Perdi o controle. De novo. Nunca aprendo a lição. Humanos são alimentos, não os trate diferente disso e não os subestime. São a espécie que mais se matam, embora pareçam inofensivos são capaz de te destruir na primeira oportunidade dada.
Eu deveria ter isso em mente. Eu tenho. Mas não quis pensar e trazer isto para a realidade. Estava apaixonada e acreditava estar sendo recíproca, porém não pude mudar o que sou, continuo sendo um perigo e eu estava faminta.
13 agosto de 2022
Está noite em específico, não havia estrelas e a lua estava escondida por entre as nuvens escuras. Horário perfeito para a busca por carne, onde humanos tolos e alcoólatras passavam, muitas vezes tão fora de si que acabavam dormindo na calçada.
Uma pena que não acordavam mais para o dia seguinte.
Entretanto, não vir para caçar. Há semanas que eu admirava um humano de longe, não sei exatamente o motivo para isso, mas algo nele me atraia instintivamente. Porém, a regra de que nunca deveria me aproximar de um ao menos que seja para me alimentar, rodeava a minha mente.
Sou uma criatura da noite, não temos uma definição exata para isso. Somos como os vampiros para os quais escrevem livros, mas também somos algum tipo de demônio, embora não tenha me deparado com o Lúcifer, um deus do mal criado em suas mentes.
Não temos família ou algum vínculo emocional entre nós. Tudo que conhecemos é a fome.
Seu nome é Tamlin, mora só, aparentemente perdeu sua mãe quando ainda era muito novo e não tinha vínculo algum com o seu pai. Trabalhava nos horários noturno em um depósito de bebidas e alimentos, normalmente estava sempre lendo um livro enquanto ouvia música, os clientes não eram muitos, mas não significava que não havia.
Cabelos pretos e lisos na altura da orelha, pele pálida e lábios cheios, mãos grande. E pelo o que eu entendia de altura humana, com certeza devia ter 1,93.
Estou em um beco escuro, avaliando-o de longe, sentado tranquilamente ao lado de fora, esperando alguém chegar. Sempre tão calmo, nunca com pressa. Talvez fosse isso que me atraísse nele. A maioria dos humanos que eu via estavam sempre com pressa, angustiados e estressados, me irritavam profundamente.
Geralmente eu passava horas o olhando, até ele ir embora. Hoje não seria diferente.
Minutos depois, dois homens ressurge. Um de altura mediana, magro, rosto escondido por capuz escuro, calça larga e preta. O outro já era o oposto desse, corpulento e robusto, mas que também usava capuz escuro.
A forma como expressavam suas linguagens corporais deixavam óbvio para o que vieram, embora eu duvide que seja só para roubar. Eles sempre queriam mais, mesmo depois de já ter adquirido o que queriam.
Não demorou muito para ocorrer o que eu já esperava: Roubarem todo o dinheiro do caixa.
Contudo, antes de decidirem irem embora, eles cometeram o grave erro de jogarem Tamlin no chão e o agrediram. Digo grave, porque antes que eu pudesse me restringir, já havia os derrubado no chão.
Pelo poder que eu continha, poderia ter os destroçados, mas tive consciência ao menos nisso. Ambos estavam assustados, me encarando no chão, ofegantes e amendrontados e então correram, mesmo eu querendo lhes rasgar a garganta.
E foi assim que a minha maldita história com esse humano começou. Quando ele me viu, olhou em meus olhos e sorriu. Dentes alinhados e perfeitamente brancos. Não importa, eu estava apaixonada por ele.
27 setembro de 2022
— Me diga, a sua família mora aqui? Nunca me informou nada sobre eles — Indaga, depois de alguns minutos em silêncio, enquanto observarmos o céu estrelado.
Me remexo desconfortável. Não sei o que dizer sobre isso, não compreendia o que era ter um laço com alguém, mas talvez seja o mesmo pelo o que estou sentindo por ele.
Se for assim, minha família é Tamlin.
— Estão mortos, nunca tive nada que me recordasse deles — respondo, tirando a franja de seus olhos, vendo-o os arregalar de surpresa.
— Oh, meu Deus! Sinto muito por ter sido incoveniente — segura minhas mãos juntas uma da outra e as beija repetida vezes.
Isso me deixa feliz e sinto ainda mais vontade de lhe inventar histórias tristes, para que pegue mais em minhas mãos e me faça sentir amada.
Desde que ocorreu o incidente no seu trabalho, temos nos comunicado com frequência e sem que eu percebesse o rumo que isso daria, estávamos juntos de uma forma romântica.
É assustador quebrar as regras, mas não faz sentido segui-las. Pelo menos não nesse quesito, enquanto ele não descobrir o que sou, estou segura.
