ROMANCE HISTÓRICO
Kessia nem ao menos esperou, ou se preocupou com seus bons modos. Ela estava furiosa demais para pensar em qualquer outra coisa naquele momento. Quando a carruagem parou, ela saltou para o meio da rua, agarrou-se à barra de seu comprido vestido e saiu pisando. O lorde de Leinster, Richard II da Irlanda, parecia tão perplexo com a reação da dama quanto os servos ao seu redor, mas não hesitou em descer e apressar-se até ela.
— Qual é o problema, milady? — Richard quis saber. Kessia o ignorou veementemente seguindo em direção a propriedade da família Dankworth, o magnífico casarão luxuoso.
Entretanto, no decorrer do trajeto ela se deu conta de que valia muito mais a pena desabafar sua frustração do que guardar tudo para si mesma, então bruscamente ela parou e se virou para encarar o seu senhor. Kessia nutria em seu belo rosto uma expressão de raiva, e com brilho nos olhos ela apertou os lábios:
— E quanto ao senhor, meu lorde? Tirou-me da miséria com a intenção de me oferecer ao rei, e agora retrocede em sua própria decisão? Acaso esqueceu-se de sua ambição? — Esbravejou ela, franzindo a testa. Talvez ascender a maior idade deu-lhe mais ousadia.
Richard mediu-a com o olhar. Desde o dia em que foi adotada por ele, há cinco anos, Kessia sempre se mostrou uma jovem disciplinada e dócil. Aquela era a primeira vez que ele estava a vendo gritar daquela forma, demonstrando suas emoções tão intensamente.
— Eu — murmurou incrédulo —, não sei do que estás falando!
Kessia olhou para o céu, seus olhos ardiam ameaçando lacrimejar. O fato de ser uma mulher introvertida não fazia dela uma tola, ainda mais se lembrarmos de sua humilde origem como plebeia. Crescer nas ruas sobrevivendo a uma dura realidade lhe trouxe uma grande lição. Kessia sabia como ninguém que ter sido adotada por um nobre não era uma mera benevolência.
Richard II da Irlanda conseguiu agradar ao rei usando a exímia beleza de Kessia, o que lhe rendeu um cargo como lorde com apenas trinta e quatro anos. Contudo, agora com a proximidade do décimo nono aniversário de Kessia, e com o rei planejando tomá-la em casamento, Richard se sente cada vez mais descontente. Ao ponto de que nem ele mesmo se reconhece mais.
— Por favor, não me siga! — exclamou ela, exasperante.
Kessia se afastou de Richard e correu sem parar para dentro do palacete. O sol da manhã brilhava radiante quando a moça chegou ao seu quarto, ela estava ofegante e ainda mais irritada. Não era para menos, passou os últimos anos de sua vida se dedicando e obedecendo a tudo que era lhe designado, tudo isso para conquistar a confiança do rei e trazer prosperidade para os membros da família Dankworth. Kessia estava confusa quanto aos sentimentos do lorde, e ainda mais chateada por suas ações contraditórias.
Desde que pisou nesta mansão ela sabia que seria usada para obtenção de lucros, mas, ainda assim, conseguia ser grata por ter sido tirada da pobreza em que vivia. Então por que os planos mudaram tão repentinamente?
Kessia levou a mão ao peito tentando acalmar a sua respiração. Ela pensou ter enlouquecido, pois acabará de enfrentar o homem que era sua salvação.
Neste momento, superando suas expectativas, a porta de seus aposentos se abriu violentamente e um Richard também ofegante apareceu à sua frente. Kessia estremeceu, e mesmo que ele nunca tenha levantado-lhe a mão ela estremeceu.
— Como ousa, Kessia... — gritou ele, cerrando os dentes. Mas, após um suspiro sôfrego, sua expressão relaxou e ele continuou — Como ousa ser cruel comigo?
O queixo de Kessia caiu. O homem se aproximou dela em passos largos e o corpo miúdo da moça reagiu as mãos firmes que seguraram seu queixo com gentileza, fazendo-a ficar na ponta dos pés. A respiração dele tocava-lhe o rosto ruborizado, e sem titubear Kessia percebeu luxúria nos olhos azuis de Richard. O calor que emanava deles não deixava dúvida: há paixão.
