Capítulo 1: O Tique-Taque Que Não Devia Ser
Ser um Conos dentro da linhagem dos Chronos era como ser um grão de poeira tentando brilhar em uma galáxia de supernovas. E eu, Tejin Conos, era o grão de poeira mais opaco de todos. Enquanto meus primos, com um simples estalar de dedos, podiam fazer o tempo engasgar como um motor velho, distorcendo a realidade até que o passado e o futuro se fundissem em um borrão psicodélico, eu... bem, eu era o erro de sistema. Com um esforço que fazia minhas têmporas pulsarem e meu estômago revirar, eu conseguia atrasar o ponteiro de um relógio de parede por míseros cinco segundos. Cinco segundos de glória patética que me deixavam com uma enxaqueca digna de um deus caído. Esse era o meu legado: a piada sussurrada nos jantares de gala, o "ah, é o Tejin" dito com uma pena que ardia mais que qualquer insulto direto. Meus tios, seres que pareciam esculpidos em mármore e eternidade, sequer se davam ao trabalho de me olhar. Eu era o ramo seco, o Chronos que não valia o oxigênio que consumia, e essa insignificância era um ácido que corroía cada fibra da minha autoestima.
Lembro-me de uma tarde específica, sob o céu alaranjado da propriedade dos Chronos, onde o tempo parecia uma sugestão e não uma regra. Meus primos, liderados por um garoto cujo nome eu fiz questão de esquecer, estavam brincando de "caça ao momento". Eles saltavam entre segundos, aparecendo e desaparecendo como fantasmas de luz, rindo da minha tentativa frustrada de sequer acompanhar seus movimentos. "Tenta de novo, Tejin!", gritava um deles, enquanto eu suava frio, tentando desesperadamente segurar o fluxo do tempo que escorria por meus dedos como água. Eu sentia a pressão no fundo dos meus olhos, o gosto metálico de sangue na boca, e então... nada. O relógio de pulso que eu segurava apenas deu um tique-taque preguiçoso, atrasando-se por um instante insignificante antes de retomar seu ritmo impiedoso. O riso deles ecoou pela propriedade, um som que se tornou a trilha sonora da minha infância. Eu era o Chronos que não podia manipular o tempo, e essa era a única verdade absoluta na minha vida.
Nas reuniões de família, o ar ficava denso com histórias sobre o multiverso — aquele playground infinito que eles chamavam de quintal. Falavam de forças primordiais que deram o primeiro empurrão no vácuo, de realidades que se estendiam por googolquinplexs de quilômetros cúbicos, onde universos inteiros eram apenas notas de rodapé. Eu ouvia sobre criaturas que habitavam as fendas do espaço-tempo e sobre poderes que faziam a sanidade humana parecer uma piada de mau gosto. Sinceramente? A única coisa que cortava em mim era o tédio e a raiva. Que se danem os deuses e as lendas sobre o início de tudo. Eu só queria ter poder suficiente para não ser o alvo de todos os olhares de desprezo. O universo era vasto, incompreensível e, para alguém como eu, terrivelmente opressor. A grandiosidade deles era o meu cárcere, uma lembrança constante de que eu era um nada em um palco de gigantes. Eu via as estrelas e sentia apenas o peso da minha própria mediocridade, uma sombra pálida que se arrastava sob a luz ofuscante da perfeição alheia.
O porto, porém, era onde eu respirava. O cheiro de peixe podre e o suor dos estivadores eram muito mais reais do que as teorias metafísicas dos meus parentes. Ali, entre a escória e os desesperados, eu não era o "Conos defeituoso". Eu era apenas Tejin. Ninguém esperava que eu parasse o tempo ou que desvendasse os segredos do cosmos; eles só queriam que eu não ficasse no caminho. E nessa invisibilidade, eu encontrei meu verdadeiro talento. Eu observava. Ficava nas sombras, vendo os marinheiros trapacearem nos dados com uma habilidade invejável, os comerciantes vendendo lixo como se fosse ouro e as mães manipulando os filhos com promessas que nunca cumpririam. Eu comecei a enxergar as cordas. As pequenas mentiras, as inseguranças escondidas, os desejos que moviam as pessoas como marionetes. Uma forma de poder começou a brotar em mim — algo que não dependia de Axion ou de linhagem, mas de saber exatamente onde apertar para fazer alguém ceder. Eu aprendi que um sussurro no ouvido certo valia mais que um soco no rosto, e que a vulnerabilidade era a moeda mais valiosa do mercado humano.