30 novembro de 2022
"Não existe amor entre nós. Ficar em convívio com humanos nos confunde, pois acabamos adquirindo a necessidade de sentir algo por alguma coisa, mas isso acaba os levando em ruína e o resultado não é o melhor".
Ler isso despertou uma fúria adormecida em mim. Quando essa maldita frase foi criada? E por que logo no primeiro livro que pego na biblioteca do meu povo isso aparece?!
Engulo em seco, fechando o livro calmamente, tentando não demonstrar minhas emoções. Não seria a maldita frase dessa porcaria que me faria desistir dele.
05 dezembro de 2022
Antes que pudesse me aproximar de onde Tamlin estava, vi uma garota conversando com ele. Alta, corpo magro porém com curvas, cabelos loiros e olhos verdes. Um sentimento estranho quer se apossar de mim, junto com a raiva, tento não tomar medidas precipitadas. Todavia, continuo observando, analisando os olhos e sorrisos que ambos davam um para o outro.
Meu coração estava se esmagando no peito, lentamente e dolorosamente. Que sensação terrível, eu quero machuca-la. Eu quero morrer.
Ele a abraçou apertado. Minhas mãos tbm se apertaram. Se despediram e ela saiu radiante, quando seu olhar cruzou com o meu, não havia o mesmo brilho que estava direcionado para a loira modelo.
Eu estou triste.
Eu acho que isso é tristeza.
Está doendo.
31 dezembro de 2022
Estou animada para hoje a noite. Fiz de tudo para ficar a mais bonita do parque de exposições onde ocorrerá os fogos. A primeira vez que participo de algo assim, então tentei não exagerar tanto. Deixei que meus cabelos pretos e ondulados caísse por meus ombros, a maquiagem estava leve, apenas realçando o azul dos meus olhos. O vestido que ia até metade das coxas, preto e com as costas trançadas e decote V.
Peguei os saltos altos de uma humana qualquer que para a tristeza dela, esbarrou comigo na hora errada.
Quando cheguei ao local, Tamlin ainda não havia chegado. Olhei o relógio em meu pulso que também não me pertencia e notei que ele estava atrasado, mas tudo bem. Talvez ele tivesse motivos para isso.
Infelizmente meus olhos rodearam o local aberto cercado de pessoas e pararam exatamente em quem eu odiava.
A maldita loira daquele dia.
Ela também notou minha presença e sorriu em minha direção.
Maliciosa.
Fez menção com a cabeça apontando para a floresta. Eu fiz o que pediu porque estava curiosa.
— Você é quem está com Tamlin, certo? – interroga assim que se aproxima de mim.
Estou encostada na árvore, observando-a cruzar os braços. O som está alto e as vozes de crianças e adultos ao longe ainda era audível mesmo naquela distância.
— Sim.
— Quero saiba que eu e ele estamos ficando e para que isso evolua para algo a mais, preciso que suma — cospe.
Demora um tempo para que eu racionalize o que ela diz. Contudo, o coração que eu já não ouvia a muito tempo bater, estava estrondoso e meus ouvidos doía. Me sentia tão humana e fraca, tão estúpida, tão... raivosa.
O primeiro sentimento que surgiu foi o ódio, a ação foi de imediato. Mas tudo que se vinha em minha mente era "Estamos ficando". Não quero acreditar que ele tivesse me feito de boba, não ele. Não podia ser ele.
"Confundimos os sentimentos querendo sentir algo por alguma coisa".
A fome surgiu do nada. Não estava me alimentando mais como antes, pois sentia que de certa forma o estava decepcionando a cada vez que me alimentava de um ser humano, mesmo ele não sabendo da minha origem.
Entretanto, naquele momento, tudo veio de uma vez junto com o ódio. Minhas mãos estavam entorno de seu pescoço, apertando-os até que ouvi o estalo de seus ossos se quebrando. Seus olhos agora não estavam mais vivos, não brilhavam mais daquela forma quando o via.
Isso me trouxe paz, mas não o suficiente.
Rasguei sua carne com os dentes e me embebedei com o seu sangue, não me sentindo satisfeita. A minha atenção foi chamada para uma sombra que se fazia de um homem alto em minha frente, quando a vi me assustei, pulando para atrás, apenas para ver o homem que amo me olhar amedrontado.
Eu chorei sangue.
Mas não porque agora ele sabia, e sim, porque ainda estava com fome.
Consolei-me com a ideia de que dentro de mim, ninguém o tiraria e por isso não me controlei.
No momento que meus dentes rasgaram sua garganta, os fogos explodiram no céu.
Eu estava satisfeita, veria seu sorriso apenas em meus sonhos, mas estou feliz que agora ele pertence a um lugar que ninguém o tirara de mim.