Entre o Trabalho e o Vazio
Isis Hayami estava sentada no cantinho do quarto, com um suéter velho que cobria até as mãos. O chão gelado não a incomodava nem um pouco. Escrevia devagar no seu diário, meio perdida nos próprios pensamentos. A luz do fim da tarde entrava fraca pela janela, parecia que até o sol desistiu de aparecer.
O celular vibrava ao lado dela, sem parar, mas ela nem ligava. Já sabia ser algo que ia machucar. E, às vezes, o silêncio dói menos.
• Trechos do diário de Isis •
''Minha mãe ligou de novo.
Disse que eu devia ser mais grata. Mas grata por quê exatamente? Por crescer com medo de errar? Por me sentir inútil e me culpar
até por ações que nem minhas foram?"
''Às vezes eu queria sumir. Não para morrer, mas só... apagar minha existência. Parar de fingir. Parar de me sentir assim, tão quebrada.
Só deitar num lugar calmo e ser esquecida por alguns dias, esquecer de mim mesma."
''O Lago das Cerejeiras continua sendo meu refúgio.
As pétalas caindo devagar, o aroma da natureza, é tudo tão lindo e calmo. Lá ninguém vai, ninguém me julga e me olha torto. Posso esquecer de tudo, ou também, pensar em tudo. Apenas sentir o vento bater. Eu, e mais ninguém."
''Estou exausta.
Tô sempre tão cansada. Sabe quando você sorri pra fora e grita por dentro?
Eu vivo assim. Será que a culpa é minha? Quando isso tudo irá passar? Eu realmente, não sei.
4 de Março de 2025
07:15 da manhã
No restaurante, Senhora Fumiko, esposa do chefe, estava de braços cruzados esperando por Isis com a expressão rígida e olhar frio.
Sra. Fumiko
Você de novo atrasada, Isis?
Diz Sra. Fumiko, com aquele tom seco.
Isis Hayami
Desculpe, senhora Fumiko… Eu prometo que não irá acontecer novamente.
Sra. Fumiko
Promete? Promessa não enche barriga, menina. Haja paciência mesmo! Já perdi a conta de quantas vezes você chega com essa cara de defunto e sempre atrasada! Você sabe muito bem que o horário aqui é às seis, em ponto!
Isis Hayami
Desculpa, Eu… eu acordei tarde. Não foi por querer. Eu vou me esforçar mais, prometo…
Diz Isis, falando baixo, quase num sussurro, sem encarar a senhora nos olhos.
Sra. Fumiko
Só não deixa isso virar rotina, entendeu, garota? A vida não é fácil pra ninguém, apenas faça suas obrigações antes que não haja mais espaço para você aqui.
Isis Hayami
Claro, Senhora.
Isis ajeitou o avental e prendeu o cabelo.
Pronta para mais um dia de trabalho.
O restaurante começava a encher e o cheiro do caldo quente e do óleo impregnava o restaurante. No meio do calor, do cansaço, de todo aquele barulho, pessoas que forçavam felicidade.
Isis limpava uma mesa perto da janela, cansada, mas ainda assim mantendo-se firme.
Chamou Ichirou, seu chefe.
Marido de Fumiko. Expressão séria, os olhos cansados, mas sempre atentos a tudo. Ele não gritava como Fumiko, mas quando falava, era sempre firme e com razão.
O estômago de Isis se embrulhava. Ela ficou parada, com o pano de prato ainda nas mãos, esperando algo ruim.
Ichirou - CHEFE
Podemos conversar um instante?
Isis segue Ichirou até os fundos, com aquele medo inexplicável tomando conta de si.
Ichirou - CHEFE
Olha... isso não é sobre você, os pedidos, nem os clientes.
Ichirou respira fundo, parado e pensativo. Como se não soubesse o que dizer.
Ichirou - CHEFE
É sobre seus pais.
Isis ficou parada, com o pano de prato ainda nas mãos, apertando-o com força. Apenas a Palavra "Pais" já era suficiente para algo mau.
Ichirou - CHEFE
Seus pais ligaram, de novo. Querem saber por que você não atende as ligações. Sua mãe falou com a Fumiko ontem…
Isis ficou parada, sem saber o que fazer, pensando em só fugir dali.
Ichirou - CHEFE
Disseram que estão preocupados. Que você anda “sumida”, “fria”, e que não responde nada. Perguntaram-me se você está bem. Se tem sido responsável. Como se… como se quisessem controlar sua vida.
Isis soltou um riso irônico, sem alegria nenhuma, sua expressão séria e as mãos trêmulas.
Isis Hayami
Eles não estão preocupados. Eles só não aceitam que eu existo sem precisar deles controlando cada parte de mim.
Isis Hayami
Me desculpe por essa confusão toda Chefe. Não quero que a minha vida pessoal afete o meu trabalho.
Ichirou fica desconfortável e preocupado. Era bom com panelas, administração, mas não com emoções.
Ichirou - CHEFE
Eu não gosto de me meter em assuntos pessoais… Isis. Mas se você quiser, posso dizer que não trabalho mais aqui, ou que você mudou de cidade.
Ela olhou para ele surpresa. Pela primeira vez no dia ela sentiu alívio.
Isis Hayami
Obrigada... de verdade! Isso me ajudaria muito. Me desculpe mais uma vez pelo ocorrido.
Ichirou - CHEFE
Tudo bem, garota! E se algum dia quiser conversar… eu tô por aqui.
Ichirou - CHEFE
Preciso cuidar dos negócios, bom trabalho.
Ela não respondeu. Só acenou a cabeça para baixo com um sorriso fraco que não durou muito. Quando Ichirou saiu, Isis ficou ali sozinha e pensativa. E pela primeira vez naquele dia, se sentiu acolhida por alguém.
Isis continua o seu expediente durante o dia.
Sra. Fumiko
Pode ir, você já fez sua parte por hoje.
Diz Sra. Fumiko, com seu tom rude de sempre.
Isis tirou seu avental devagar, cansada e apressada para apenas poder descansar e ter paz.
Ela não foi direto pra casa. Em vez disso, seguiu em silêncio 10 minutos, até o Lago das Cerejeiras, um lugar escondido que quase ninguém lembrava. Onde ela sempre ia para pensar e descansar.
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