❈❈A flor e a lança❈❈
O som de um sino, um presságio. Esse era um dos costumes de sua família, sempre ter pelo menos um sino em seu corpo, não importava o tamanho ou o estilo que fosse, só precisava cumprir a sua única função. Avisar que o presságio da família Cayene estava a caminho, estava entre eles.
— Calados! Querem continuar com a cabeça no corpo?
Um sussurro pode ser escutado. Todos os olhares estavam na mesma pessoa, naquela que andava entre eles com uma postura impecável e seu olhar perfurante, assim como seu poder.
E sinceramente, por dentro ela achava levemente cômico, já que nem ao menos, havia despertado devidamente.
— Andem! Saiam do caminho!
Era sempre a mesma rotina, todos eles ficavam encostados em seus armários enquanto ela passava, ninguém queria ter o infortúnio de encostar nela, nem de tropeçar em sua frente. Ou pelo menos, até aquele fatídico dia.
— Oh...Eu sinto muito...
Uma garota pequena de cabelos curtos em um roxo extremamente claro foi jogada em sua frente, um grupo de pessoas ria enquanto assistia a cena, queriam jogá-la a cova dos leões mas...Não fizeram nada além de assinarem sua própria carta de suicídio.
— Você está bem?
O tom grave da platinada foi escutado pela primeira vez pela escola, o que fez a de cabelos lilás a olhar com certa descrença.
— Sim, eu apenas...Tropecei.
— As pessoas te empurrarem virou tropeçar?
Falou em tom sério, e a garota que estava no chão por sua vez, corou quase que instantaneamente.
— Vai continuar aí por quanto tempo?
Disse enquanto estendia a mão. A menina parecia com medo, em sua cabeça só conseguia enxergar várias cenas de sua mão e seus dedos sendo completamente dilacerados...Mas mesmo assim, aceitou aquela ajuda, por mais mortal que parecesse.
— Nome.
— Perdão?...
— Seu nome, ou prefere que eu te chame de garota desastrada até o fim do ano?
Falou com certa ironia enquanto continuava de mãos dadas com a outra garota, e assim elas andaram até a primeira aula, com todos os olhares as acompanhando. Eles estavam presenciando a primeira sobrevivente, a primeira que teve a misericórdia da família das lanças.
E assim, os dias se passaram, toda vez que a herdeira de Cayene via a de cabelos curtos, sorria e a chamava para perto, o que fez grande parte da escola acreditar que também conseguiram se aproximar.
— Posso me juntar a vocês?
Às vezes alguma alma perdida e sem protetor dizia, e ganhava um olhar tão frio quanto o inverno mais rigoroso que já havia presenciado. Eles não eram a mesma coisa, nunca seriam.
Muitas vozes eram escutadas desde então, se perguntando o que ela tinha de tão especial, se tropeçar ajudaria, se tudo aquilo não era só uma brincadeira de uma herdeira entediada. Seja como for, aquilo a atingia, até mais do que desejava.
— Olá!
A platinada acenou com um sorriso no rosto, mas foi ignorada.
"Deve estar em um dia ruim" acabou pensando consigo mesma, então deixou a garota em paz naquele momento. Mas então, vários dias se passaram, várias semanas se passaram, até que ela decidiu finalmente tomar uma atitude, ver o que estava acontecendo.
— Por que está me evitando?
Ficou quieta.
— Me responda!
— Porque não param de falar!
— De falar?...
A platinada olhou por alguns segundos em descrença, quem teria coragem de falar sobre ela? Ou sobre alguém que claramente gostava?...
— Sim! Não param de falar como foi sorte, como não sabem como você ainda anda comigo, como vo-...
A segurou pelos ombros e a olhou bem no fundo dos olhos, estava séria, até mais do que o normal.
— E o que eles sabem?
— O que?...
— E o que eles sabem? Sabem como você é? Sabem...A quanto tempo eu quis falar com você?...
A garota de cabelos lilás congelou, ela quis falar com ela...Ela?...
— Por que não responde?
Quando suas palavras estavam saindo pela sua boca, percebeu uma lança sendo jogada na direção delas. A única lança capaz de ferir um Cayene.
— Cuidado!
Se colocou em sua frente. A lança a atingiu bem no meio de seu estômago e um tapete carmim foi formado ao seu redor enquanto caia de joelhos. Havia se colocado em seu lugar. Tomou a dor em seu lugar.
— Por que? POR QUÊ???
Começou a gritar enquanto envolvia a garota em seus braços, aquelas pessoas foram as mesmas que empurraram a que agora estava sangrando. Tudo havia sido arquitetado.
— Vocês acham isso engraçado?
Os olhos que antes eram cinzas se tornaram completamente vermelhos, tanto a sua íris quanto a sua esclera. Não tinha mais razão em seu ser, e ela não voltaria tão cedo. Não até todos estarem mortos.
— Sabem porque a minha família é tão temida?...
Fez gotas de sangue flutuarem do chão, e quando todos perceberam, elas haviam se transformado em lanças, tão afiadas e cortantes quanto uma que fora forjada em metal. Havia despertado, despertado para vingar a pessoa que amava.
— Últimas palavras?...
Misericórdia, era a única coisa que saia de suas bocas. Realmente acharam que seria tão fácil? Que mesmo que a lança a atingisse, ela não conseguiria dizimá-los antes de morrer?...Que piada.
Alguns foram perfurados pelas lanças rubi e outros eram dilacerados de dentro para fora, seus órgãos eram rasgados até chegarem finalmente à pele que era cortada sem o menor resquício de pena. E tudo isso apenas parou quando uma mão gelada foi sentida no rosto da herdeira de Cayene, essa que ela recordava muito bem.
— Está tudo bem, já é o suficiente.
— Não, não é! Eu não...Eu não tive tempo o suficiente com você!
— Está tudo bem, podemos ter.
— Não, não podemos! Como vamos te-...
A mão foi até a sua boca, e um sorriso gentil pode ser visto no rosto da que já estava praticamente dançando com a morte.
— Te vejo na próxima vida, querida.
Próxima vida? Ela nem acreditava em vida após a morte, mas quis acreditar naquele momento, desejou que algo assim existisse para que pudesse vê-la de novo, para que pudesse... protegê-lá de forma devida dessa vez...
— Te vejo na próxima vida...
Disse entre lágrimas e puxadas de ar, a mão não estava mais firme...Havia a deixado, pelo menos...Por enquanto.
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