Sinopse:
Jeon Jungkook amava quando seu celular apitava, pois sabia que era ela. As notificações pareciam Infinitas, não acabavam nunca enquanto suas madrugadas eram ocupadas. No entanto, o amor esfriou.
Hoje, eles não conversam mais como antes, sequer conversam.
Conto inspirado na música We Don't Talk Anymore, Charlie Puth.
- Conto
Jeon encara o iphone em suas mãos, especificamente, o ecrã sem notificações, ainda esperançoso.
Seu coração aperta, lágrimas quase chegam a escorrer dos olhos de ônix. Comprime os lábios, batendo os pés no chão enquanto resiste à vontade de ligar, talvez mandar alguma mensagem.
Olha o cômodo bem decorado, a mobília moderna em tons de preto, branco e cinza. A porta nunca se abre, nem o silêncio desaparece.
Passa os dedos pelo lençol escuro e enrugado, tão vazio quanto ele mesmo.
Lá fora, a chuva continua caindo intensamente, sujando os vidros da janela, e o som traz de volta o sono que não teve à noite. Porém, escuta o celular despertar. Seis horas.
Bocejando, levanta e vai até a cozinha, no intuito de preparar um café que possa renovar suas energias.
Ao passar pelo corredor, acende todas as luzes, refém do desgosto da sensação de estar imerso na escuridão, completamente cego e indefeso.
Chegando na copa, não demora a ligar a cafeteira vermelha e pequena, que fica em cima do balcão de mármore branco, cuja cor também pinta as cadeiras.
Separa uma cápsula, enche o recipiente de água. Abre o armário azul-escuro metálico para pegar uma caneca. As íris passam rapidamente pelos copos e xícaras guardados ali dentro, demoram-se apenas naquela amarela com desenho do stitch.
Não percebe, mas a respiração falha por alguns segundos; a garganta seca de repente. Entretanto, afasta lembranças ou pensamentos sobre a dona da xícara e acaba pegando um utensílio qualquer. Logo, espera a máquina preparar a sua bebida quente.
Entediado, liga a TV.
O jornal da manhã consegue ser ainda mais depressivo do que ele: Uma mulher, com cerca de meia idade, fala em frente à câmera. Seus olhos castanhos estão vermelhos devido a tanto chorar, os lábios trêmulos e roxos repetindo: volta pra casa.
É o bastante para trazer à tona uma maré de emoções, as quais, todo esse tempo, Jungkook tentou esconder.
Balançando a cabeça, aperta o botão Infinitas vezes, a fim de achar uma distração, quem sabe uma série nova, talvez um jogo de basquete. Porém, não encontra.
Muda para o seu canal preferido: MTV. E Jeon sorri ao ver que sua própria música está passando, orgulhoso de si mesmo.
A letra é uma confissão, meio surpresa e bastante eufórica, como o nome já diz. Euforia.
Take my hands now
you're the cause of my euphoria.
Os esforços que fizera para não lembrar acabam sendo em vão porque as memórias dominam a mente do coreano sem aviso prévio, invadem-na inteiramente.
Agora, sente o calor de um corpo pequeno envolto ao dele, abraçando-o como se o garoto pudesse fugir a qualquer momento. O queixo fino escondido na dobra do pescoço de Jeon Jungkook, aspirando o aroma natural de baunilha. Puxa o ar com força, soltando-o.
Arrepios percorrem a nuca quando os dedos longos e delicados acariciam o local, entram nos fios macios e sedosos. Fecha os olhos, escuta a voz serena cantarolar baixinho o refrão de sua mais nova canção.
Não quer admitir, mas sente saudades das madrugadas em que tinha companhia.
Suspirando, impede que, outra vez, os seus pensamentos tomem um rumo melancólico demais. Aliás, não quer começar o dia assim. Portanto, após certificar-se de que o café está pronto, Jungkook bebe o líquido quente, desliga a cafeteira e lava a caneca.
…
No estúdio de gravação, tudo parece normal.
