A chuva cai fina, como se o céu estivesse tentando sussurrar algo que eu ainda não entendo. Estou parada na varanda, segurando a xícara de café já frio, observando o portão. Espero por ele.
Sempre espero.
Meu coração bate com uma ansiedade doce, daquelas que aquecem o peito. Ele disse que viria hoje. Disse que precisava conversar. E eu sei exatamente o que isso significa.
Hoje ele vai me escolher.
Ou pelo menos, é isso que eu digo a mim mesma.
A campainha toca.
Meu corpo inteiro desperta. Largo a xícara sem perceber e corro até a porta. Quando abro, lá está ele. Encharcado, os cabelos escuros grudados na testa, os olhos… aqueles olhos que um dia foram só meus.
— Precisamos conversar — ele diz, sem entrar.
O mundo parece prender a respiração.
Dou espaço, e ele entra. O cheiro da chuva invade a sala junto com ele. Fecho a porta devagar, como se estivesse selando algo invisível.
— Você demorou — digo, tentando soar leve.
Ele não sorri.
E isso já me machuca antes mesmo das palavras.
— Eu não devia ter vindo — ele começa, passando a mão pelo rosto.
O chão some sob meus pés.
— Mas veio — respondo, me aproximando. — Isso significa alguma coisa.
Ele me encara. Há um peso ali. Um tipo de tristeza que não combina com finais felizes.
— Eu vou me casar.
As palavras caem como vidro quebrando dentro de mim.
Por um instante, não sinto nada. Nem dor, nem raiva. Só um vazio estranho, como se eu tivesse sido apagada.
— Com ela? — pergunto, embora já saiba.
Ele confirma com um leve aceno.
O silêncio cresce entre nós, denso, sufocante.
Então eu sorrio.
Não é um sorriso bonito. Nem gentil. É o tipo de sorriso que nasce quando algo dentro da gente finalmente se rompe.
— Engraçado — digo, caminhando lentamente até a mesa. — Você sempre disse que me amava.
— Eu amei — ele responde rápido demais. — Mas isso… acabou.
Acabou.
A palavra ecoa na minha cabeça.
Acabou.
Como algo assim simplesmente acaba?
Meus dedos encontram a faca esquecida sobre a mesa. Eu a pego sem olhar diretamente para ela. É um gesto simples, quase automático, como pegar uma caneta.
— Pra mim, não — murmuro.
Ele franze a testa, confuso.
— O quê?
Quando levanto os olhos, já não há volta.
Tudo acontece rápido e lento ao mesmo tempo. Um instante elástico, onde cada detalhe parece ganhar vida própria. O som da chuva, a respiração dele, o tremor leve da minha mão.
— Pra mim, não acabou.
Dou um passo à frente.
Ele percebe tarde demais.
A lâmina atravessa o espaço entre nós como uma decisão que sempre esteve ali, esperando. Sinto o impacto antes mesmo de entender o que fiz. Um som abafado. Um suspiro.
Os olhos dele se arregalam, mais surpresos do que doloridos.
— Por quê…? — ele tenta dizer.
Eu o seguro enquanto ele desaba. Aproximo meu rosto do dele, como tantas vezes fiz antes, mas agora tudo é diferente.
— Porque eu te amo.
A chuva continua caindo.
Ficamos ali, no chão da sala, enquanto o calor dele vai embora devagar. Seguro sua mão até que ela não responda mais.
O silêncio que sobra não é vazio.
É definitivo.
Levanto, ainda tremendo, e olho ao redor. A casa parece a mesma, mas não é. Nada é.
Volto até a varanda.
A chuva agora lava tudo, como se o mundo estivesse tentando recomeçar.
Mas eu não.
Eu finalmente tenho certeza de uma coisa.
Ele nunca mais vai embora.