Há sentimentos que batem forte, uma fagulha no meio da casa em chamas. Você se encontra dentro dela imaginando como será a saída. E estou aqui novamente em mais um conto contando uma história que liga uma as outras. Ou são separadas, você decide o que quer certo?
Num quarto todo escuro e frio, guarda roupa vazio e uma mesa de escrever com caderno e caneta em cima dela. Cama desarrumada e uma janela que reflete a triste luz do dia que se mostra tímida em seu clima. Abro a janela e o céu está completamente feio e horrível. Nublado, quase chuvoso.
— Melancolia, está na hora de sair — Uma voz mansa e ingênua, se manifesta atrás de mim com suas doces palavras e ordem.
— Tristeza, se você pudesse mudar o clima. O que mudaria? — Continuo olhando para fora, mas escuto seus passos atrás de mim, e um barulho na cama denuncia que ela sentou em cima dela.
— Eu não sei, a minha função não é exatamente essa. Existo para equilibrar a ordem das emoções, humanizar os seres. — A sua resposta não foi exatamente o que eu queria ouvir. Mas aceito ela mesmo assim.
— Eu e você somos tão grudados um do outro. As vezes sinto necessidade de voar e mudar todo o clima dentro de mim e da natureza. No fundo eu chamo pela alegria, mesmo que a minha função às vezes não seja essa. Você me entende? — Me viro para ela, e a vejo olhando para mim com os seus olhos lacrimejando.
— Eu sou a única que te entende Melancolia — Ela confirma, se aproximando de mim e estendendo suas mãos para mim. Seguro com certa firmeza suas mãozinhas a olhando.
— Ele ficará seguro? — A Tristeza afirma sim com a cabeça.
— Ele irá, mas não sei para onde ele for após o Vale — Isso que me dói de certa forma.
— Você sente essa dor que estou sentindo por ele?
— Sim sinto Melancolia — Ela puxa meus braços e saio do quarto. Descemos as escadas e vejo ele caído no chão, acompanhado pela Depressão.
— Você matou mais um — O vejo agachada em frente ao corpo, sorrindo para ele.
— Fico contemplando o corpo desse jovem garoto. Ele não aguentou o peso da vida. Eu mostro a verdade, nós mostramos o que é real. Essa é a nossa função. — Meus olhos se enchem de lágrimas, e a Tristeza vai a minha frente e pega a mão do jovem rapaz.
— Ainda há vida nele, sinto sua alma. — A Depressão fica sem sorriso em sua face. A Tristeza somente observa e faz um leve carinho em seu rosto — Ainda podemos salvá-lo, lá no Vale.
— Como podemos fazer isso? É a função da Alegria — A Depressão volta a sorrir de novo, mas de canto, não querendo chamar atenção. Mas observo uma satisfação mínima nele — Eu sei que você é poderoso Depressão. Mas você faz coisas sem nos consultar.
— Para me impedir? Olha como ele está tranquilo e em paz. Eu apenas dei o que o seu desejo mais profundo quis — Me sinto contrariado, não, não é isso.
— Mesmo eu sendo Melancolia, eu sei que isso não é verdade. Nem tudo é preto e branco, existem cores lá no fundo
— Vai se foder você e suas cores, porra — A Depressão altera o humor rapidamente, a Tristeza fica em pé e vem até mim, rapidamente.
— Vamos até o Vale. E de lá, consultaremos Alegria — A Depressão ri um pouco mais alto, e a sua forma muda drasticamente com um ar cruel e sarcástico.
— Vão pro vale, e dão abraços aqueles em que eu levei — A Tristeza o ignora, ela ergue as mãos e faz uns movimentos com ela e, um portal se forma na nossa frente, nós dois somos puxados para um buraco escuro e vazio. E caímos numa espécie de nuvem. Toda fofa e branca, e ela se desfaz se revelando um vale.
— Chegamos ao Vale do Suicíd#o. Precisamos procurar por ele — Coloco minhas mãos no ombro dela, impedindo de prosseguir. Eu sinto medo, um sentimento recorrente para ser sincero. O Vale é enorme, e ao nosso lado é carregada por um frio e aqui é muito, muito frio e gelado. A mesma sensação do quarto. E existe um som nesse Vale… Som de lágrimas, choro, pura tristeza…
— Será que pode ser perigoso? A Alegria não passa por aqui, ou passa? — A Tristeza está com uma expressão carregada de dor e angústia.
