No espelho azul da tela eu me perco outra vez,
vendo vidas perfeitas em quinze segundos por mês.
Ela ri numa praia, ele canta num carro,
e eu aqui colecionando silêncio no quarto.
Meu coração vira fumaça digital,
cada foto parece um golpe casual.
Todo mundo sabe dançar a própria dor,
menos eu, que escondo insegurança no humor.
E eu odeio sentir isso,
essa febre chamada comparação.
Queria desligar o mundo inteiro
pra ouvir minha própria respiração.
Porque a inveja veste glitter,
fala baixo e parece normal,
mas corrói devagarinho
feito chuva em fio elétrico e metal.
Tem garotas com olhos de cinema,
garotos com futuro brilhando neon,
e eu tentando achar coragem
pra existir sem pedir perdão.
Talvez ninguém seja tão feliz assim,
talvez todo mundo chore depois do fim.
Talvez os filtros escondam cicatrizes
que nem cabem nas legendas felizes.
Então hoje eu vou fechar a janela,
deixar o céu real entrar.
Se eu ainda não amo quem sou,
talvez eu possa começar.