Não me recordo quando, nem onde ouvi esta história. Mas, por mais que tente, jamais consigo acreditar que tenha sido apenas fruto da imaginação de algum bêbado.
Dizem que ocorreu em algum vilarejo isolado da Europa, durante o século XVIII.
Naquela época, uma menina costumava atravessar a floresta para brincar com outras crianças na pequena cidade próxima. O caminho era longo, mas ela já o conhecia bem. Crescera andando por aquelas trilhas estreitas entre árvores antigas e silenciosas.
Foi durante uma dessas caminhadas que ela o viu.
Entre os troncos escuros da floresta havia um homem observando-a.
Era absurdamente alto e gordo. Vestia roupas negras e elegantes, como um nobre malvestido para um funeral. Seu corpo parecia inchado demais para ser humano.
Mas o pior era sua cabeça.
Disforme.
A menina mais tarde diria que lembrava a cabeça de um porco.
Ela apenas ignorou a figura e continuou andando, acreditando tratar-se de algum viajante estranho. Contudo, conforme avançava pela trilha, voltava a encontrá-lo.
Primeiro parado entre as árvores.
Depois atrás de uma velha cerca de madeira.
Mais adiante, imóvel perto de um riacho.
Sempre observando.
Sempre sorrindo.
Quando finalmente chegou ao vilarejo e comentou sobre o estranho homem, os adultos empalideceram.
Ninguém precisou perguntar duas vezes.
Os moradores começaram a se armar às pressas com tochas, facas de caça e lanças enferrujadas. Algumas mulheres começaram a rezar. Outras fecharam portas e janelas.
A menina não compreendeu o motivo de tanto desespero.
Até sentir aquilo.
Um medo súbito e esmagador apertou seu peito como mãos invisíveis.
Então correu.
Correu de volta para casa enquanto lágrimas escorriam por seu rosto. Os galhos arranhavam sua pele e o ar parecia pesado demais para respirar.
E então ela o viu novamente.
O homem caminhava entre as árvores como se estivesse se divertindo. Saltitava de maneira grotesca, cantarolando uma melodia baixa e infantil.
Feliz.
Sua enorme cabeça suína inclinou-se lentamente na direção da menina.
E ele sorriu.
Não havia maldade naquele sorriso.
Aquilo era pior.
Parecia o sorriso gentil de alguém satisfeito após concluir uma tarefa importante.
Então ele apenas seguiu seu caminho floresta adentro.
Quando a menina chegou em casa, encontrou dezenas de aldeões reunidos diante da porta.
Ninguém permitiu que ela entrasse.
Mas ela forçou passagem entre os adultos.
E viu.
A mesa de jantar estava posta cuidadosamente para duas pessoas.
Velas acesas iluminavam a sala silenciosa.
Sobre a longa toalha branca jazia o corpo de sua mãe.
Suas mãos e pés estavam amarrados como os de um animal preparado para o abate. Uma maçã havia sido enfiada à força em sua boca, deslocando sua mandíbula. Seus olhos estavam abertos, completamente brancos, vazios de qualquer vida.
Em suas costas existia um enorme buraco oco.
Como um peru preparado para uma ceia.
E o recheio…
O recheio eram braços, mãos e a cabeça de seu pai.
O restante do corpo jamais foi encontrado.
A menina gritou.
E desmaiou.
Dizem que ela nunca mais voltou a falar.
Mas, anos depois, jurava ouvir um homem cantarolando do lado de fora de sua casa durante certas noites.
Uma melodia baixa.
Infantil.
Alegre.
Como alguém indo para o jantar.