E foi ali que ela percebeu o quanto estava sozinha, em meio a uma festa de aniversário, a sua festa de aniversário, e não importava quantos convidados tinham, quantos presentes e o quão grande ele era, não importava ver sua mãe feliz falando de você para a sua tia, nada mais tinha sentido no seu mundo.
Podia parecer um egoismo enorme estar sentindo aquela profunda dor mesmo que nada tenha acontecido, afinal o que fez ela se sentir tão mal assim ? uma perda ? uma humilhação ? não importava qual tinha sido a causa de tudo aquilo porque agora nada consertaria isso. Ela não acordou simplesmente no dia do seu e pensou "que belo dia para querer me matar" não, não foi assim, ela se afundou naquele caos que habitava nela dia após dia, foi perda, foi uma piadinha de mal gosto, foi um elogio que pareceu humilhação, foi uma atitude, foram várias coisas e agora aquilo a sufocava cada vez mais.
É normal sentir isso ? nem mesmo ela sabia, mas tinha salvação ? para ela era bem provavel que não
E os amigos riam, a abraçavam, diziam parabéns pelo seu grande dia, todo aquele dia era magnífico, era um buque de rosas e ali ela se sentiu como aquele maldito espinho que insiste em ficar e atrapalhar.
Mas e se ela pudesse mudar tudo ? voltar ao tempo ? não isso não, continuar dali para frente ignorando suas dores ? isso foi o que ela fez até agora. Se matar era facil de mais, e se houvesse sim uma salvação ? ela precisava se dar a chance de recomeçar algum dia.
Sua escolha não foi nada madura mas era melhor do que o plano M de morte, como a festa era dela ela podia fazer o que quisesse, claro que isso não a permitia sair batendo em todos então ela bebeu, bebeu até não se lembrar de mais nada, se ela parou depois disso ? ai é um mistério mas naquele momento a liberdade tomou conta dela, o poder de colocar toda a culpa em outra coisa, por que ela era uma mulher comportava e foi culpa do álcool que a fez fazer tais coisas, coisas como chegar na sua melhor amiga e dizer o quanto ela a machucou quando disse que minha dor era frescura, coisas como chegar no garoto que um dia ela tanto amou e dizer o quanto ele era um babaca por dizer que a achava linda mesmo ela sendo gorda, sobrou até para a tia que a escutou dizer o quão falsa e sem noção ela era por sempre falar mal de sua mãe pelas costas e sempre mandar receitas de emagrecimento para ela e não parou por ai, ela ainda resolveu fazer um pequeno show ao tirar a blusa e mostrar o quão exposto estão seus ossos, a pele que agora esta tão seca e pensar que apenas simples comentarios a trouxeram a aquele lugar, aquele maldito lugar onde agora que ela finalmente emagreceu todos dizem a ela que ela precisa engordar um pouco, afinal o que eram ? não sabem o que querer e acabam torturando as poucas pessoas por isso
É aquele aniversário fez a revolução, não no mundo já que ainda existem pessoas hipócritas mas a partir dali ela simplesmente parou, e como foi dito "uma segunda chance para recomeçar" foi o que ela teve, sempre vao haver um maldito comentário, sempre vai ter alguem com um corpo "melhor" mas não importa o corpo e sim seu amor consigo mesma, ser gorda não é doença assim como estar magra não é estar bem de saúde.
Naquele dia ela mostrou as pessoas o quanto as palavras deles a machucaram, "não foi por maldade" foi o que eles disseram, existem palavras que mesmo sem maldade elas causam o mal, pior do que qualquer agressão física, porque um olho roxo se cura mas uma ofensa muitas vezes traumatiza.
E ela não se tornou perfeita, ela ainda é ela mesma, com suas dores, tristezas mas também existem alegrias, coisas que antes ela se negava a ver, até em dias de tempestade existia beleza.