Ninguém no prédio sabia sobre eles.
E era exatamente isso que tornava tudo mais perigoso.
Leonardo era advogado criminalista, trinta e dois anos, postura impecável e reputação intocável. Vivia entre processos, audiências e noites longas demais. Já Matheus era fotógrafo, vinte e nove, olhar inquieto, mãos marcadas por tinta e cigarro, alguém que sentia demais e escondia pouco.
Eles se conheceram por acaso — ou destino cruel — quando Matheus foi contratado para fotografar um caso sensível do escritório. O primeiro contato foi tenso. Frio. Cheio de julgamentos silenciosos.
Mas tensão também é desejo mal disfarçado.
As discussões viraram conversas longas. As conversas, encontros fora de hora. Sempre depois da meia-noite. Sempre atrás de portas fechadas, cortinas cerradas, celulares no modo silencioso.
Leonardo odiava perder o controle.
Matheus odiava se sentir escondido.
— Você nunca me deixa existir à luz do dia — Matheus disse certa vez, a voz baixa, ferida.
Leonardo segurou o pulso dele com firmeza, o toque quente contrastando com o olhar contido.
— Porque se descobrirem… eu perco tudo.
— E eu? — Matheus sussurrou. — Eu sou o quê?
A pergunta ficou entre eles como fumaça pesada.
O que os unia não era apenas o desejo — era o reconhecimento da dor um no outro. Beijos intensos, cheios de urgência. Toques que misturavam necessidade e raiva contida. Momentos de silêncio em que os corpos falavam o que a coragem não permitia.
Era intenso. Era errado. Era real.
Numa noite chuvosa, depois de uma discussão que quase os separou, Leonardo finalmente cedeu. Encostou a testa na de Matheus, respirando com dificuldade.
— Eu tenho medo — confessou. — Mas não de você. Tenho medo de viver sem isso.
Matheus sorriu, cansado, mas verdadeiro.
— Então para de me esconder… nem que seja só aqui. Só entre nós.
O beijo daquela noite não foi apressado. Foi profundo, carregado de tudo o que haviam reprimido. Desejo, entrega, promessa e risco. Nada foi dito depois — não precisava.
O relacionamento continuou secreto. Intenso. Imperfeito.
Mas cada vez mais impossível de negar.
Porque alguns amores não pedem permissão.
Eles queimam.
Marcam.
E ficam sob a pele… mesmo no silêncio.