🦇 A Casa da Lua Morta
Capítulo 1 — A Casa no Fim da Rua
Era uma casa no fim da rua, fechada há décadas. Diziam que a família que ali morou sumiu numa noite de lua cheia, sem deixar rastro — exceto por janelas sempre escuras e um silêncio que pesava no peito de quem passava à noite.
Eu, Lúcia, tinha 17 anos e não acreditava em lendas. Até aquela madrugada de lua minguante, quando perdi o ônibus e precisei passar pela rua das Casas Velhas. O vento soprava gelado, cheiro de terra úmida e… ferro velho. Cheiro de sangue antigo.
Quando passei em frente à casa da família Moreira, a porta estava entreaberta. Uma fresta de luz pálida escapava de dentro. E ouvi: uma voz baixa, doce, chamando meu nome.
— Lúcia… entra. Não tenha medo.
Parei. Meu nome. Quem sabia? A curiosidade foi mais forte que o medo. Empurrei a porta. Rangiu forte, como se estivesse dormindo há cem anos.
O interior era frio, como um porão. No salão, uma única vela acesa sobre uma mesa de madeira escura. E, sentado ali, um rapaz. Parecia ter a minha idade — cabelo preto, pele branca como papel, olhos de um vermelho profundo, brilhando na penumbra. Sorriu, e vi que seus dentes eram brancos, pontiagudos demais.
— Eu esperava por você — sussurrou, sem mover os lábios. — Meu nome é Adrian. Estou aqui… há muito, muito tempo.
— Quem é você? O que quer? — Minha voz tremeu. Eu queria correr, mas minhas pernas não obedeciam.
— Companhia — ele se levantou devagar, sem fazer barulho. — A lua me chama todas as noites, mas estou sozinho. Há 80 anos. Preciso de alguém que fique comigo. Para sempre.
Dei um passo para trás e tropecei numa cadeira. Caí. Ele estava diante de mim num piscar de olhos — mais rápido que qualquer pessoa. O ar sumiu. Ele se inclinou, e o cheiro de sangue ficou forte.
— Não vou te machucar… muito — sussurrou perto do meu pescoço. — Vai doer só um instante. Depois… nunca mais vai sentir frio. Nem medo. Nem solidão.
Seus dentes afiados tocaram minha pele. Eu fechei os olhos, rezando para acordar. E então — o canto de um galo, distante.
Adrian parou de repente. Encarou a janela, aterrorizado. A lua estava sumindo, o céu clareando. Ele me olhou com raiva e… tristeza.
— O sol vem — rosnou, recuando. — Volte quando a lua estiver cheia, Lúcia. Eu estarei esperando. Sempre.
Corri. Não olhei para trás. Cheguei em casa ofegante, trancada no quarto. Olhei no espelho… e ali, no meu pescoço, duas marcas vermelhas, fundas, sangrando devagar.
Desde aquela noite, toda vez que a lua brilha forte, eu sinto frio. Sinto sede. E ouço uma voz sussurrando atrás da porta:
“Estou esperando, Lúcia. Você já é minha. Só falta aceitar.”
Capítulo 2 — A Sede que Não Passa
Três dias se passaram desde aquela noite. Eu não contei a ninguém. Quem acreditaria? Olhei no espelho pela milésima vez. As duas marcas no pescoço ainda estavam ali — vermelhas, inchadas, doendo ao toque. E pior: eu estava com sede. Uma sede que água nenhuma matava.
Toda vez que fechava os olhos, via o rosto de Adrian. A pele branca, os olhos vermelhos brilhando na escuridão, os dentes pontiagudos… e a voz, baixa e doce, ecoando na minha cabeça como se estivesse bem ao meu ouvido:
“Volte quando a lua estiver cheia. Eu estarei esperando.”
Olhei pela janela. O céu estava ficando escuro, e a lua crescia, redonda e branca como uma moeda antiga. O relógio marcava 23h. Eu disse a mim mesma que não voltaria. Que era loucura. Mas meus pés já calçavam os sapatos. Algo me puxava — não era vontade. Era fome.
