Você acredita em fantasmas? Eu não acreditava, mas passei a acreditar.
Todos estão mortos em volta desta tumba maldita que só trouxe infortúnio, a única sobrevivente sou eu, não sei por quanto tempo eu posso aguentar… Meu pai, minha mãe, meu irmão… As memórias estão ficando vagas. Já sinto minha vida se esvaindo aos poucos, meu corpo está se fragmentando em milhões de pequenos pedaços, eu tenho, ou melhor, necessito de escrever isso antes que seja tarde demais.
Tudo começou há duas semanas atrás…
O clima era árduo no deserto, lembro-me claramente de que uma tempestade de areia se aproximava, eu estava muito animada, havia participado de poucas expedições arqueológicas, eu estava indo trabalhar na recente descoberta de um mausoléu com mais de 12.000 anos.
Quando eu era pequena, adorava sair por aí com meus amigos na "caça ao tesouro", era muito divertido, achávamos coisas inúteis, mas que nos faziam sentir verdadeiros arqueólogos. Certa vez, achamos um osso que um cachorro velho tinha enterrado, ficamos tão felizes em achar que era um osso de dinossauro, mas quando nossos pais viram, caíram na gargalhada. Era muito bom naquela época.
Yuki era meu amigo de infância, e agora, meu parceiro nas expedições. Ele era bem reservado, mas eu o conhecia claramente e sabia o porquê, na equipe, eu era a única pessoa na qual ele conversava.
Demorou um pouco para chegarmos até o local de pesquisa. Primeiro iríamos montar acampamento e os aparelhos, depois iríamos iniciar com a exploração do lugar.
Yuki reclamava sem parar das roupas que eram quentes demais, eu disse para ele que aquilo era para o próprio bem dele, mas ele respondeu que não estava nem aí.
Depois de terminamos de montar acampamento começamos a exploração, mas havia algo de errado, quando havíamos chegado, o lugar que dava acesso ao interior estava bloqueado, mas naquele momento estava aberto, sem nada para impedir nossa entrada, eu os avisei do ocorrido, mas me disseram que eu estava delirando.
Decidi ir na frente com Yuki, eu também não gostava muito da equipe. O lugar era maior do que parecia, havia desenhos estranhos esculpidos nas paredes, não eram desenhos egípcios, nós nunca tínhamos os visto antes, o mais estranho era que a cova era feita de chumbo e tinha traços de ouro, estava trancada por uma grossa corrente de ferro. Eu não entendi porque haviam correntes, há 10.000 anos atrás os povos nômades ainda não conseguiam malear o ferro.
Toda a equipe começou a trabalhar no local. Haviam se passado uma semana e não havíamos encontrado nada demais no lugar, estava completamente vazio, e nós, exaustos.
Era noite quando estávamos dormindo em nossas barracas, acordei com uma voz me chamando, achei que era Yuki, normalmente ele quase não dormia. Saí da barraca e não vi ninguém, até uma garotinha aparecer na minha frente, levei um susto, o que uma garotinha fazia no meio do deserto?
Perguntei o nome dela, e ela apenas sorriu. Ela vestia um vestido branco e estava descalça, a areia do deserto era escaldante, mas sua pele não possuía marcas, pelo contrário, era branca como pele de bebê.
Ela segurou a minha mão me levando para dentro do mausoléu, na hora eu não consegui impedir, apenas me deixei levar.
Ainda não tínhamos aberto a tumba, ficamos com medo de danificar a sepultura, estávamos planejando começar a tirar as correntes no dia seguinte, mas surpreendentemente elas estavam caídas no chão e a tumba aberta. A garotinha havia sumido, e ao me aproximar da sepultura percebi que havia um líquido dentro, era um líquido escarlate… Ele parecia vivo. Era como se milhões de organismos pequenininhos estivessem vivos ali, não sei porque fiz aquilo, mas minha mão tocou naquele líquido bizarro.
