Fazia sol, muito sol durante o turno da tarde em uma cidade qualquer. Os pássaros cantavam nos fios de eletricidade. O vento soprava de um jeito leve, tão leve que quase não surtia efeito. As rosas em canteiros por tantas e tantas calçadas desabrocharam em pura vivacidade, sendo as vítimas das brisas leves e características do verão, uma vez que só daria para identificar sua real existência ao observar a movimentação das pétalas e folhas.
Contudo, naquela cidade, a correria era tanta que não havia espaço em sua rotina agitada para notar as pequenas coisas e o mais belo da vida em meros detalhes.
Adriel, um novo anjo da guarda, havia recebido uma missão muito importante durante aquela estação do ano e ela, a missão, concentrava-se naquela cidade em específico. Naquele momento, estava acompanhando de perto seu mais novo protegido, ou melhor, acompanhando Gracie, a futura mãe do protegido. Ela estava a caminho de encontrar com o pai de sua futura prole no trabalho dele para dar a grande notícia de que tal fruto estava a caminho.
Todavia, assim que chegou ao escritório dele, obteve a pior surpresa possível. Ele estava com outra mulher em seus braços no meio de uma visível relação íntima e calorosa. Quando o homem viu a Gracie olhando para ele, tentou, em desespero, explicar-se. Mas ela fechou a porta do escritório na cara dele e saiu sem olhar para trás.
A princípio, Adriel pensou que tudo ficaria bem. Gracie iria se recuperar do choque e, talvez, até tentaria conversar com o pai do bebê para reconciliarem ou algo assim.
Porém, infelizmente, as coisas foram de mal a pior.
A mulher alegre que Adriel conheceu nas poucas semanas em que esteve cuidando de seu protegido foi murchando, como uma flor prestes a encarar o outono. Mal saía com os amigos que tinha, como antigamente fazia. Adquiriu o costume de se isolar, mesmo em companhia de sua família. Às vezes, durante a noite, começava a chorar de repente e, no fim, acabava não conseguindo dormir. Só que, em compensação, durante o dia não passava um minuto sequer sem bocejar.
O tempo passou. E nada melhorou.
A preocupação de Adriel chegou ao pico quando a barriga de Gracie cresceu um pouco e toda a frustração sentida por ela em relação ao ex foi direcionada para o bebê. No entanto, aquilo foi crescendo com uma proporção maior do que o bebê em seu ventre, chegando ao ponto dela falar para as pessoas mais próximas que iria abortar por não suportar mais tanta dor em seu emocional.
Com aquela notícia permeando sua mente, Adriel se pôs em pânico. Ele não queria perder a primeira proteção a qual foi encarregado. Sequer havia visto o rosto ou personalidade daquele feto, nem mesmo sabia se seria menino ou menina. Em vista de evitar que a decisão de Gracie pudesse realmente acontecer, começou a tomar medidas para fazê-la mudar de ideia.
Mesmo não querendo sair de casa, os amigos e a família dela ainda a tiravam do isolamento. E, em meio a esses momentos, Adriel induzia nos companheiros de Gracie a ideia de ir por caminhos mais movimentados, onde ela poderia ver com mais chances famílias e, principalmente, crianças de todas as idades possíveis.
Felizmente, a ideia tinha começado a funcionar. Só que não da maneira como Adriel quis que funcionasse. Apesar de todas as novas emoções que sentiu durante os passeios, ela não desmarcou a consulta para o aborto.
Quando finalmente chegou o dia que Adriel tanto tentou evitar, seu ânimo estava no fundo do poço. Até sentiu algo parecido com relação à função das belas flores por toda a cidade: estarem sempre ali para alegrar o dia de alguém, mas que sempre são ignoradas e postas no pódio de inútil.
Não obstante, já ao consultório do pediatra, sentiu que existia uma esperança. Afastando a negação que pensara, Adriel confundiu os sentidos de Gracie e fez com que passasse por um corredor fora do caminho em que ela seguia para que desse início aos procedimentos abortivos. E assim que entrou no corredor, ela viu uma mulher sozinha nos primeiros momentos de um trabalho de parto.