Quando cheguei à rua das Casas Velhas, a porta da casa estava aberta. Como se ele soubesse que eu viria.
— Você veio — a voz dele veio das sombras, antes de eu o ver. — Eu sabia que viria.
Adrian apareceu no corredor, iluminado apenas pela luz da lua que entrava pela janela. Ele parecia mais pálido, mais fraco… e mais faminto.
— Você não está bem — eu disse, tremendo.
— Estou com fome, Lúcia. E você… — ele aproximou-se devagar, parando a um passo de mim, inalando o ar perto do meu pescoço — …você também está. Sente, não sente? Essa sede? Esse fogo que não apaga?
Eu engoli seco. A água que bebi no almoço não adiantou nada. Minha garganta parecia areia.
— O que está acontecendo comigo? — sussurrei.
Ele levantou uma mão fria e tocou levemente as marcas no meu pescoço. Arrepios percorreram todo o meu corpo.
— Eu te dei um pedaço de mim, Lúcia. Agora estamos ligados. Você não pertence mais ao sol. Agora… você pertence à noite.
Capítulo 3 — O Gosto do Ferro
A porta fechou sozinha atrás de nós. O som foi como um suspiro final.
— Sente-se — Adrian apontou para uma cadeira de madeira escura, no centro da sala. Sobre a mesa, uma taça de vidro antigo. Dentro, um líquido vermelho, espesso, brilhando sob a luz da lua.
— O que é isso? — perguntei, recuando um passo.
— O que você precisa — ele empurrou a taça na minha direção. — Beba. Vai aliviar a dor. Vai acabar com a sede.
O cheiro chegou até mim. Ferro. Metal quente. Vida. Meu estômago revirou… mas ao mesmo tempo, algo dentro de mim gritava para pegar. Para beber.
— É… sangue? — minha voz saiu quase sem som.
— É vida, Lúcia. A nossa vida. — Ele se inclinou, os olhos vermelhos fixos nos meus. — Não lute. Quanto mais luta, mais dói. Aceite quem você está se tornando.
Eu queria correr. Queria gritar. Mas meus dedos agarraram a taça sozinhos. O vidro estava frio nas minhas mãos. O líquido parecia chamar meu nome.
— Eu não sou como você — disse, mas sem convicção.
— Ainda não — Adrian sorriu, e os dentes brilharam. — Mas a lua está cheia hoje. E a transformação… acelera.
Levei a taça aos lábios. O cheiro era insuportavelmente forte. Fechei os olhos e provei.
O gosto foi de fogo e gelo ao mesmo tempo. Queimou ao descer, e de repente, o cansaço sumiu. A dor no pescoço diminuiu. Meus sentidos aguçaram — ouvi o coração dele batendo devagar, longe. Ouvi o vento lá fora, cada folha se mexendo. E a sede… a sede cresceu, pior do que antes.
— Veja — Adrian sussurrou. — Não tem volta, Lúcia. Agora você entende. Agora você precisa disso. Para sempre.
Eu olhei para ele, com a taça ainda na mão. E pela primeira vez, não vi um monstro. Vi o meu futuro. E ele estava me olhando de volta, nos olhos vermelhos e famintos, refletidos no vidro da taça.
A lua brilhou forte lá fora, e naquela noite, eu não voltei para casa. Não inteira.
Capítulo 4 — A Escolha que Não Existia
O sangue desceu na garganta como fogo, e naquele instante, tudo mudou. O mundo pareceu mais nítido, os sons mais altos, o ar mais frio. Olhei para Adrian e vi não mais um rapaz, mas um reflexo do que eu estava me tornando: predadora, eterna, faminta.
— Sente? — ele sussurrou, passando os dedos gelados pelo meu rosto. — A força? A clareza? Isso é só o começo.
— O que eu fiz… — a minha voz já soava diferente, mais baixa, mais suave.
— Você escolheu viver — Adrian sorriu, mas não havia alegria. — Não a vida que conhecia, mas uma vida sem fim. Sem dor. Sem solidão. Juntos.
