Prazer, meu nome é Samara. Assim como muitas meninas, eu cresci sonhando que um dia seria uma princesa, até poderia, mas, a vida fez com que eu me tornasse uma guerreira.
Hoje, me sinto uma mulher de sorte, pois as princesas vivem para os outros, de aparências e as guerreiras, assim como eu, lutam para si, conquistam!
Vou contar um pouco da minha história: sou filha da Lourdes, uma baleira. Isso mesmo, minha mãe vendia doces nos semáforos de São Paulo, Capital. Enquanto o meu pai, Luiz Fernando, é um homem influente, rico, CEO de uma grande empresa de importação e exportação de carne bovina.
Vocês devem estar se perguntando como uma mulher pobre acabou grávida de um homem poderoso, não é? Se eu não tivesse a comprovação por DNA também não acreditaria.
Ela me disse que o conheceu enquanto colocava saquinhos de balas nos retrovisores dos carros, junto com bilhetinhos escritos: "estou com fome, compre para me ajudar!"
Sem dúvidas, minha mãe passou por muita coisa. Ela tem muitas histórias para contar, mas falar do meu pai, ainda hoje faz com que seus olhos encham de brilho.
Meu pai era um homem casado, Flávia, sua esposa estava no carro com ele no dia em que ele viu minha mãe pela primeira vez. Na verdade, foi ela que pediu para que ele comprasse um doce, pois tinha ficado compadecida da situação da minha mãe, que carregava meu irmão puxando-o pelas mãos o dia inteiro debaixo de sol. Essa parte foi ele que me contou em uma das poucas vezes que o vi.
Minha mãe era uma mulher com o corpo escultural, cabelos fartos e crespos, pele jambo, naturalmente bonita. Ele não conseguiu disfarçar o seu encantamento por ela. Sua esposa, Flávia, percebeu, então, disse:
— Deixa de ser sem vergonha Luiz. Nem a pobretona escapa?
Minha mãe ouviu e ficou sem graça. Fez sua venda e se retirou em direção ao próximo carro.
— Bala de menta, morango, caramelo e amendoim, quem vaiiiii!?
Mesmo observado pela esposa, ele ainda teve a coragem de dar uma espiada através do espelho.
No dia seguinte, no mesmo horário, eis que surge o mesmo carrão, um BMW novinho. Dessa vez ele estava sozinho e fez questão de comprar todas as balas de minha mãe, mas não levou nenhuma. Queria apenas encerrar o expediente dela. A conversa foi mais ou menos assim:
— Quanto falta você vender para ir para casa? Melhor, quanto de bala você tem aí?
Ele encostou o carro no meio fio e a conversa continuou.
— Faz as contas e me diz.
— Cento e cinquenta reais de doce, mas é o valor que tenho de bala para a semana.
— Quero comprar tudo!
— Sério?
— Sim. Vá pra casa, leve seu filho para descansar.
Ele pagou por todas as balas que a minha mãe tinha e ainda deixou pra ela duzentos reais. Pode não parecer muita coisa, mas minha mãe e meu irmão estavam em situação de fome.
Nos dias subsequentes, ele fez questão de parar no sinal só para conversar. Até que se sentiu à vontade e propôs:
— Quer dar uma volta?
— Meu filho ficou com uma vizinha, então eu posso.
— Onde quer ir?
— Não sei, não tenho costume de passear assim, ainda mais num carrão desses.
Ele riu, pôs a mão nos joelhos dela e disse:
— Pode parecer vulgar ou errado, talvez, mas tenho que perguntar: quer ir a um hotel?
— Moço, eu não sou da vida não! Trabalho de maneira decente.
— Não disse isso, é só para tomar um banho, comermos juntos. Você não precisa fazer nada que não queira. Eu juro!
— Você promete?
— Sim, prometo!
— Então, tá bom!
Ela entrou no carro, e foi. Primeiro ele parou em uma loja caríssima de roupas e a encheu de mimos. Depois, a levou para fazer um corte de cabelos e as unhas. Por fim, foram para o hotel.
Chegando lá ele disse:
— Vá experimentar a banheira, tome um banho relaxante e depois prove tudo o que compramos. Ainda quero te levar para jantar.
Na hora ela ficou sem palavras, meio que não acreditou que aquilo estava acontecendo com ela, mas foi tomar banho. Em seguida, se vestiu e ficou se olhando no espelho. Ao sair do quarto a expressão dele foi memorável.
— Uau, você foi feita para andar por aí desse jeito. Ainda mais linda!
— Agradeço, mas não me sinto eu mesma.
— Só por hoje, me faça companhia.
— E a sua esposa?
— O que tem ela?
— Não é estranho estarmos a sós num quarto de hotel?
— Não pense nisso, não agora, não hoje...
— Tá bom!
Ele se aproximou dela, passou a mão envolta de sua cintura e beijou sua boca.
— Posso?
Ela já estava enlouquecida por ele, então disse:
— Sim
Ele foi abrindo o zíper de sua roupa e o clima esquentou. Não preciso dizer o que aconteceu, né? Até porque, estou falando dos meus pais. Mas, nesse dia fui concebida.