— Eu sinto todas as dores juntas ao mesmo tempo. Escuto as vozes deles, arrependimento, dor, medo, culpa… Eu sinto tudo aqui na minha cabeça. A Alegria vem para consolar e abraçar cada alma que desistiu. Não estou romantizando isso, apesar de parecer ser. Mas as almas que se foram por não suportar a dor causada pela vida passam por esse Vale, e recebem conforto antes de entrar na sala de espera do Julgamento Final. De qualquer forma, não sabemos o destino delas, apenas o Criador — Apenas escuto suas palavras saindo dentro dela, a forma como ela lida com as dores dessas pessoas me faz pensar. Apesar de eu ser a Melancolia, não sei exatamente a dimensão da pura essência da Tristeza, já que a minha é prolongada e sempre. Eu me sinto culpado às vezes, um monstro por causar isso, mas essa não é a nossa finalidade, já que a Depressão destrói tudo que toca. Eu e a Tristeza não queremos matar a alma, mas levar elas a terem esperança mesmo em meio a dor, o outro só quer destruir e matar.
Um redemoinho de nuvem se forma atrás de nós, nos viramos e aquele quem de fato desejamos apareceu. Alegria, com seu sorriso e leveza em seu rosto. Sorriso belo e amigável.
— Oi meus irmãos.
— Você veio — Eu e a Tristeza nos curvamos perante a Majestade.
— Pensei que não viria, a nossa pequena missão era procurar por você. Eu peço perdão por vir até aqui Senhor. É que achamos que você poderia reviver o garoto chamado Carlos Eduardo, ele tentou suicíd#o, mas eu senti sua alma ainda viva Senhor — Ele calmamente chega perto da Tristeza e beija sua testa, acalmando ela e até mesmo a mim, com o olhar que me deixa confortável perto dele.
— Está tudo bem meus queridos. Obrigado por virem, eu não os culpo. Vocês têm funções a serem cumpridas e eu sei que elas mexem com vocês, as emoções são perfeitas em suas verdadeiras formas, apesar da dor, todas elas no fundo apontam para a esperança. Mesmo que esses pequenos que estão presos nesse Vale não tenham se sentido esperançosos durante o Plano Terreno, eu ainda os amo com todo o meu coração, mesmo que eles não me vejam, mesmo que não acreditem em mim. O meu coração chora e dói por essas tragédias causadas pela vida e pela dor. Todo dia me derramo em lágrimas ao ver almas suportando o peso da vida sem esperança. Mas eu digo aquelas que em vida ainda podem me ouvir. O meu coração está com elas na sua mais profunda escuridão. — Ele faz movimentos rápidos com os dedos trazendo a alma do Carlos para perto da gente.
— Quê? Onde eu estou? — O jovem todo cabeludo se encontra confuso e perdido no meio de toda essa situação. A Alegria o olha com um sorriso enorme e uma aura leve e confortadora.
— Olá meu filho, ainda não chegou a sua hora — Tudo fica branco. A Tristeza, a Alegria, o garoto, tudo some… Desaparece…
Escuto lágrimas… De repente me encontro no hospital…
Vejo Carlos deitado na maca e seus pais chorando ao ver o garoto acordando. É tudo tão rápido.
— Oh meu filho, que bom que acordou. Mamãe e o papai te amamos. Obrigado Deus, muito obrigado Deus — Os pais beijam Carlos, e a alegria é estampada em seus rostos.
— Isso é tão bonito — A Tristeza aparece no meu lado contemplando a alegria da família
— Sim Tristeza, é muito lindo tudo isso
— Agora podemos ir. — Fico um pouco incomodado.
— Porque ir? Se futuramente eles vão sentir essas mesmas emoções, angústias, sensações? — A questiono, e com paciência ela prepara sua resposta.
— Isso é um mistério até para mim Melancolia, mas por hora, vamos deixar a família contemplar alegria — Ela se retira da sala, e eu fico ali, vendo a família sorridente e alegres com o despertar do filho, e dou um leve sorriso vendo eles assim.