Aos dezesseis anos, quando a Horizon bateu à minha porta, eu ri. Eles falavam em "potencial latente", um termo bonito para dizer que eu era um mistério estatístico. Mas eu aceitei o convite. Qualquer lugar era melhor do que o silêncio sufocante da mansão Chronos. Na sede da organização, entre relatórios de criaturas PR.100 e anomalias que devoravam dimensões, eu conheci Hyo Tuery. Ele não brilhava, não flutuava e não cheirava a eternidade. Ele cheirava a segredos. Hyo me olhou com olhos que pareciam ler o código-fonte da minha alma e disse que o tempo era uma ferramenta bruta, mas que a mente humana era o verdadeiro cinzel da realidade. Ele se tornou meu mentor, o demônio que me ensinou a transformar minha fraqueza em uma teia. Meu objetivo agora era a borda do multiverso, a lendária "cápsula" que realizava desejos. Eu não queria ser um deus; eu queria ser o arquiteto que faria os deuses dançarem. O tique-taque fraco do meu relógio interno agora era a contagem regressiva para a minha vingança silenciosa. Eu ia mostrar a eles que um grão de poeira, no lugar certo, pode cegar um titã. E enquanto eu caminhava pelos corredores frios da Horizon, eu sentia, pela primeira vez, que o tempo não estava contra mim, mas sim esperando por mim. Eu não precisava pará-lo; eu só precisava saber quando agir. E quando chegasse o momento, eu não atrasaria o relógio por cinco segundos. Eu faria o próprio universo prender a respiração.
Capítulo 2: A Máquina Que Engolia Estrelas
A sede da Horizon não era apenas um prédio; era uma anomalia arquitetônica que parecia ter engolido pedaços de outras dimensões e cuspido uma estrutura de metal, luz e impossibilidades. Para mim, Tejin Conos, era o primeiro lugar que não cheirava a mofo e a tradições milenares da minha família. Depois de dezesseis anos sendo o "defeito de fábrica" dos Chronos, a carta de recrutamento da Horizon foi menos um convite e mais um resgate de um naufrágio anunciado. Meus pais mal notaram minha partida, e meus primos, ocupados demais congelando galáxias ou desfazendo paradoxos temporais para passar o tempo, riram da minha "carreira burocrática". "Boa sorte com os formulários, Tejin", disse um deles com um sorriso que prometia que eu me perderia na primeira pilha de papéis. E, de certa forma, eles não estavam errados sobre a burocracia, mas estavam redondamente enganados sobre o que ela escondia.
Caminhar pelos corredores da Horizon era como estar em um sonho lúcido e ligeiramente aterrorizante. Portas se abriam para paisagens que desafiavam a física elementar, e o ar vibrava com uma aura de poder que fazia meus dentes rangerem. Vi gente que parecia ter saído de um catálogo de divindades, com olhos que brilhavam com um Axion tão denso que distorcia a luz ao redor deles. Eu, com meu tique-taque defeituoso e minha cara de quem acabou de acordar de um pesadelo cósmico, me sentia um rato em um banquete de deuses. Mas um rato astuto, eu me lembrava constantemente. Um rato que sabia observar as migalhas que os deuses deixavam cair. Minhas primeiras semanas foram um borrão de treinamentos inúteis e palestras sobre "Periculosidade" (PR) e "Sanionters" – aqueles guerreiros que abriam a Válvula de Huxley e viravam máquinas de combate insanas, perdendo a sanidade em troca de um poder bruto e visceral. Parecia divertido, se você gostasse de virar um vegetal com superpoderes. Eu, sinceramente, preferia manter meus neurônios intactos e operantes, obrigado.