Os funcionários correm pra lá e pra cá, cumprimentam-no de forma breve, muito ocupados para questionar o artista sobre as fofocas, que estão por toda a parte da Internet.
Sentado à mesa de mixagem, encontra-se Min Yoongi. Os cabelos escuros destacam a pele pálida, o olhar um pouco vermelho ㅡ resultado das muitas noites acordado.ㅡ e os músculos caídos, entregando o cansaço; as mãos escondidas nos bolsos do moletom preto.
ㅡ Oi, Hyung! ㅡ Jeon diz, fecha a porta atrás de si e diminui a distância entre vocês. Yoongi sorri; tira um lado do headset para ouvir o amigo, embora continue concentrado na música.ㅡ Pra quem é?
Cruza os braços, curioso.
ㅡ Hoseok.ㅡ Responde, contente; as íris de âmbar brilhando como estrelas cadentes.
ㅡ Posso ouvir?
É a primeira vez hoje que Jungkook esboça um sorriso verdadeiro, realmente animado.
ㅡ Não.ㅡ A cara de incredulidade do maknae arrancou risadas gostosas do rapper, que joga a cabeça pra trás.
ㅡ Vai me deixar curioso? ㅡ Faz drama.
ㅡ Vou, vou sim.ㅡ Fala, a mão em cima da barriga; os risos demoram a cessar.
ㅡ Nossa, você é cruel…ㅡ Resmunga, sentando no estofado.
ㅡ Eu sou.ㅡ Ri, de novo. Estava achando o drama engraçado.
Um silêncio dominou o cômodo, com somente os cliques do mouse de Min Yoongi.
ㅡ Como 'cê 'tá?ㅡ Há preocupação na voz do produtor, que agora encara o jovem, o cenho franzido.
ㅡ Estou…ㅡ Jeon arqueia as sobrancelhas, inseguro.
Jungkook parecia responder a uma questão de física, extremamente complexa, e a resposta não lhe dava segurança para falar com certeza.
Nunca foi um bom mentiroso; quem dera soubesse esconder bem as coisas.
Yoongi, por outro lado, possui um olhar aguçado. Nada passa despercebido, e, desde o término, tem notado o comportamento estranho de seu colega.
ㅡ Você precisa esquecer isso.
Dissera isso antes, porém usando tons serenos. Dessa vez, seu semblante está mais duro, com o intuito de fazer Jeon entender que não pode trancar-se em casa, apenas porque levou um pé na bunda.
ㅡ Eu sei.ㅡ engolindo a seco, murmura.ㅡ É que ainda dói…
O menino desvia o olhar, envergonhado. Tenta impedir as lágrimas de caírem, os dedos apertando o canto dos olhos para secar qualquer líquido que escape. Não quer que seus amigos saibam o quão difícil é superar, sendo que ela faz parecer fácil. Veja, já está até com outro.
De acordo com as fotos nas redes sociais, o novo cara possui um emprego comum, bastante estável, sem a necessidade de viajar a cada duas semanas, e não passa noites no estudo, longe da namorada.
As mentiras, finalmente, acabaram também, pois ambos não precisam namorar às escondidas, fingir que são só amigos para o mundo inteiro, incluindo os próprios familiares.
Agora, eles não conversam mais como antigamente.
Ver outro homem fazê-la feliz, cumprir as promessas que não pôde, machuca-o.
No final, não conseguiu impedir que o amor dela esfriasse, da mesma forma que não conseguiu dar àquilo que ela implorava todas as noites: Um namoro normal.
Jungkook suspira pesado, desabando aos poucos.
Vê-lo tão frágil, parte o coração de Min Yoongi. Era o hyung, aquele que deveria protegê-lo a todo custo. Entretanto, falhou.
Sabe que o primeiro amor de alguém raramente dura. Inclusive, todos viveram, vivem ou irão viver essa mesma dor. Ele mesmo viveu. Faz parte.
Portanto, respira fundo e continua o "sermão":
ㅡ Não importa.ㅡ Os olhos de âmbar encaram as íris escuras, que cintilam tamanha tristeza.ㅡ A vida precisa continuar.