Resumo: Eles se conheceram na pré-escola. Duas crianças, uma história, uma tradição em meio a uma pegadinha no pátio da delegacia com o capitão da polícia.
Verdades e segredos guardados virão à tona no aniversário desse jovem capitão.
E se fosse para sempre...
A postura de Marcelo intimidanva e expressava a autoridade necessária naquele departamento, seus subordinados o ouviam com atenção e era como se todos os presentes não conseguissem desviar os olhos de sua figura.
Carros e viaturas, o movimento na delegacia parecia não ter fim, eu me mantive em silêncio, distante.
Apreciava observar os movimentos de todos a minha volta, era como se eu descobrisse novas coisas sobre Marcelo a cada nova observação. Poderia dizer que era um velho hábito, um pouco irritante para o meu melhor amigo.
— Senhor policial, você deixou cair isso…
Anunciei minha presença com uma brincadeira tosca, mas que meu amigo sempre caia.
Entreguei a caixinha em sua mão antes que ele erguesse seu olhar e me reconhecesse, a caixinha tinha um palhaço que pulava assim que a tampa era removida, uma chuva de papeizinhos coloridos voou no ar assim que ele a destampou.
— Rebeca!
Marcelo virou sua face para mim.
— Ela te pegou de volta, Oliveira.
Primeiro sargento Pérez gargalhou ao lado dele, meu melhor amigo, famoso por seu mau humor, deu-lhe um olhar em aviso antes de desviar sua atenção para seus subordinados.
— Admita, cara, ela é boa demais em te surpreender.
Segundo sargento Gutierrez acompanhou Pérez em sua gargalhada.
— Não fique tão irritada com ela, Oliveira.
Agora foi a vez do Tenente López rir, mas discretamente.
Enquanto eles riam, eu corria por entre os carros evitando a figura irritada de meu amigo de infância, Marcelo pulava os capôs, tentando bloquear minha passagem enquanto as risadas dos outros policiais aumentava gradativamente conforme outros se juntavam para ver o que estava acontecendo.
O motivo para Marcelo estar tão irritado não era só porque o havia surpreendido, na caixa não foram somente papeizinhos que voaram no ar, mas um pouco de tinta em pó que coloriu seu lindo rosto e um pouco da sua farda em um tom de verde azulado.
Marcelo estava hilário e eu não conseguia parar de rir enquanto fugia dele.
— Vamos lá, Marcelo, foi só uma brincadeirinha.
Me escondi atrás de um camburão, olhando para ele através dos vidros, tentei não gargalhar da expressão "amigável" que tomou a face dele quando ele olhou o próprio reflexo no retrovisor do automóvel.
— Eu estou azul feito um maldito smurf, Rebeca!
Seu tom não precisava ser alto para expressar que zangado era pouco perto de como ele se sentia.
— Combina com seus olhos, veja, eu te deixei mais agradável de se olhar.
Tentei persuadi-lo enquanto girava pelo carro, estávamos dando a volta no camburão.
— Decida se está me ofendendo ou me elogiando.
Ele pulou o capô em um movimento rápido, segurou o meu pulso e me colocou de costas para ele.
— Não, as algemas de novo, não.
Comecei a resmungar tentando soltar meus pulsos das mãos fortes dele.
— Você tem sido uma menina má, Rebeca, quantas vezes preciso te pedir para não repetir isso a cada aniversário meu!
Marcelo passou as algemas em um movimento rápido, sua voz grave em meu ouvido me deixou arrepiada de uma maneira boa, o que eu me bati mentalmente por achá-lo sexy!
— É o seu aniversário, poxa!
Tentei desconversar enquanto ele me levava de volta para o pátio em frente à delegacia, onde seus colegas e subordinados gritavam e assobiavam em comemoração.
— Esse é o meu ambiente de trabalho, Rebeca, fica difícil eu manter o controle quando você começa toda essa confusão!
Ele me respondeu se mantendo firme atrás de mim.
— Quinze minutos e trinta e cinco centésimos, você o fez correr mais esse ano do que o anterior...Parabéns, Rebeca.
Comandante Freitas nos saudou com sua voz alta e animada, pois o mesmo estava se divertindo.
— Eu tento, Comandante.
Dei-lhe uma piscadela, o fazendo rir mais e ouvindo meu melhor amigo bufar.
— O que adianta eu a desencorajar e vocês prosseguirem parabenizando pelas artimanhas e pegadinhas, Comandante?!
