perguntou, apontando.
Itsuki Komori
Não sei… parece burro, mas determinado. Me identifico.
Isis Hayami
Você acabou de se chamar de burro?
Itsuki Komori
Com orgulho. Tenho meus momentos brilhantes, mas a maioria é só teimosia mesmo.
Isis soltou um riso curto, abafado pela manga do moletom.
Isis Hayami
Eu sou mais do tipo que foge.
Itsuki Komori
Isso também é um talento. Você já viu o tanto de gente que fica parada em lugar ruim porque não tem coragem de fugir?
Isis, pela primeira vez desde que chegou ali, sentiu algo quente dentro do peito. Uma espécie de conforto… meio estranho, meio bobo.
Isis Hayami
Você sempre fala assim? Tipo… tudo parece meio verdade e meio piada?
Itsuki olhou pra ela e sorriu pela primeira vez.
Itsuki Komori
Só quando tô nervoso.
Isis Hayami
Tá nervoso por quê?
Itsuki Komori
Porque tem uma garota bonitinha aqui do meu lado, e eu ainda não sei se ela vai embora sem nunca mais voltar.
Isis riu. De verdade dessa vez.
E Itsuki riu também, meio aliviado, meio surpreso por ter conseguido arrancar aquilo dela.
Eles ficaram em silêncio depois disso, mas era outro tipo de silêncio.
Não o silêncio da solidão.
Era aquele onde não precisava mais fugir de si.
E o lago… finalmente parecia alegre de verdade.
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