⊱⋅•°•⋅ 29 ♚ Agosto ⋅•°•⋅⊰
Era surreal o que estava em minha frente, já que segundos atrás era apenas uma linda serpente albina que salvei de um estudante imbecil.
Eu apenas queria devolve-la a natureza, mas agora... agora a coisa havia se tornado mais confusa e bizarra.
— Não chegue perto de mim! — Me apressei em dizer, mas o homem que antes era uma serpente, sorriu.
Um sorriso que fez meu pobre coração disparar.
"Ela é tão fofa" ouvi, mas seus lábios nem ao menos se moveram.
— Como fez isso? — perguntei assustada andando devagar para trás.
Ele me olhou com o rosto deitado para o lado.
— Fiz o quê? — Sua voz parecia mais rouca agora que a segundos atrás, então novamente o ouvi sem que movesse seus lábios.
"Ela parece um gatinho assustado... irá correr se eu tentar chegar perto?... que triste, eu gostei de quando ela me toca"
Meu rosto corou, ele era assim tão descarado?
— Como consegue falar isso? — Perguntei indignada, mas os olhos verdes do homem à minha frente vacilaram.
— O quê? — Ele me questionou e então, ele sorriu.
"Consegue me ouvir?"
Uni as sobrancelhas com certa indignação.
— Mesmo que não abra a boca, eu consigo..., mas quem diabos é você?
Eu deveria correr, não perguntar algo estúpido como aquilo.
— Você consegue ler mentes... — ele murmurou, parecendo surpreso.
Ergui uma sobrancelha.
— Que tipo de drogas você usou?
O homem de olhos verdes e cabelos platinados sorriu, um sorriso largo.
— Consegue aceitar que uma serpente se torne um homem, mas não que você consiga ler mentes?
Meus lábios se frizaram em uma careta.
— Não aceitei nenhuma dessas maluquices — resmunguei, mas não imaginava onde tudo aquilo iria dar.
Mesmo que não soubesse o porquê eu sempre acabava voltando até lá, até ele e aquele homem de cabelos platinados e olhos absurdamente verdes, sempre sorria como se soubesse que eu logo chegaria.
— Eu senti sua falta — ele disse como se fossemos grandes amigos e mesmo que eu sempre o tratasse com grosseria e irritação, não podia negar que ele era um dos únicos que não era sufocante de se estar.
A verdade era que daquele dia em diante, eu ouvia os pensamentos de todos à minha volta e o mundo que parecia sufocante antes, se tornou um verdadeiro inferno.
— Que bom te ver — as pessoas diziam, mas em sua mente era doentio de se ouvir.
"Quem essa vagabunda pensa que é, pra voltar aqui? Ela realmente deve ser bem corajosa, ou cara de pau"
— Você está tão bonita.
"Que ridícula, ela realmente vai sair assim? Não se olhou no espelho?"
Não era como se eu vivesse em um mundo alternativo onde todos eram bondosos e gentis, mas ouvir as verdades estampadas em seus rostos era sufocante demais.
Contudo, quando entrava naquela campina escondida atrás da minha antiga escola, o silêncio inundava minha mente, não havia ninguém e quando havia, era ele.
O corpo aparentemente frágil, esguio, com um rosto delicado de traços andróginos e lábios rosados que deixaria qualquer garota popular invejada.
Aquele de quem nem mesmo me dei ao trabalho de perguntar o nome, não parecia mentir.
Seus pensamentos e suas palavras eram sempre as mesmas, eram sempre concisas e antes que me desse conta, eu estava me acostumando a isso.
— Como foi seu dia? — Ele perguntava e em sua mente, repassava as coisas que havia feito. Às vezes, ele parecia esquecer que eu conseguia ler mentes, mas assim foi que descobri a verdade sobre ele, sobre meus poderes e sobre o novo mundo.
Pouco a pouco, me tornei mais dócil com ele e quando me dei conta, eu o esperava deitada na campina e quando seus pensamentos cantarolantes inundavam minha mente, eu me pegava sorrindo.
— Me deixe ir com você — falei uma vez quando o céu estava prestes a escurecer.
Ele vacilou.
— Mas lá é perigoso… — disse como se não soubesse bem como explicar, mas eu sorri.
— Eu posso ler mentes, se lembra? Posso ser sua conselheira… — vi os olhos de esmeralda brilharem.
— Realmente faria isso? — Ele perguntou — achei que iria… preferir ficar longe de algo tão problemático.
Bufei.
— Sabe… até que você é um problema do qual vale a pena estar perto.
Ele corou e aquela foi a primeira vez que o considerei tão adorável.
Em 29 de agosto eu ganhei super poderes e a capacidade de ler mentes. Em 29 de agosto eu conheci um príncipe de olhos verdes e cabelos platinados que tem o péssimo hábito de se tornar uma serpente para fugir do trabalho; e ousaria dizer que em 30 de agosto, eu estava apaixonada por ele.
Uma parte minha acredita que me apaixonei pela paz que ele constantemente me trazia, mas a verdade é diferente. O que acredito é que me apaixonei pela verdade que é constante em seu coração, porquê o meu príncipe serpente é sempre constante e mesmo que não conseguisse ler seus pensamentos, conseguiria ver em seus olhos tudo que ele pensava.
⊱⋅••⋅───⋅• ♛ •⋅───⋅••⋅⊰