Cheguei na sala de aula, tinha 13 anos. Era uma nova escola e eu não conhecia ninguém. me sentei no único lugar que havia na sala com cerca de 40 alunos. Olhei ao meu redor com vergonha. Não conhecia ninguém e os outros alunos me olhavam curiosos. Me sentei na segunda fileira a partir da porta. Do meu lado, um garoto de olhos puxados me olhando fixamente. Fiquei me perguntando se ele falava nossa língua. Para mim ele era japonês, porque nunca tinha visto as características de um japonês com muita atenção. A professora chegou na sala e deu sua aula. Depois outro professor tomou seu lugar. E bateu o sinal o recreio. Algumas meninas se aproximaram de mim, para fazer amizade. Eu não sabia que existia rivalidade entre as meninas na sala, mas havia um grupo de meninas que se consideravam ricas que esnobam outras e então percebi que as que se aproximaram de mim, eram as pobres. Que se sentavam ao meu lado. Elas eram Silvana, Cristina e Sirlene. Tinha mais duas, Alessandra e Késia, mas elas eram tão silenciosas que acabava me esquecendo delas. O tempo passou e a amizade entre nós se fortaleceu, até que um dia, no recreio, elas resolveram me contar que eram apaixonadas pelo mesmo rapaz e que ele sentava bem do meu lado. Então me lembrei do meu vizinho japonês, achando graça que alguém podia gostar dele. Suas brincadeiras eram bobas e infantis e eu não gostava particularmente da ironia com que ele sempre usava quando falava comigo. Porém, assim que me contaram, resolvi ajudá-las. Ele podia escolher entre três moças bonitas. Então comecei a conversar com ele, num tom mais sério e acabei me acostumando com ele e até passei a gostar da companhia dele. Mas eu tinha uma missão. E contei para ele sobre a paixão das minhas amigas. Nunca vou me esquecer do brilho que surgiu no olhar dele. Ele não respondeu e se recusou a conversar comigo durante três dias, mesmo eu puxando assunto o tempo todo. Então um dia, eu entrei na sala antes dele, assim que terminou o recreio e o caderno dele estava encima da mesa. Eu fui direto no final do caderno, onde todos os alunos da minha época deixavam seus segredos. E para minha surpresa, havia o desenho de um coração com meu nome e o dele no centro. Além disso, algumas coisas que eu dizia estavam anotadas junto com dia e hora. Fechei o caderno dele antes que ele entrasse. Até hoje ele não sabe disso. Foi quase que inevitável não começar a ver ele com outros olhos. Ele voltou a conversar comigo, e esqueci de minhas amigas. E então, descobri quando houve uma fatalidade na família dele, onde uma irmã caçula foi morta brutalmente por um devedor do pai dele, que eu o amava. Sentia a dor dele. Fui até a casa dele e permaneci abraçada com ele o tempo todo. Depois desse dia eu nunca mais tirei ele do meu coração. Mas fui obrigada a ir morar em outro estado e me afastei dele, mas antes contei para as amigas que também amava ele e disse a ele também. Ele ficou sem respostas e as meninas zangadas. E fui embora depois de dois anos de convivência com ele. Não namorei, não fiz amizades, mInha única vontade era voltar para ele. E com dezoito anos eu consegui voltar. Ele foi a primeira pessoa que fui visitar. E pedi ele em namoro. E para minha surpresa, ele aceitou. aconteceram muitos conflitos na minha vida nessa época e acabamos nós separando por ciúmes da parte dele. Nós dois éramos virgens e acho que isso deixava ele inseguro. Tentamos transar algumas vezes, mas eu sempre o parava quando começava a sentir a dor. E assim, depois da separação, conheci outras pessoas, e até o pai do meu filho. E quando fiquei grávida, encontrei com ele na fila do banco e começamos a conversar, e eu falei para ele que jamais o esqueci. E ele disse, me prometendo, que jamais se casaria ou teria filhos, se não fosse comigo. Aquilo me doeu. Não queria mais estar grávida de outro homem. Eu queria ele. Mas quando meu filho nasceu, passou a ser meu primeiro foco, mesmo que não esquecia ele em momento algum. O pai do meu filho, me humilhava e me deixava sem comida para mim e para meu filho. Gastava todo dinheiro com as mulheres que fazia a vida com isso. E eu passei a odia-lo, quando nos mudamos para a cidade, pois morávamos na roça, comecei a dar aulas particulares, já que assim podia acompanhar meu filho de perto. Comecei a fazer trabalhos escolares para pessoas que trabalhavam e não tinham tempo. E minha renda foi crescendo. Dei tudo ao meu filho, e até ao pai dele eu sustentava. E ainda guardava dinheiro no banco. Depois comecei a gravar dvds de filmes e músicas e isso foi a mina de ouro.as veio tarde. Eu me separei, mas logo depois sofri um AVC. minha boca entortou e fiquei com algumas sequelas. E eu sabia que o único homem que amei na vida, jamais me aceitaria deformada. Sofri muitas mudanças. Mesmo assim, depois de anos, eu voltei a procura-lo.