Havia paixão no momento em que ele a puxou para um beijo, voraz e cobiçoso, tal qual fora correspondido pela moça que o enlaçou assídua pela carícia.
— Não me olhe assim — sussurrou Richard, sobre o lóbulo de Kessia. Descendo seus lábios até o pescoço dela, ele a toca de leve, de raspão, provando de seu perfume.
— Se o rei descobre... — advertiu Kessia, cedendo aos braços que a envolvem. Os dedos ágeis de Richard deslizam a alça de seu vestido, expondo-a para ele.
— Ele não vai — assegurou Richard, deixando um rastro de beijos, levemente úmidos, em seu dorso. — Que Deus me perdoe, mas... Tocar-te assim Kessia, senti-la tremer desejosa, é o suficiente para mim.
Num piscar de olhos Kessia sentiu suas costas tocarem o macio da cama, os tecidos de variados tipos desligarem de seu corpo esbelto, e os fios negros de seu cabelo se espalharam junto aos lençóis. A moça arfou em fascínio quando seu senhor, sem qualquer aviso ou etiqueta, a saboreou com seus lábios gananciosos. A boca se rastejava e mordiscava, apoderando-se dela sem qualquer pudor, lambendo-a com devassidão como fogo-selvagem em um incêndio.
Kessia nunca experimentará aquilo. Mais do que ser amada por Richard, ela nunca imaginou que acabaria assim, na cama com o homem que deveria respeitar como seu patrono, e que esse era o seu destino traçado. Se perguntou muitas vezes como os santos nos céus puderam permitir que ela se apaixonasse justo por ele ou porquê permitiram que essa atração perigosa viesse a prósperar.
— Eu quero ouvir de sua boca, Kessia — disse ele, vagarosamente. Sentia sua rigidez pulsar de encontro a maciez e quentura das coxas da mulher embaixo de si — Quero-te implorando para que eu entre em você. Implore para que eu te foda, milady. Peça-me o que quiser e eu farei.
— Vossa graça morreria por este pecado? — Ela questionou num gemido — Essa é uma traição contra Sua Majestade, o rei... Está mesmo disposto a ir tão longe assim só para me ter?
Richard não respondeu. Tão logo puxou Kessia pela cintura a pressionando contra ele, fazendo-a sentir todo o seu desejo, se deliciando com os gritinhos dela enquanto a mesma cravava as unhas em suas costas largas e corpulentas.
— Confia em mim?
— Sim, eu confio.
— Então, como ainda pode haver dúvida? Você me conhece, sabe que eu seria capaz de fazer loucuras para conseguir o que quero. Com você não seria diferente.
Kessia gemeu com força jogando a cabeça para trás à medida que ele a penetrou, e logo sentiu seu queixo ser mordiscado. Agarrou-se aos lençóis contorcendo e contraindo ardentemente, clamando por mais. Seus olhos se reviraram experimentando daquele viciante prazer até que...
Um ruidoso badalar de sino fez-se evaporar tudo. Kessia recobrou seus sentidos, antes adormecidos pelo sonho lúcido, e ainda atordoada desviou seu olhar para baixo. Pétalas de flores voavam do alto em direção aos súditos que os ovacionavam alegremente com aplausos e aclamação em comemoração pelo casamento do rei e a escolha da nova rainha.
Embora em seus mais profundos desatinos o rumo das coisas teriam sido alterados, na vida real, entretanto nada foi do jeito que ela queria que realmente fosse. De um modo infeliz seus deveres ainda eram os mesmos, assim como sua mente continuava a se agitar em inquietação. Ela não queria ser um objeto de procriação da realeza e muito menos achava justo viver em uma união matrimonial que sequer existisse amor.
De uma coisa Kessia tinha certeza, aquele não era o fim, pelo contrário. Quando entreolhou na direção do seu amado lorde Richard ela percebeu o mesmo olhar de luxúria de seus sonhos e teve a certeza de que agora era só uma questão de tempo para que eles tornassem reais todas aquelas suas fantasias libertinas. Agora ela tinha o poder para decidir... Kessia tinha o poder de decidir quem seria:
O amante da rainha.
FIM