Eu olhei pela janela. A lua brilhava imensa, cheia, parecendo observar tudo. Lá fora, o mundo humano continuava — as luzes das casas distantes, o latido de um cachorro, um carro passando. E senti… indiferença. Como se aquilo não fosse mais o meu lugar.
— E o sol? — perguntei, com um frio na espinha.
— O sol nos queima — ele respondeu, sério. — Mas a lua nos protege. Somos filhos da noite agora, Lúcia. E a noite… é eterna.
De repente, um som cortou o silêncio. Passos. Na rua. Depois, uma batida forte na porta.
— Lúcia?! Você está aí?! — era a voz da minha mãe, desesperada. — Eu vi você sair! Me responde!
Meu coração — que eu achava que já tinha parado — disparou. Fui em direção à porta, mas Adrian me segurou pelo braço. Forte. Frio.
— Não abra — ordenou, baixo e firme. — Se você abrir… não vai conseguir controlar a sede. Você vai se machucar. E vai machucar ela.
— É a minha mãe! — gritei, lutando contra ele.
— Exatamente por isso — os olhos dele brilharam vermelho. — Você não é mais a filha dela. Agora, somos só nós dois. Para sempre.
As batidas ficaram mais fortes. Minha mãe chamava meu nome, chorando. Eu tremia toda. Cada batida era uma luta dentro de mim: o amor por ela… e a fome que crescia só de pensar em ver uma pessoa viva, quente, com sangue correndo nas veias.
— Escolha, Lúcia — Adrian soltou meu braço, mas não recuou. — Fique comigo, e viva para sempre. Ou abra a porta… e perca tudo. Inclusive ela.
Fiquei parada, as mãos trêmulas perto da maçaneta. O choro da minha mãe doía mais que qualquer ferida. Mas a sede… a sede era mais forte. Queimava por dentro, pedindo para sair, para caçar, para viver.
Abaixei a mão.
— Feche os olhos — sussurrei, com lágrimas escorrendo pelo rosto. — Eu não vou sair. Diga a ela… diga que eu fui embora. Que não volte mais.
Adrian assentiu, e com um movimento rápido, apagou a vela. A casa ficou na escuridão total. Ouvi ele ir até a porta e falar, com uma voz que não era a dele — era a minha:
— Mãe, vai embora. Eu estou bem. Não volte nunca mais.
O silêncio que se seguiu foi pior que qualquer grito. Ouvi os passos dela se afastando. Devagar. Desistindo.
Eu caí de joelhos no chão, soluçando sem som. E ao meu lado, Adrian se ajoelhou e me abraçou. Frio. Imutável. Eternamente sozinho… até me encontrar.
🦇 FIM — A Última Lua
Passaram-se os anos. As décadas. Os séculos. O mundo lá fora mudou: as casas foram substituídas por prédios, as ruas ganharam luzes, a tecnologia tomou conta de tudo. Mas a Casa da Lua Morta continua de pé, no fim da rua, intocada, como se o tempo tivesse medo de entrar ali.
Ninguém mais se lembra de Lúcia, a menina que sumiu numa noite de lua cheia. Ninguém mais procura por nós. E nós… continuamos aqui. Adrian e eu. Dois corpos gelados, duas almas presas na escuridão, ligados por um laço que nem a morte poderia quebrar.
Todas as noites, quando a lua sobe no céu, nos sentamos à mesa de madeira escura, com as taças cheias do que nos mantém vivos. E olhamos pela janela, vendo as pessoas passarem, alheias ao perigo, alheias à eternidade.
Às vezes, alguém corajoso ou curioso se aproxima da porta. E eu, com a voz que um dia foi doce e agora é só sombra, chamo:
“Entre… não tenha medo. Estamos esperando. Sempre estivemos.”
Porque a solidão de dois é melhor que a solidão de um. Mas a sede… a sede nunca acaba. E a lua? A lua sempre volta.
E com ela, a fome de mais uma alma para preencher o silêncio da Casa da Lua Morta.
🌙 FIM DA HISTÓRIA