*Meia-noite em ponto, justamente o porto de partida da madrugada, para mim, tudo sempre começou depois justamente da meias noite.
Neons florescentes dão vida a madrugada, sua luz brilhosa e também fosca reflete na lataria vermelha… na lataria vermelha de um conversível que nem meu é, vermelho como o sangue em minhas mãos que mancham o volante preto do carro…
Capota abaixada, a brisa bate contra meu rosto, a sensação de adrenalina ainda está nas minhas veias, a inesquecível sensação de estar chapado no meio da madrugada, sem mais nada a perder, meu telefone toca de uma forma incessantemente, eu o pego e jogo por cima da capota… ele some rápidamente de vista antes que possa o ver cair no chão e se despedaçar, como minha vida essa noite.
A mais de 200 K/M na direção da via principal, eu olha momentâneamente para o lado e vejo a responsável pela pólvora na porta dos meus dedos, uma pistola está no banco do carona, direciono retrovisor na direção do porta malas, dentro dele… dentro dele estava o responsável por manchar minhas mãos de sangue e desgraçar a minha vida.
Foi um troca de favores até que justa, ele desgraçou a minha vida e eu a dele, minha vida não valia muito no fiz das contas, ela se resumia sexo, drogas, cigarros, e segredos que ficaram na madrugada.
Lágrimas mancham meu rosto, em plena rodovia principal, eu vejo apenas os faróis dos veículos que desviam do conversível e também me xingavam, apenar de estar em plena mão contrária, eu só conseguia pensar no que havia feito… por que aquelas lagrimas? Eu sabia o que queria fazer e fiz, minha vida sempre foi vazia… mas mesmo assim eu ainda sentia algo estranho, um sentimento que rasgava meu peito e transbordava arrependimento pelos meus olhos…
Arrependimento? Não, eu só estava ficando sóbrio… apenas entrando em mim novamente… eu respiro fundo e olha em volta, o arrependimento me sobe a cabeça quando me recordo da Lisa, minha vida sempre foi fodida, mas ela sempre esteve ao meu lado dizendo que me amava, amar alguém tão fodido quanto eu… pobre Lisa, só me arrependo por ela… nada mais!
Já passa de meia-noite e meia, pego um desvio da entrada principal… memórias me atormentam, minha vida de merda passa pelos meus olhos, até o momento mais recente, era tão nítido, eu conseguia ouvir nossa brigas novamente, até os disparos, eu conseguia sentir seu sangue nas minhas mãos novamente, eu balança a cabeça negando a realidade, isso precisa acabar, vai acabar!
Já passam de meia-noite e cinquenta, avançando rapidamente por uma estrada de terra inacabada, com certeza a queda dara um fim em tudo, ou pelo menos uma bela manchete, falando em manchetes, meu nome vai parar o noticiário da manhã, não só meu nome, o anúncio da minha morte também… entretanto, antes de dominar o jornal da manhã, quero dominar a noite mais uma vez… uma última vez!
O conversivel avança até o fim da estrada, pairam poucos segundos ao ar, até começar a perder altitude…
Antes de fechar os olhos uma última vez, enquanto o conversível vermelho cai, eu observo friamente a vista, eu consigo ver por alguns instantes toda a cidade, a lataria suja do carro reflete a luz dos prédios iluminados da cidade… a lua sobre a minha cabeça, minha companheira mais fiel, todas as noites, ela sempre acompanhou, minha maior confidente, ela e eu JUNTOS dominavamos a madruga, só ela sabe todos os meus segredos… fecho os olhos aceitando o meu destino, o destino que eu mesmo escolhi.
O último som que pude ouvir foi a lataria do carro batendo contra o solo e os vidros do carro estourando, a minha última visão foi a lua, a minha última sensação foi a brisa da madrugada contra o meu rosto, minha última noite… minha última noite foi em Vegas.
fim***