Foi estranho, aos poucos meu corpo absorveu o líquido e eu senti uma sensação de formigamento, depois uma tontura, depois tudo ficou escuro, a última coisa que eu vi foi a garotinha olhando para mim.
Quando acordei, Yuki estava do meu lado, ele me disse que tinha me encontrado na porta do mausoléu pela manhã, mas eu havia desmaiado lá dentro. Decidi não falar nada sobre o ocorrido.
Eu estava me sentindo estranhamente bem, me disseram para descansar, mas eu queria continuar. Quando entrei novamente no mausoléu, a tumba estava lacrada com as correntes. Me senti uma idiota por ter acreditado naquele sonho.
A equipe havia começado a trabalhar na sepultura, estavam tentando tirar as correntes, para isso foi preciso serrá-las. Quando os vi fazendo aquilo, senti uma raiva enorme, então tudo escureceu.
Acordei novamente com Yuki me olhando, ele parecia preocupado e me perguntou o porquê de eu ter feito aquilo, eu estava confusa e não entendi sobre o que ele estava falando, ele me disse que quando eu entrei no mausoléu, eu perdi a cabeça e comecei a morder todo mundo. Eu não faria uma coisa daquelas.
Logo depois, descobri que um carro estava vindo me buscar para eu ir embora descansar, parte de mim queria ir embora, mas a outra parte sentia uma conexão especial com aquele lugar.
Logo uma gritaria começou, sai para fora da minha barraca e descobri que os caras que eu havia morrido estavam passando mal, eles começaram a cuspir sangue, e logo depois, sangue começou a escorrer de todos os orifícios. Eles morreram por hemorragia, todos eles.
Yuki ficou muito assustado, então eu decidi contar a ele o que havia acontecido. No começo ele ficou perplexo e não acreditou, mas depois achou que a minha história fazia sentido.
O carro veio me buscar pela tarde, eu estava olhando os corpos que estavam enrolados em um tecido branco.
O pessoal me disse para ir embora, eu disse que não iria, então dois homens vieram me levar para o carro a força. Eu tive uma crise de raiva por dentro, mas fiquei quieta, logo os homens começaram a se debater em agonia e o que aconteceu com eles foi o mesmo que aconteceu com os outros.
Logo todos que tocavam em mim morriam de hemorragia. O único que não morreu foi Yuki.
Eu senti muito medo e corri para o mausoléu, tentei abrir o túmulo, e consegui, não sei como já que a tampa era feita de chumbo.
O que vi lá dentro me deixou arrepiada, dentro da cova estava o cadáver perfeitamente preservado da garotinha que eu havia visto naquela noite.
Um flashback passou pela minha mente, mas aquelas memórias não eram minhas, eram da garotinha.
Eram um pouco confusas, mas logo entendi o porquê das gravuras.
Anneliese era uma garotinha que nasceu com uma condição especial, ela era albina e ainda possuía heterocromia, todos diziam que ela era uma aberração da natureza, mas sua mãe não achava isso. Um dia, os habitantes da vila se juntaram e a levaram a força para dar de sacrifício aos deuses. Todos diziam que haviam dado um remédio de ervas para parar o coração, mas, na verdade, eles a apedrejaram até a morte. Eles a trancaram naquele mausoléu porque a consideravam um perigo.
Sim, ela havia morrido, mas todo o ódio dela havia continuado ali, agora ela havia passado de herança para mim, ela também estava chateada por termos violado o seu local de descanso.
O restante da equipe entrou no local para me pegarem, eu os avisei para ficarem longe, mas todos que me tocavam morriam, de um a um, todos morreram em agonia. Cadáveres estavam espalhados por todos os lados, o chão havia sido manchado com um vermelho sangue, o mesmo daquela noite.
Yuki prometeu que encontraria a cura para mim, mas eu não sei quanto tempo vou aguentar, não consigo mais me mexer, sinto a dor excruciante que Anneliese sentiu há 10.000 anos. Eu nunca pedi para ter isso… Eu… Simplesmente… Odeio o… Toque escarlate.