— Com licença! Desculpe incomodar. Mas não seria melhor ter uma companhia? Deve ser perigoso estar sozinha nesses momentos— Gracie pergunta ao direcionar-se para a mulher.
— Não estou sozinha. Minha pediatra vem me ver para checar as contrações. E, além disso, tenho o meu bebê. — A mulher respondeu ao respirar fundo.
— Mas e o pai dele? E a sua família? E os seus amigos? — Gracie ainda estava confusa quanto ao estado solitário da mulher à sua frente.
— O pai me trocou por uma vagabunda qualquer. E minha família e amigos? Ah, eu estarei dando à luz ao único de ambos os lados— A mulher novamente respondeu, controlando sua respiração.
Era notório, na mulher, mesmo que estivesse passando por um momento arriscado e de profunda dor, um sorriso de felicidade em meio ao seu falar ofegante e sofrido. À Gracie não pareceu que ela estava se importando de passar por tudo sozinha daquele jeito. Um motivo maior era capaz de sobrepôr o fato de estar só.
— Não tem medo? — Questionou mais uma vez à mulher.
— Até tenho. Mas me deram um presente. E, mesmo sendo difícil tanto no físico quanto no emocional, não muda o fato de que eu tenho uma vida em minha mãos e eu pretendo cuidar dela ao máximo.
Gracie, olhando a mulher fazer exercícios especiais para lidar com a dor das contrações, ficou um pouco pensativa.
— Desejo que as coisas deem certo para vocês — Gracie desejou.
— O mesmo para vocês — a moça desejou de volta, deixando Gracie surpresa.
— Como sabe que eu também…
— Eu vejo um pouco da sua barriga. Conheço uma barriga de grávida muito bem. Além disso, algo me diz que você precisa.
Depois daquele diálogo, Gracie saiu de perto e seguiu seu destino original, para a tristeza de Adriel.
Na sala do procedimento, ela se preparava mentalmente, enquanto Adriel lamentava por perder seu protegido tão cedo. A ele apenas restava assistir, sem que pudesse fazer mais nada.
O médico, então, preparou a sonda e colocou a ultrassom para ver o estado do bebê durante o processo. Nesse momento, algo estalou de repente no interior de Gracie. Fazia quase quatro meses que estava grávida, mas aquela foi a primeira vez em que viu o próprio bebê em uma ultrassom, mexendo, com vida. Logo, em seguida, lembrou das palavras da moça:
"Não muda o fato de que eu tenho uma vida em minha mãos"
Gracie não podia mais fazer o que estava prestes a fazer.
— Para! — Ela alertou o médico pouco antes dele introduzir a sonda e aquilo chamou a atenção de Adriel.
— Tem certeza? — O médico perguntou.
— Sim. Eu não quero mais fazer isso! — Gracie afirmou convicta de sua mais nova decisão.
O médico, em consequência da recente escolha de sua paciente, desligou a sonda e olhou para Gracie, novamente, antes de dizer:
— Devo parabenizar você. Nem todas retrocedem nessa fase. Como pai, me alegra ver que, no final, o bebê ficará bem.
— Então, por que faz esse procedimento? — Gracie questionou ao se dar conta do infame erro que, por um triz, não cometeu.
— Por que quero evitar que, no mínimo, um dos dois morra. Se não o bebê, a mãe iria. Ou, no pior cenário, os dois juntos. Sou um mal necessário para aqueles que têm muita pressa, infelizmente.
Adriel chorou de alegria ao ver que não perderia seu protegido, enquanto Gracie olhava atentamente para o bebê na tela da ultrassom e, durante o ato, foi como se toda a frustração que sentiu nos últimos meses fosse substituída por uma nova força.
Os meses restantes passaram. Gracie, agora, segurava uma bela menina em seus braços, sob os olhares calorosos de amigos e familiares, podendo agradecer por não estar sozinha como aquela moça que conheceu estava. Já Adriel contemplava fascinado e muito alegre o rosto da protegida que, por pouco, quase viu sem vida.