Marcelo respondeu, seu olhar se tornou ainda mais irritado quando teve de passar as mãos pelos cabelos e a tinta espalhou no ar.
— Não seja tão azedo, Oliveira , ela está apenas tentando animar esse seu espírito ranzinza.
Comandante Freitas riu bagunçando os fios de meu melhor amigo, vendo seu semblante se fechar um pouco mais.
— Não a deixe ficar tempo demais nessas algemas.
— Ei, eu pensei que você estava do meu lado, comandante!
Exclamei, surpresa e levemente ofendida.
— Rebeca, eu adoro suas pegadinhas, mas você não dá folga ao pobre rapaz.
Ele riu antes de se dirigir para dentro da delegacia.
— Também não está convidado para a festa, velhote.
Resmunguei, mas contendo um sorriso, pisquei para ele, rindo da expressão zangada na face de Marcelo.
— Ninguém tire essas algemas dela até que eu retorne, caso contrário…
Marcelo os ameaçou antes de entrar na delegacia para se limpar.
Enquanto Marcelo se livrava da tinta, os policiais me interrogaram sobre o que havia preparado quanto à festa de aniversário do rabugento do meu melhor amigo, eu os lembrei de manter em segredo antes de ir dando detalhes da comemoração daquela noite.
Marcelo voltou com a típica expressão séria no rosto olhando para os meus pulsos, ele falou brevemente com seus subordinados antes de me levar até o banco do passageiro do meu próprio carro.
Marcelo apenas ajustou as algemas para que meus braços ficassem na frente do corpo, passou o cinto pelo meu corpo e naquele instante eu tentei disfarçar o quanto sua proximidade me afetava, e então ele sentou no banco do motorista.
— Tire as algemas, por favor!
Quebrei o silêncio, eu estava constrangida por permanecer daquela maneira.
— Não, agora me diga qual o primeiro lugar para qual devemos ir.
Ele me respondeu em seu tom autoritário.
— Meu carro, minhas regras!
Respondi no mesmo tom.
— Isso se aplica ao meu trabalho, mas você ainda faz o que quer quando pisa por lá, não vejo qualquer razão que me impeça de dirigir o seu carro.
Seus olhos Verdes pareciam ver além da superfície.
— Por que você é tão ranzinza?!
Disse antes de reviar os olhos e me render com um suspiro, ele piscou sorrindo pela primeira vez no dia, o que me deixou sem reação.
Marcelo era lindo, não é uma hipótese, mas um fato... A única razão de não haver mulheres o rodeando se dava por seu péssimo humor, sua natureza rabugenta afastava as mais persistentes.
Meu melhor amigo era mais sociável na infância, mas sua timidez foi sendo deixada de lado enquanto crescíamos e seu humor ranzinza tomou o lugar durante a adolescência.
Eu não sabia se agradecia ao universo por ele ser daquela maneira ou se tentava lutar contra o mau humor de Marcelo, eu estava apaixonada por ele desde a adolescência.
Enquanto tentava disfarçar os efeitos de seu sorriso surpresa, então virei meu rosto para janela, o grande problema era justamente os sorrisos como esses que eram tão raros que me pegavam com a guarda baixa.
— O que você planejou para esse ano, Rebeca?
Marcelo quebrou o silêncio, seus olhos permaneciam na estrada.
Eu me odiei um pouco por demorar a respondê-lo por passar um tempo analisando seu perfil, o modo como sua mandíbula se projetava, os lábios avermelhados… Eu tinha que encontrar alguém que me distraísse dessa atração por meu melhor amigo.
Desde o momento em que nos conhecemos na pré-escola até o instante atual, eu o conhecia melhor do que ninguém e não poderia arriscar perder a sua amizade por culpa dos teimosos sentimentos que tomavam meu coração.
Ainda abalada por seu sorriso, virei novamente meu rosto para o lado oposto, precisava por meus pensamentos no lugar!
— Você ainda está brava por estar usando as algemas?
Ele disee em um tom provocativo, ainda distraído com a direção do automóvel.
— Sim, agora estaciona e me solte!
Respondi sem paciência, ele riu e ligou o som em resposta.
— Você consegue disfarçar muito bem, Rebeca.
Marcelo me respondeu em seu tom habitual e naquele instante meu coração errou uma batida, de fato lhei para ele surpresa e, ao mesmo tempo, confusa.
— Sobre o que você está falando?