Encontrei ele, sem filhos e também não se casou como prometido. Mas estava namorando. Eu não quis ser um empecilho na vida dele e trocamos números e eu continuei indo até ele e ficávamos por horas conversando. Quando eu o conheci, ele não tinha n uma bicicleta e agora era dono de uma rede de supermercado. Essa diferença social entre nós também passei a ver como uma barreira, apesar de ele não ter mudado sua forma de agir comigo. Nesses meses, dei uma pausa porque meu irmão ficou muito doente e foi entubado, e eu orava a Deus o dia todo, me afastei de tudo, porque não conseguia mais raciocinar. O medo de perder um de meus irmãos era grande, pois muitos conhecidos e amigos meus já tinham perdido a batalha para essa doença. No dia que ele saiu do hospital e foi para casa, descobri um nódulo no seio e procurei um médico imediatamente. Realizei alguns exames e já sabia que era câncer, pela forma urgente com que todos me olhavam, quando faziam os exames e quando eu ia a mastologista. Então fui mais algumas vezes ver o meu amado, antes de começar a quimioterapia. Não consegui dizer a ele que não ia deixar que ele me visse careca e com a pele ressecada. Nem mesmo que deixaria de ir vê-lo após o início do tratamento. Ele disse que Deus estaria comigo e que daria tudo certo quando contei que estava com um nódulo no seio. Então comecei o tratamento e começamos a conversar apenas pelo whatsapp. E foi assim que fiquei sabendo que ele se separou da namorada. Por um lado fiquei feliz. Mas por outro me desesperei porque eu não podia ficar com ele. O tratamento era muito agressivo e eu vivia com enjôos e náuseas, dores e falta de apetite. Então disse a ele que logo ele arrumaria outra namorada que o faria feliz. Essa mensagem foi visualizada e não foi respondida. Um mês depois, eu voltando de mais uma quimioterapia, vi um carro parado na frente da minha casa, mas não reconheci e entrei em casa já pensando no banho e na cama. Mas bateram a porta. Era ele. Eu estava usando o lenço na cabeça e isso me deixou menos sem graça. Fui obrigada a convidá-lo para entrar e esperar na sala enquanto eu tomava banho, pois as forças iam embora rápido. Ele não disse nada. Apenas se sentou no sofá, colocou os braços por trás da cabeça e ficou olhando para o teto. Levei um lenço limpo para o banheiro, para ele não ver minha cabeça e já saí de lá vestida com as roupas que eu usava para dormir. Fui obrigada a chamá-lo para o quarto, pois meu corpo só pedia cama. Ele veio. E assim que me acomodei, ele tirou os sapatos e se deitou ao meu lado. E ele começou a me dizer coisas que me fizeram feliz sim, mas que não sabia mais se eu estava sonhando por causa dos remédios. Ele me disse que queria uma namorada e que ficaria muito feliz se fosse eu. E disse que queria ter três filhos. Eu disse a ele que não podia engravidar enquanto estivesse no tratamento, mas ele já havia procurado saber, e meu tratamento terminava em outubro daquele ano. Mas eu disse a ele que mesmo assim, eu não tinha mais idade para ter mais três gestações, ele disse que sairíamos do Brasil e faríamos inseminação e já nasceriam os três de uma vez só. Depois disso, ele vinha me visitar e começamos a ficar mais íntimos, porque no dia da conversa, além da sensação de irrealidade, eu não estava bem e não pensei em muita coisa. Dormi e quando acordei ele já não estava mais lá. Voltamos as conversas pelo whatsapp e vez ou outra ele aparecia em casa e ficava conversando comigo até eu dormir. Acontece que ficamos íntimos. Começamos a nós beijar e acabamos dormindo juntos depois de fazer amor. E isso se repetiu por várias vezes. Eu, se era possível, amava ele cada vez mais. E tinha medo de tudo que eu sentia. De tudo aquilo acabar.
Em agosto eu fiz a cirurgia da retirada do tumor, e depois teria que fazer as sessões de radioterapia e estava livre. Após a cirurgia, ele sumiu. Não respondia ao WhatsApp, mas visualizava.
Depois de muitas tentativas de falar com ele, sem sucesso, eu desisti. Entendi que ele estava apenas me dando força na pior parte do tratamento e que agora decidiu que eu não precisava mais dele. Eu precisava pensar assim, para de uma certa forma aliviar minha dor. Já estava feliz com o tempo que passei com ele. Foram momentos maravilhosos e que realmente me ajudar nos meus piores momentos. E voltei a escrever meus livros e deixei de deseja-lo. Apenas o amava e pedia a Deus que o abençoasse sempre, mais que o tirasse do meu coração e dos meus pensamentos. Eu sabia que não era mais atraente e então também não me preocupava com mais com a aparência. Sabia que ninguém mais iria me querer e aquilo foi tomando forma dentro de mim, e realmente não olhava duas vezes para nenhum rapaz, ainda mais se fosse atraente. Se fosse o tipo de homem que me atraia.
Uma amiga minha combinou de vir me visitar no final de semana e eu fiquei feliz. Amo ela, sempre soube de todos os meus problemas e sempre me deu a maior força. Preparei um churrasco para nós e ficamos conversando por um longo tempo. Pouco antes dela ir embora, me perguntou se eu sabia o que havia acontecido com meu amado, se ele tinha me contado. Eu assustei e disse que não fazia a mínima ideia. Então ela me contou que a família do pai do meu filho, assim como ele e a esposa dele foram até o meu amado, e lhe contaram muitas mentiras, e o ameaçaram de morte, a ele e a família dele se continuasse me procurando.