Talvez isso seja a coisa mais imbecil que fiz na vida…
Mas , preciso escrever. Tentar tirar de dentro e quem sabe organizar essa bagunça que virou a minha vida…
Tudo começou aquele dia. Estava consumido de raiva, um ódio primal que nem eu entendia.
Não aguentei a pressão, tantos anos lutando contra a natureza e simplesmente por conta de um cheiro. Um maldito cheiro de bicho Velho.
Mas não foi só isso. Cris… lembro dele irado, olha que ele não tem fera dentro, e até o lobo ergueu a orelha dentro do meu peito.—- queria fazer ele engolir o colar Phillipe… acha que minha esposa é o que? Mercadoria em feira livre?! … mas resolvemos eu e ela… Você trabalha perto dela, fica de olho. Se ver algo suspeito me avisa… os caras da outra vez( o Oni desgraçado) disseram que se preciso ajudam no susto.
Cris era pacífico… mas por escolha. A samurai não tem ideia do Leão que tem em casa.
Guardei aquilo como um comando. Afinal ele é meu amigo, confiou o que tinha de mais precioso e frágil ( aos olhos dele… ela não é frágil… nunca foi… ) quando me disseram de ir cobrir férias, de sair do meu posto e ir para lá não pensei duas vezes…
Aceitei pelo pedido do meu amigo… Hoje penso: devia ter rejeitado…
Assim ela não teria ido ao dojo, minha vida estaria como sempre foi… Só, seguro… e também triste.
Assim o lobo não te incluiria em um lugar onde não pode assumir.
Não sou monge… 47 anos sem ninguém era impossível. Só que era vazio. Nada além de necessidade. Sem alma, calor, coração.
E ela chega. Com sua coragem , ou falta de noção mesmo metendo o pé na minha vida. Me dando o que ninguém deu.
Respeito. Matilha. Um lugar a pertencer sem possuir…
Para mim homem era incrível, leve… a respeito como irmã de arma. Mas algo não concordava.
Quer mais…
Parece que somos imãs de desastre. No dojo eu a abracei… mas depois daquilo foi ladeira a baixo!
Aquele tranco… não foi eu , mas o lobo que a prendeu… aqueles olhos castanhos, assustados… mas tão brilhantes. O cheiro. Maldito sentido aguçado que vê tudo. Ele sentiu o que ela sentiu.
Era doce, quente… o lobo a prendeu. Sentiu a carne macia… fiquei em choque! Eu sou o amigo. Ele confia em mim.
Tentei soltar e os dedos não obedeciam, o tempo parou. Só tinha ela e aquele calor … foram os segundos mais terríveis da minha vida. O lobo queria algo mais. Mais perto, mais saboroso… sentir gosto, o som que saiu … ele deixou gravado. Ela não deve ter percebido, mas estava fixado naqueles lábios… sem batom. Meio pálidas depois de 12 horas em uma sala fria… o hálito quente , com cheiro de café … menta…
Olhei rápido aquele olhos castanhos, avelãs… a dilatação da pupila, o pulso…sabia o que era. O lobo sorvia aquilo com deleite… e eu me culpava , desesperado pela perda de controle…
Consegui depois de um esforço mental gigante fazer a besta a soltar. — desculpe. Minha voz saiu fina, estranha.. me senti um estuprador. Violando o espaço dela .—Acontece. Disse ela. Simples , prática.
Ela podia ir embora. Nunca mais olhar na minha cara . Entenderia. Estava com razão.
Mas ela ficou. Tocou o barco.
O lobo ainda fez mais merda. Aproveitando meu sono e o dela no ônibus… Besta desgraçada que não entende alianças.
Mas ele esqueceu que Samurai não era apelido engraçado como Togo.. caninos brancos.
Ela aguentou não por ser boa. Mas estudou e entendeu. Viu que não era só eu… mas algo mais profundo.
—Deviam conversar. Quem sabe não resolve?
— o que tem na bolsa serve para todos entende? — disse fria como a mulher de gelo do posto.
E para quem atacou um youkai, quem era o lobo na fila do pão? Nada… ele se encolheu…
Passei 30 anos calando a boca desse bicho, e ela quer que eu fale com ele agora?
Tinha lógica… maluca como tudo o que ela faz.
Vou chamar ele para um qso. Mostrar que não somos inimigos. Que ela não é dele…
Que temos nosso lugar na matilha.
Na mesa e no coração dela…
Como o irmão de arma…
Cris… não darei motivo para me temer… sei que se imaginasse o que aconteceu seria o primeiro a me odiar e até pior…
Afinal lobos entendem de hierarquia.
E com Leões…
É melhor não brincar.
E o lobo sabe.
Por enquanto…