Capítulo quatro

Demoro meia hora para ir do carro até o apartamento. Liguei duas vezes para Lucy; queria sua ajuda, mas ela não atendeu. Quando entro no apartamento, fico um pouco irritada ao vê-la deitada no sofá com o celular no ouvido. Bato a porta, e ela ergue o olhar. — O que aconteceu com você? — pergunta ela. Uso a parede como apoio para pular até o corredor. — Torci o tornozelo. Quando alcanço a porta de meu quarto, ela grita: — Desculpe por não ter atendido o telefone! Estou falando com Alex! Eu ia te ligar depois! — Tudo bem! — grito de volta, e bato a porta do quarto. Vou para o banheiro e encontro alguns analgésicos velhos guardados no armário. Engulo dois, me jogo na cama e fico encarando o teto. Não acredito que vou passar uma semana inteira presa no apartamento. Pego o celular e mando uma mensagem para minha mãe. Torci o tornozelo. Estou bem, mas preciso de umas coisas. Pode comprar para mim? Largo o celular na cama e, pela primeira vez desde que minha mãe se mudou, fico feliz por ela morar razoavelmente perto. Na verdade, não tem sido tão ruim. Acho que gosto mais dela agora que meu pai faleceu. Guardei muito ressentimento por ela nunca tê-lo deixado. Apesar de boa parte desse ressentimento ter passado, o que sinto por meu pai continua. Não deve fazer bem guardar tanta mágoa do próprio pai. Mas, caramba, ele foi horrível. Comigo, com minha mãe, com Atlas. Atlas. Estava tão ocupada com a mudança de minha mãe, e com minha busca secreta pela loja enquanto ainda trabalhava, que nem tive tempo de terminar de ler os diários encontrados meses atrás. Dou um pulo ridículo até o armário e tropeço apenas uma vez. Felizmente, eu me seguro na cômoda. Depois que pego o diário, volto para a cama e me acomodo. Não tenho nada melhor a fazer na próxima semana já que não posso trabalhar. Por que não lamentar meu passado se vou ser obrigada a lamentar meu presente? Querida Ellen, Sua apresentação do Oscar foi a melhor coisa que aconteceu na TV no ano passado. Acho que nunca comentei isso com você. A cena com o aspirador de pó me fez mijar nas calças de tanto rir. Ah, hoje eu recrutei um novo seguidor para você: Atlas. Antes que comece a me julgar por eu ter deixado ele entrar de novo em minha casa, me deixe explicar o que aconteceu. Depois que deixei ele tomar banho aqui ontem, não o vi mais à noite. Mas hoje de manhã ele se sentou a meu lado no ônibus. Parecia um pouco mais feliz que antes, porque até sorriu para mim quando se sentou. Não vou mentir, foi um pouco estranho ver ele usando as roupas de meu pai. Mas a calça ficou bem melhor que imaginei. — Adivinha só? — disse ele, inclinando-se para a frente e abrindo a mochila. — O quê? Ele pegou uma sacola e a entregou para mim. — Encontrei isso na garagem. Tentei limpar para você porque estavam empoeiradas, mas sem água não dá para fazer muita coisa. Seguro a sacola e o encaro, desconfiada. Nunca vi ele falar tanto. Finalmente dou uma olhada na sacola e a abro. Parecia um monte de ferramentas de jardinagem. — Vi você cavando com aquela pá no outro dia. Não sabia se você tinha ferramentas de jardinagem de verdade, e ninguém estava usando essas aqui, então... — Obrigada — agradeci. Fiquei meio chocada. Eu costumava usar uma espátula, mas o plástico do cabo quebrou e comecei a ficar com bolhas nas mãos. Pedi para minha mãe me dar ferramentas de jardinagem de aniversário no ano passado, e, quando ela me deu uma pá grande e uma enxada, não tive coragem de dizer que não era daquilo que eu precisava. Atlas pigarreou, depois bem mais baixo, disse: — Eu sei que não é um presente de verdade. Não comprei nem nada do tipo. Mas... eu queria te dar alguma coisa. Sabe... por ter... Ele não terminou a frase, então balancei a cabeça e amarrei de volta a sacola. — Acha que pode ficar com elas até depois das aulas? Não tenho espaço em minha mochila. Ele pegou a sacola, colocou a mochila no colo e a guardou ali dentro. Depois abraçou a mochila. — Quantos anos você tem? — perguntou ele. — Quinze. Seu olhar deu a impressão de que ele ficou um pouco triste com minha idade, não sei o porquê. — Está no primeiro ano? Fiz que sim, porque sinceramente não consegui pensar em nada para dizer. Eu não costumava interagir muito com garotos. Ainda mais do terceiro ano. Quando me sinto nervosa, simplesmente fico quieta. — Não sei quanto tempo vou ficar lá — disse ele, sussurrando de novo. — Mas, se precisar de ajuda com o jardim ou alguma outra coisa depois da escola, eu não tenho muita coisa pra fazer. Porque não tenho eletricidade, né? Eu ri e depois me perguntei se deveria ter rido do comentário autodepreciativo. Passamos o resto do trajeto de ônibus conversando sobre você, Ellen. Quando ele fez esse comentário sobre tédio, perguntei se já tinha visto seu programa. Ele disse que gostaria de ver, porque acha você engraçada, mas para ter TV precisa de eletricidade. Mais uma vez eu ri, sem saber se deveria ou não. Eu disse que ele poderia assistir ao programa comigo depois do colégio. Sempre gravo no DVR e vejo enquanto faço as tarefas domésticas. Pensei em passar o ferrolho na porta da frente, e se meus pais chegassem cedo, Atlas só precisaria sair correndo pela porta dos fundos. Não o vi novamente até a volta para casa. Ele não se sentou a meu lado porque Katie subiu no ônibus antes dele e ocupou o lugar. Eu queria pedir para ela mudar de banco, mas aí ela acharia que estou a fim de Atlas. Katie ia encher o saco, então deixei ela ficar ali. Atlas estava na parte da frente do ônibus, então desceu antes de mim. Ele meio que ficou parado no ponto, me esperando, meio constrangido. Quando saí, ele abriu a mochila e me entregou a sacola com as ferramentas. Não disse nada sobre o convite que fiz mais cedo para ele ver TV comigo, então simplesmente agi como se fosse óbvio. — Vamos — falei. Ele me acompanhou até dentro de casa, e eu passei o ferrolho na porta. — Se meus pais chegarem cedo, saia correndo pela porta dos fundos e não deixe que eles te vejam. Ele concordou com a cabeça. — Não se preocupe, vou fazer isso — disse ele, meio que rindo. Perguntei se queria beber alguma coisa, e ele disse que sim. Preparei um lanche para a gente e levei as bebidas para a sala. Eu me sentei no sofá, e ele, na poltrona de meu pai. Sintonizei seu programa, e isso foi basicamente tudo o que aconteceu. Não conversamos muito porque eu adiantei o vídeo na parte de todos os comerciais. Mas percebi que ele riu nos momentos certos. Acho que entender o timing para comédia é uma das coisas mais importantes na personalidade de uma pessoa. Toda vez que ele ria de suas piadas, eu me sentia melhor por tê-lo deixado entrar escondido em minha casa. Não sei o motivo. Talvez eu me sinta menos culpada quando percebo que poderíamos ser amigos. Ele foi embora assim que seu programa acabou. Eu queria perguntar se ele precisava tomar outro banho, mas ficaria muito perto da hora de meus pais chegarem. E a última coisa que eu queria era que ele saísse correndo pelado pelo quintal. Mas, ao mesmo tempo, isso seria hilário e incrível.Lily Querida Ellen, Qual é, cara? Reprises? Uma semana inteira de reprises? Entendo que você precise de uma folga, mas eu queria fazer uma sugestão: em vez de gravar um programa por dia, devia gravar dois. Assim vai fazer o dobro em metade do tempo, e a gente nunca precisaria ver reprises. Eu digo “a gente” porque estou me referindo a Atlas e a mim. Ele passou a assistir regularmente a seu programa comigo. Acho que ele gosta de você tanto quanto eu, mas nunca vou contar que escrevo para você todos os dias. Ele acharia meio infantil... Faz duas semanas que ele está morando naquela casa. Tomou mais alguns banhos aqui, e dou comida para ele sempre que me visita. Até lavo suas roupas enquanto ele está aqui depois do colégio. Ele fica pedindo desculpas, como se fosse um fardo. Mas, sinceramente, eu adoro. Desse jeito eu me distraio e até fico ansiosa pelos momentos juntos todos os dias depois do colégio. Hoje à noite meu pai chegou tarde em casa, o que significa que ele foi para o bar depois do trabalho. O que significa que ele provavelmente vai brigar com minha mãe. O que significa que ele provavelmente vai fazer alguma besteira. Juro que às vezes fico com muita raiva dela por ainda estar com ele. Sei que só tenho 15 anos e que não entendo todas as razões que a levam a ficar com ele, mas eu me recuso a deixar ela me usar como desculpa. Não me importa se é pobre demais para sair de casa, nem se a gente teria de se mudar para um apartamento péssimo e comer miojo até eu me formar. Seria melhor que a situação atual. Estou ouvindo ele gritar com ela. Às vezes, quando fica assim, eu apareço na sala para ver se ele se acalma. Meu pai não gosta de bater nela quando estou por perto. Talvez eu devesse tentar fazer isso.Lily Querida Ellen, Se eu tivesse acesso a uma arma ou a uma faca agora, eu mataria meu pai. Assim que entrei na sala, eu o vi empurrando minha mãe no chão. Eles estavam na cozinha, e ela agarrou o braço dele, para tentar acalmá-lo, mas ele a esbofeteou com as costas da mão e a derrubou no chão. Tenho certeza de que ele ia chutá-la, mas me viu entrar na sala e parou. Murmurou algo para ela, foi para o quarto e bateu a porta. Corri até a cozinha e tentei ajudá-la, mas ela nunca quer que eu a veja nesse estado. Então gesticulou para que eu me afastasse e disse: — Estou bem, Lily. Estou bem, a gente teve uma maldita briga, só isso. Ela estava chorando, e já dava para ver a vermelhidão em sua bochecha, onde ele tinha batido. Quando me aproximei, para ter certeza de que estava bem, minha mãe se virou de costas e agarrou o balcão. — Já disse que estou bem, Lily. Volte para seu quarto. Saí em disparada pelo corredor, mas não voltei para o quarto. Corri até a porta dos fundos e atravessei o quintal. Eu estava com muita raiva por ela ter sido grosseira comigo. Não queria nem ficar na mesma casa que os dois, e, apesar de já estar escuro, fui até onde Atlas estava e bati à porta. Eu escutei ele se movimentando lá dentro, como se tivesse derrubado algo sem querer. — Sou eu. Lily — sussurrei. Alguns segundos depois, a porta dos fundos se abriu e ele olhou para além de mim, depois para minha esquerda e para minha direita. Só quando ele me olhou no rosto percebeu que eu estava chorando. — Você está bem? — perguntou, saindo para a varanda. Usei minha camisa para enxugar as lágrimas, e percebi que ele tinha saído da casa em vez de me convidar para entrar. Eu me sentei no degrau da varanda, e ele se acomodou a meu lado. — Estou bem — respondi. — Só estou zangada. Às vezes choro quando fico zangada. Ele estendeu o braço e colocou meu cabelo atrás da orelha. Gostei disso, e de repente minha raiva diminuiu. Então, ele pôs o braço a meu redor e me puxou para perto, deixando minha cabeça apoiada em seu ombro. Não sei como ele me acalmou sem dizer nada, mas foi o que aconteceu. A simples presença de algumas pessoas acalma, e com ele é assim. É o completo oposto de meu pai. Ficamos sentados assim por um tempo, até que vi a luz de meu quarto se acender. — É melhor você ir — sussurrou ele. Nós dois vimos minha mãe parada no quarto, me procurando. Só naquele instante percebi a vista perfeita que ele tinha do cômodo. Enquanto voltava para casa, tentei pensar em todo o tempo que Atlas passara naquela casa. Tentei lembrar se eu tinha andado alguma vez com a luz acesa durante a noite, porque normalmente, quando estou no quarto à noite, fico só de camiseta. E, olha só a maluquice, Ellen: eu torcia para ter feito isso, sim. Lily Fecho o diário quando os analgésicos começam a fazer efeito. Amanhã leio mais. Talvez. Ler sobre as coisas que meu pai fazia com minha mãe me deixa meio mal-humorada. Ler sobre Atlas me deixa meio triste. Tento dormir e pensar em Ryle, mas toda a situação me deixa meio zangada e triste. Talvez eu pense em Allysa, e em como estou feliz por ela ter aparecido hoje. Seria bom ter uma amiga — e também ajudaria — durante os próximos meses. Tenho a impressão de que vai ser bem mais estressante do que imaginei.
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Comments

Ecleilda Justino

Ecleilda Justino

cadê o restante autora mais capítulo quando tá ficando bom acontece isso

2025-01-02

0

Malu

Malu

eu quero saber o que acontece depois 😭

2024-12-20

1

Ecleilda Justino

Ecleilda Justino

esses diária tá bom demais

2025-01-02

0

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