Nas proximidades do campo, um grupo de soldados se aproximava. Entre eles destacava-se Emeritus, homem de porte largo e imponente. Ao seu lado, marchava Hiago, seu mais fiel guerreiro.
Vieram até o campo por uma razão nobre: Emeritus havia se apaixonado por Shirley, filha de um burguês influente, que ainda se mostrava relutante quanto ao casamento da jovem com o soldado.
— Você não está qualificado para ter a mão da minha filha, seu biltre! — exclamou o homem, com desprezo.
Emeritus, mantendo a calma e a paciência, respondeu com firmeza e respeito:
— Não se preocupe, senhor. Farei o que for preciso para conquistar sua aceitação e, assim, me casar com sua filha.
O pai era rígido quanto a isso. Em sua decisão, sua filha jamais se casaria com Emeritus.
Com rapidez na fala e olhar severo, dirigiu-se a Emeritus e aos soldados:
— Vocês são mesmo um bando de tolos! Vieram de tão longe para, no fim, nada conquistarem. Minha filha não quer ver sua cara, seu marginal! Vá embora e não volte mais!
A confusão na porta chamou a atenção de Shirley, que observava tudo do quarto. Curiosa, foi até a janela e, ao ver Emeritus, seu coração acelerou. Seus olhos brilharam de alegria por rever aquele que seria seu noivo, não fosse a intervenção do pai entre os dois.
— Não fosse meu pai — murmurou Shirley —, eu já estaria casada com Emeritus.
Ao seu lado, a criada Ofélia comentou com cautela:
— Senhora, não acredito que Emeritus irá embora sem tê-la consigo. Ele é um guerreiro; mesmo diante do obstáculo que é seu pai, há de superá-lo, se o amor que sente for realmente verdadeiro.
Shirley sorriu, confiante:
— Você tem razão, Ofélia. O nosso amor é maior do que qualquer outra coisa neste mundo.
Enquanto isso, a confusão lá fora aumentava. Emeritus, erguendo o olhar para o andar de cima, gritou com firmeza:
— Shirley! Apareça! Vim de longe para o nosso encontro. Diga a seu pai o que sentimos um pelo outro, pois ele acredita que você não nutre o mesmo amor por mim!
Shirley, tomada pela emoção, respondeu com voz forte, impetuosa:
— Você é um guerreiro, Emeritus! Trate de superar o obstáculo que o impede de me ter ao seu lado!
Hiago, dentre todos os que acompanhavam Emeritus, era o mais sábio. Aproximando-se do pai de Shirley, disse com serenidade:
— Vejo que o senhor teme perder a filha. Mas não estaria, nesse medo, prendendo-a aos seus próprios desejos? Se ela sente o mesmo amor por Emeritus, não cabe ao senhor decidir por quem ela deve se apaixonar.
O pai, furioso, mas também tomado por uma preocupação súbita — a de que as palavras de Hiago pudessem ser verdade — respondeu, atordoado:
— Ora, quem é você para me propor uma coisa dessas? Sei muito bem que minha filha jamais se apaixonaria por um marginal como ele!
Hiago, provocativo, replicou com firmeza:
— Se tem tanta certeza, pergunte a ela. Descubra se o que o senhor diz é mesmo verdade.
Aquilo foi o ápice da tensão. O homem, exaltado, chamou a filha vociferando intensamente:
— Shirley! Ande, desça até aqui! Vamos tirar a prova agora!
Shirley desceu hesitante. O pai, com um olhar severo e carregado de medo, perguntou:
— Diga-me, por quem você nutre tal sentimento?
Apontando para Emeritus, Shirley respondeu com voz trêmula, mas decidida:
— Perdoe-me, meu pai. Minha paixão por ele é tamanha que não consigo ficar ao seu lado nessa decisão. Peço que me desculpe.
O pai, desapontado e tomado pela ira, lançou-lhe um olhar fulminante:
— Vejo que vai me desobedecer, menina malcriada! Se quer ficar com esse marginal, que fique! Mas aqui nesta casa você não mora mais! Vá-se embora com esse bando de sujos! E não ouse mais chamar-me de pai! Esqueça este nome e saia da minha casa!
Shirley, com lágrimas nos olhos, ainda tentou apelar:
— Mas, meu pai... precisa ser tão severo assim?
Ele, já tomado pela amargura, respondeu friamente:
— Você não está em plena consciência. Vá, e comprove por sua própria experiência que eu sempre estive certo sobre a forma como a protegia.
Emeritus sorriu e aproximou-se, colocando-se entre Shirley e o pai.
— Então está decidido. — disse com voz firme e suave ao mesmo tempo — Venha, Shirley, para minha casa. Se ele a expulsou, eu a acolherei com todo o carinho e afeto que sinto por você.
Shirley sentiu um aperto no peito.
— Dói-me saber que meu pai não me quer mais por perto, e que eu deveria ter seguido seus conselhos — confessou, a voz embargada. — Mas não consigo. Agora sigo o meu coração… e sigo também o meu amado, Emeritus.
O clima, ainda tenso, começou a amainar. O pai de Shirley, visivelmente esgotado pela cena, parecia já não ter forças para sustentar a proibição.
— Não perca mais tempo, Shirley — murmurou ele, com a voz mais fraca. — Vá com o seu amor. Não pude protegê-la como devia. Vá.
Chorando, Shirley fez um último gesto: correu para o pai e recebeu dele um abraço inesperado e apertado — um adeus que levava tanto culpa quanto ternura.
Hiago, impaciente, lançou um aviso prático:
— O tempo logo muda; penso que é melhor apressarmo-nos, Emeritus.
— Tens razão. — concordou Emeritus. — Arrume suas coisas, Shirley. Vou esperar na carruagem.
A criada Ofélia acompanharia Shirley, pois mantinha uma relação secreta com alguém do bando — algo que nem mesmo Shirley sabia. Hiago também seguia com os olhos os passos de Ofélia, embora ninguém soubesse o que motivava aquele olhar. Tudo parecia simples e singelo, mas carregado de significado. Depois de fazer as malas, Shirley lançou um último olhar à casa e ao pai, que ficou desnorteado e triste. Então, partiu."
Quando a carruagem já se afastava, Oto permaneceu sozinho no terreiro. Com os olhos ardendo de raiva, falou em voz baixa, quase para si:
— Não pense, Emeritus, que terá a vida fácil. Eu me vingarei. Jamais o perdoarei.
(O destino, naquele momento, parecia pender entre o amor que parte e a promessa de guerra que fica.)