Eles foram jantar, em seguida, ele a levou até próximo a sua casa. Depois daquele dia, minha mãe ficou sem vê-lo por quinze longos meses. Ele simplesmente desapareceu.
Tempos depois, no mesmo sinal ela o viu com sua esposa no carro. Me carregando no canguru, ela se aproximou como se não quisesse nada e perguntou:
— Oi, deseja comprar uma bala?
Na hora ele ficou muito sem graça, mas a única coisa que conseguiu fazer foi me olhar bem nos olhos e dizer:
— Linda sua filha. Quantos meses?
— Linda mesmo, não é? 6 meses.
Flávia achou o papo esquisito, fez uma cara de desconfiada e disse:
— Anda, o sinal abriu.
Ele notavelmente desconfortável acelerou e foi embora, mas no outro dia apareceu sem a esposa no sinal.
— Lourdes, tudo bem?
— Tudo.
— Como essa criança se parece comigo. Qual o nome dela?
— Parece, é claro! Sua filha. O nome dela é Samara.
Depois dessa resposta ele ficou mais pálido do que costumava ser, engasgou com a própria saliva e disse:
— Pera aí, é minha?
— Sim, é sua.
— O faremos?
— Não sei, o que você quer fazer?
— Tô lascado! Agora Flávia me mata.
Segundo minha mãe, a conversa não durou muito mais do que isso, pois ele disse:
— Tenho um compromisso urgente, amanhã continuaremos a conversa.
Eu não entendo como ele teve coragem de ir embora naquela hora? Tinha acabado de saber de mim. Isso entristeceu muito a minha mãe.
Você acha que meu pai voltou no dia seguinte? Não, não voltou. Passaram-se três meses até ele aparecer de novo. E já foi logo dizendo:
— Contei pra Flávia que tive uma filha fora do casamento. Ela não reagiu nada bem!
— É lógico, como levar isso numa boa.
— Eu quero o teste de DNA.
— A menina é a sua cara, tem prova maior do que essa?
— Meu advogado me orientou a solicitar o exame, então, para ficar tudo dentro dos conformes, vamos seguir a orientação do meu jurídico.
— Não tenho interesse nenhum no seu dinheiro. Sustento os dois sozinha até agora, então, se você quiser, pode fingir que isso nunca aconteceu.
— Não, não posso deixar minha filha passar necessidade, só preciso do exame por formalidade.
Mesmo após ele ter falado sobre as formalidades, minha mãe que era muito orgulhosa, dona dela mesma, se sentiu super ofendida. Após esse encontro ela resolveu trabalhar em outro sinal.
Meu pai diz que ficou louco procurando-a sinal por sinal por toda a cidade, mas não encontrou. Sua loucura foi tão grande que Flávia não aguentou e o largou. Ela não aceitava todo esse interesse em uma bastarda.
Dezesseis anos depois, o investigador particular que ele contratou achou minha mãe. Foi só então que conheci meu pai, mas já não tinha nenhum sonho de me tornar uma princesa.
Nessa época, ele assumiu a paternidade e começou a participar financeiramente, mas, eu já tinha me tornado uma guerreira, tão forte quanto minha mãe.
Eu abri meu primeiro negócio antes dele me achar. Uma conhecida da minha mãe, a Carla, fazia bijuterias com miçangas e me ensinou tudo o que sabia, além disso, ela me doou o meu primeiro material. Foi assim que a minha empresa a Samara Biju foi crescendo.
Utilizei o pouco que eu tinha ao meu favor e hoje sou bem sucedida pelo meu esforço, é claro, mas também por causa de mulheres que acreditam em mim, no meu potencial.
Hoje minha marca se tornou uma franquia e eu tenho orgulho em dizer que nós mulheres somos fortes. Lourdes, minha mãe, não está mais entre nós, mas ela foi uma guerreira e me ensinou como é a vida de verdade.
Ela com certeza errou de não manter contato com o meu pai, sim, errou. No entanto, todas nós podemos errar, então, está perdoada!
Mesmo com essa decisão que foi tomada por orgulho, posso dizer que sou agradecida a ela, pois sem a interferência dele, de uma vida de princesa, tive a oportunidade de me tornar quem sou, guerreira, dona de mim.
Nesse momento, uma plateia lotada de mulheres empreendedoras se levantou e a aplaudiu. Uma última coisa: lembrem-se que nós podemos cuidar de nós mesmas.
Pai, nos vimos pouco durante todos esses anos. Hoje você me ligou e disse que sente orgulho de mim, sei que é verdade. Te vi sentado aí na plateia, então, obrigada por vir! Outra coisa, não fique triste pelo que passou, pelo que foi perdido. Afinal de contas, temos muito tempo pela frente para aproveitar a companhia um do outro.
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Escrevi esse conto, na verdade um esboço do que pode se tornar um livro. Para isso, gostaria de saber se é um tema que vocês leriam? Deixem seus comentários.
Agradeço desde já!