A noite pulsa como um segredo mal guardado. A música vibra no fundo do salão, mas tudo que eu sinto é ele se aproximando.
Devagar.
Como se cada passo fosse calculado para me prender.
Quando percebo, já estou encostada na parede. