Silêncio... É tudo que pude perceber enquanto minha consciência retornava ao meu corpo. Conforme eu voltava ao normal, eu podia sentir o frio daquele lugar tomando conta de mim.
Abri os olhos. Eu estava estirado no chão de um lugar frio, vazio e quieto, como se fosse o vácuo do espaço ou algum lugar fora da realidade, com vários portais espalhados em cantos diferentes.
Fiquei de pé com certa dificuldade, e me assustei ainda mais com os meus arredores agora que podia reparar direito.
O próprio chão era um reflexo de um céu estrelado e cintilante que havia acima de minha cabeça, dando-me até uma certa vertigem simplesmente por estar sob ele, e a aparente falta de gravidade não ajudava na situação.
–Aloou, tem alguém aí?– o som não se propagação direito, e a forma que se alastrava era limitada a uma pequena área. Visualmente não era muito diferente, já que a vista era limitada a constelações e portais à quem sabe quantos quilômetros de distância.
A existência de portais não era incomum já que eles eram um dos principais meios de transporte entre mundos e dimensões que existia, mas eu nunca soube de nada parecido com esse lugar, e mesmo minhas memórias estando fragmentadas, algo em mim tinha certeza que algo daquela magnitude não estava em nenhum registro.
Não sabia quem era, onde estava e nem o porquê de eu estar lá, mas mantendo a racionalidade, não via nenhuma outra solução a não ser sair dali. Eu precisava ir para algum algum lugar onde as pessoas me conhecessem, e pudessem me ajudar.
Andei em direção à um dos portais, apreensivo sobre ele e para onde poderia me levar, caso não me destruísse no momento que eu o atravessasse.
Eu andei, andei e andei... E não sai do lugar?!?
Eu comecei a correr, aborrecido.
Corri o máximo que pude, com todas as minhas forças, e ainda assim eu não conseguia sequer sair do lugar. Os portais continuavam no mesmo lugar, na mesma distância de quando comecei a me mexer.
Me estressei, cerrilhando os dentes e fechando os punhos eu acelerei mais, até que finalmente desisti de correr naquela esteira estranha, infinita e invisível.
Sentei e comecei a pensar no que fazer enquanto admirava as luzes brilhantes por todo canto. Me acalmei e fechei momentaneamente os olhos.
– eu só queria sair daqui – desejei mentalmente, e de repente um dos portais começou a se mover até mim. Eu não podia querer chegar até eles, mas podia querer que eles viessem até mim.
Quanto mais perto ele chegava, mais suas cores me fascinavam. Tinha um tom azul claríssimo que reluzia com alguns tons de roxo avulsos em seu esplendor.
Ainda com medo, me questionei se aquilo era a única coisa que eu poderia fazer, mas decidido a me arriscar, virei de costas para apreciar aquele lugar misterioso uma última vez. Não sentiria falta daquele piso, de forma alguma, mas aquele céu estrelado juntamente com os portais que decoravam a paisagem faziam com que aquele lugar fosse um lugar que poderia ser observado por horas sem enjoar.
Respirei fundo e comecei a me dirigir em direção ao portal. A cada passo meu coração acelerava e errava as batidas. Só o destino sabia o que me aguardava depois que eu atravessasse aquela fissura espacial, e eu sabia que minha vida estava em risco simplesmente por considerar passar por aquilo.
Comecei a contar de trás pra frente conforme me aproximava – 5, 4, 3, 2... – no "1" eu pulei como se mergulhasse numa piscina. O espaço se distorceu, e me fez sentir como um macarrão em uma panela fervente, o que era estranho. Como eu lembrava o que era um macarrão? Bem, não importava. Sentia que depois de quase 1 minuto, eu estava prestes a sair.
Me senti retorcido e quase vomitei, mas não tive tempo, pois fui cuspido pra fora do portal da forma mais ridícula que era possível, caindo e rolando por um solo quente e seco.
Me pus de pé e limpei os olhos que estavam cheios de poeira, finalmente podendo ver onde estava – Você só pode estar de sacanagem comigo! – gritei com todas as minhas forças pra liberar meu aborrecimento. Eu estava no meio do nada novamente, mas agora em uma planície de terra, árida e quente, sem nada à vista, nem mesmo outros portais.
– certo, eu tenho duas opções. Voltar atrás e passar por todo o processo de teletransporte novamente, andar sob aquele piso espelhado e segurar o vômito enquanto escolho outro portal. Ou... Ir em frente, andando sobre esse Sol escaldante enquanto rezo pra ter algo à frente... – falei em voz alta comigo mesmo pra me ajudar a tomar uma decisão. – claramente a segunda opção – e parti em linha reta.
Andei por horas num calor que faria o inferno parecer um acampamento de verão, mas algo que achei engraçado foi que mesmo com todo aquele calor, as roupas no meu corpo não me incomodavam. Eu estava vestindo um casaco moletom ciano por cima de uma blusa branca básica, nas pernas eu usava uma calça também de moletom, num tom cinza, com um tênis esportivo bordô protegendo meus pés do solo árido. Essas roupas eram as únicas coisas que eu tinha desde o momento que acordei, e deveria dizer que adorei a escolha de cores.
Durante a apreciação das minhas vestimentas, tudo começou a tremer e a terra começou a rachar. Sofri pra manter o equilíbrio e organizar os pensamentos, sendo a minha única reação: – o que é que está acontecendooo?! – e enquanto eu berrava, um monstro emergia das fendas criadas no solo.