Indaguei, vendo-o estacionar o carro, Marcelo se virou no banco me olhando diretamente nos olhos.
— Não se faça de desentendida, Rebeca, eu sei reconhecer quando está escondendo algo de mim.
Ele me respondeu sem alterar seu tom de voz, meu coração soava como tambores em meus ouvidos.
— O que eu estou mantendo em segredo, Marcelo?
Questionei, mesmo sabendo a resposta, pois queria ter certeza se era sobre isso mesmo que ele estava falando.
— Já faz algum tempo que eu sei sobre a sua atração por mim.
— E por que você não falou nada?!
Questionei sentindo minhas bochechas vermelhas, eu não sabia se eram de vergonha ou raiva, poderia ser o misto das duas coisas.
— Eu não podia forçá-la a admitir.
Sua voz saiu num sussurro, era como se ele mesmo contivesse um sentimento.
— Como se não o estivesse fazendo isso agora?! Me diga, você se divertiu assistindo meu conflito enquanto o via sair com algumas mulheres, entretanto você pode não ser o mais agradável dos homens, mas sua maldita aparência compensa esse seu humor!
Não me preocupei em ser gentil, não havia motivos para esconder como me sentia quando ele sabia reconhecer quando estava mentindo.
— Você é a única que se manteve cega, Rebeca!
Marcelo se inclinou para frente, seus olhos Verdes me fisgando em seu oceano de gelo.
— Todos puderam ver o quão apaixonado estou por você todo esse tempo… Rebeca, eu não tinha certeza de como você se sentia até me arriscar em te perguntar, eu sou a droga de um policial e não um leitor de mentes!
Ele segurou minhas mãos, me trazendo para mais perto dele, sua respiração pesada se misturando a minha.
— Como eu poderia arriscar nossa amizade sem ter qualquer certeza… eu não dou um tiro no escuro, sou racional demais para agir com base nos instintos, você é a impulsiva de nós dois.
— Você gosta de mim?
Ignorei toda a sua fala, querendo que ele admitisse outra vez.
— Sim, sua idiota desatenta!
Marcelo riu, me erguendo com facilidade e colocando-me sobre suas coxas firmes e musculosas.
— Eu te amo, e já faz algum tempo que venho te dizendo e você não fazia ideia, Rebeca... Você precisa dar um jeito nesse seu jeito avoado.
Marcelo capturou meus lábios nos dele enquanto eu ria, suas mãos seguravam minha cintura enquanto eu coloquei os meus braços em volta de seu pescoço, limitada por estar usando as algemas ainda.
— Você me ama, o temível Capitão Oliveira tem um coração.
Provoquei, cantarolando as palavras e observando meu melhor amigo conter um sorriso.
— Você não tem jeito!
Ele rolou os olhos antes de unir nossas bocas novamente.
Suas mãos subiram por minhas costas, me trazendo para mais perto, envolvendo meu tronco, segurando meu cabelo. Eu sabia que terminaria toda bagunçada, mas pela primeira vez em muito tempo meu coração podia bater tranquilamente.
Não precisava temer pelo dia em que Marcelo encontraria alguém que suportasse seu péssimo humor, estivesse disposta a tirá-lo de sua zona de conforto e o levasse em aventuras no seu aniversário… alguém que o compreendesse e pudesse ver além da superfície, que ofereceria seu ombro para que ele descansasse após um longo e difícil dia, que soubesse acalentar seu coração nos dias que enfrentasse o pior lado do ser humano.
Havia visto todas as faces de Marcelo Oliveira, seus defeitos e qualidades, suas manias e esquisitices, sabia de cor seus pratos favoritos e o que ele detestava, eu me sentia como se houvesse sido a pessoa presenteada.
— Eu te amo, seu velho ranzinza, feliz aniversário.
Me afastei para olhar nós olhos, depositando um beijo em sua fronte, em seguida sobre suas pálpebras, sobre a ponta de seu nariz, ambas as bochechas, o queixo e, por fim, os lábios.
— Obrigada, minha inestimável melhor amiga e futura esposa.
Ele sussurrou antes de corresponder ao beijo, sorri sobre os lábios dele.
O que havia planejado seria atrasado, mas quem estava contando o tempo?!
Nada mais importava do que aquele momento, muitas coisas poderiam mudar, mas a nossa amizade, não.
Não éramos somente amigos, agora éramos um casal.
FIM!!!!!