Minhas habilidades temporais eram tão patéticas que me colocaram na seção de "Análise de Dados", o que, para um Chronos de sangue puro, era o equivalente a ser o faxineiro da biblioteca universal. Mas era ali, entre pilhas de relatórios sobre anomalias espaciais e a ascensão de criaturas que pareciam ter saído dos piores delírios de um marinheiro bêado, que eu comecei a entender a verdadeira face do multiverso. Ele não era apenas grande; era um caos pulsante, um organismo vivo e aterrorizante que a Horizon tentava, de forma desesperada e muitas vezes fútil, manter sob controle. Eu lia sobre Edge Shifters que devoravam planetas como se fossem aperitivos e sobre fissuras no espaço-tempo que cuspiam horrores indescritíveis. E eu, o insignificante Tejin, estava no centro de tudo, absorvendo informações que fariam a maioria das pessoas se enrolar em posição fetal e chorar por suas mães.
Foi em uma dessas tardes sufocantes de tédio e poeira digital que ele apareceu. Hyo Tuery não tinha a aura de poder dos outros agentes, nem a pose de quem podia dobrar a realidade com um pensamento. Ele era um homem comum, com um sorriso que nunca chegava aos olhos e uma calma que era mais perturbadora que qualquer grito de guerra. Ele se sentou à minha frente sem pedir permissão, e seus olhos, que pareciam feitos de fumaça e segredos antigos, me analisaram como se eu fosse uma peça de um quebra-cabeça que só ele sabia montar. "Tejin Conos", ele disse, e a forma como pronunciou meu nome fez parecer que ele estava lendo o código-fonte da minha existência. "Você tem um dom, garoto. E não é o tempo. É algo muito mais interessante e infinitamente mais perigoso."
Hyo me levou para uma sala de treinamento que não constava em nenhum mapa oficial da Horizon. Era um espaço vazio, iluminado por uma luz fria e impessoal, onde o silêncio era tão denso que eu podia ouvir o tique-taque errático do meu próprio coração. Ele me colocou diante de um prisioneiro, um homem que parecia ter sido mastigado pela Válvula de Huxley e cuspido de volta sem alma. "Ele é um PR.40", sussurrou Hyo, sua voz soando como o deslizar de uma lâmina no couro. "Um Sanionter quebrado. Ele tem informações sobre uma fissura no Setor 7. Você não vai usar o tempo, Tejin. Você vai usar a mentira. Faça-o acreditar que você é a única saída dele, a única luz no fim desse túnel de loucura." Eu olhei para o homem, sentindo o cheiro de medo e suor, e pela primeira vez, o sarcasmo morreu na minha garganta. O horror cósmico não estava nos relatórios; estava ali, diante de mim, em carne e osso.
Eu comecei a falar. Minha voz saiu trêmula no início, mas logo encontrou um ritmo frio e calculado. Eu não contei a verdade; eu teci uma rede de falsas promessas, usando cada insegurança que via nos olhos dele, cada tremor nas mãos dele. Eu não era mais o garoto do porto; eu era o arquiteto de uma esperança cruel. Vi o homem ceder, vi a resistência dele se quebrar não sob a força bruta, mas sob o peso de uma mentira bem contada. Hyo observava das sombras, um sorriso quase imperceptível surgindo em seu rosto. Quando o prisioneiro finalmente desmoronou e revelou o que sabíamos, senti um calafrio que não tinha nada a ver com o ar condicionado da sala. Eu tinha descoberto minha verdadeira natureza, e ela era muito mais sombria do que qualquer monstro que a Horizon caçava.
Ao final da sessão, Hyo se aproximou e colocou a mão no meu ombro. O toque dele era frio, como se o calor da vida tivesse sido drenado há muito tempo. "O multiverso é um palco, Tejin, e hoje você deu seu primeiro passo como diretor. Mas lembre-se: no momento em que você começar a acreditar na sua própria peça, você estará perdido." Ele me entregou um pequeno dispositivo, um Holur antigo, que zumbiu com uma energia estranha. "Niya está observando. O jogo começou, e a borda do multiverso está um pouco mais próxima para quem sabe mentir para o abismo." Eu saí da sala sentindo o peso de algo novo, uma responsabilidade que não era heroica, mas predatória. O tique-taque do meu relógio interno agora era um tambor de guerra silencioso, marcando o início de uma jornada que me levaria a lugares onde o tempo não ousava existir. Eu não era mais um grão de poeira; eu era a poeira que começava a asfixiar o próprio destino.