Com um corpo comprido e enorme, sua pele parecia impenetrável, semelhante à blindagem de um tanque. Cada uma de suas patas tinha duas vezes o meu tamanho, e eram pontiagudas e afiadas como navalhas, eu definitivamente não queria ser acertado por aquelas coisas, mas pro meu azar, aquela coisa estava vindo em minha direção, e eu achava que não adiantaria rezar pra me deixar em paz.
– merda, merda, merda, merda, merda! – dei meia volta e comecei a correr como se minha vida dependesse disso, porque definitivamente dependia.
Não me lembro de ter movido minhas pernas tão rápido quanto naquele momento, não que eu me lembrasse de muita coisa além de comida.
Foram longos minutos correndo em alta velocidade, e aquela coisa não parecia querer desistir. A única coisa que me mantinha minimamente são, porém confuso, era o fato de meu corpo estar aguentando correr tanto e naquela velocidade. A poeira do chão abria caminho por onde eu andava de tão rápido que eu me locomovia, e mesmo assim meu corpo parecia longe do seu limite.
– haha... hahahahaha você não pode me pegar sua lacraia crescida! – pra minha infelicidade, o karma bateu, e aparentemente xingar um animal ancestral ofendeu a mãe natureza e eu caí de forma ridícula, tropeçando numa pedra quando em altíssima velocidade. O tombo foi feio, e seria cômico senão fosse trágico. Eu fui arrastado pela inércia por mais de cem metros, raspando todo meu corpo e principalmente meu rosto no chão.
Quando finalmente parei de ser afetado pela primeira lei de newton, parando de rolar pelo chão, eu sofri pra ficar apoiado sobre meus braços e pernas, e nem pensava em tentar ficar de pé. Desnorteado, o máximo que pude fazer foi virar de costas, e ver meu fim se aproximar freneticamente em forma de centopéia gigante.
Ergui os braços tentando fazer um escudo para cobrir meu rosto e parte do meu tronco numa tentativa desesperada de salvar meus órgãos mais importantes.
Fechei os olhos e enrigeci cada parte do meu ser. Houve um arrepio e comecei a sentir algo estranho, como a adrenalina que percorre o corpo em momentos de desespero. O vento parou ao meu redor, o ar ficou rarefeito e tudo num raio de 2 metros pareceu desconexo do resto. Abri os olhos e pude ver a boca da centopéia se aproximando a mais de duzentos por hora, mas então ela passou direto, atravessando a mim e ao redor do lugar em que eu estava.
Quando seu corpo em sua integridade atravessou-me por completo, eu pude me recuperar do que havia acontecido, e a primeira coisa que reparei foi o buraco que cobria toda uma área com excessão de uma, o centro, onde eu estava, com certas coisinhas, ou seria melhor, anomalias, brilhando e piscando loucamente no local. – Por que só eu e esse pedacinho de terra ficaram intactos? E o que está acontecendo com esse lugar? – indaguei a mim mesmo, fazendo-me questionar minha sanidade por falar tanto sozinho.
– Não importa, preciso aproveitar e continuar em frente. Perdi muito tempo com esse bicho, pelo menos agora eu sei do que sou capaz. – continuei meu caminho na mesma velocidade que eu estava fugindo daquela aberração da natureza. Eu tinha que admitir, se não fosse a aparente super resistência do meu corpo, provavelmente eu já estaria desidratado, sofrendo de exaustão ou mesmo morto.
Não muito tempo depois, eu já havia recuperado o tempo perdido e até mesmo ultrapassado, e muito, a distância que eu tinha percorrido andando.
Eu mantinha a velocidade de um guepardo com facilidade, batendo até mais de 130km por hora, com o diferencial de ter uma resistência ridiculamente maior.
Achei curioso o fato de eu ainda me lembrar o que era um guepardo. Minhas memórias eram escassas, mas tudo que não estava relacionado a mim e ao meu passado se manteve no meu "disco rígido".
O porquê disso eu não sabia, então não havia muito o que eu fazer sobre isso, além de aceitar e procurar alguém que pudesse me ajudar.
Cheguei a um cânion não muito grande, e entre os vãos das paredes de rocha decidi descansar um pouco. Pensei sobre tudo que aconteceu, e de novo me vi questionando o que ocorrera lá atrás com a centopéia gigante. Será que intangibilidade fazia parte do pacote de super herói? Eu estava lidando bem demais com tudo isso, de forma que parecia até saber, mesmo inconscientemente, o que estava ocorrendo comigo.
Convenhamos, eu tomei decisões muito idiotas até aqui. Será que meu instinto teve dedo nisso tudo?
O tempo passou, começou a escurecer e luzes fortes cintilaram no horizonte. Aquele era o sinal que eu precisava esse tempo todo.
Tomei fôlego mais uma vez, me abaixei em posição de corrida, contei até 3 e disparei. A paisagem se distorcia de tão rápido que passava por ela, e o que já era difícil de enxergar ficava indecifrável. Tropecei cerca de 7 vezes no caminho que se seguiu. Infelizmente, enxergar no escuro não era uma de minhas habilidades, mas teimosia era, e eu não pretendia desacelerar.
Foi muito sofrimento para uma pessoa só aguentar em um dia inteiro, mas tudo aquilo tava acabando, eu finalmente estava chegando à uma cidade!
Esse é o capítulo 1 de Singularidade, que está sendo postada regularmente no Wattpad, e futuramente, aqui no Noveltoon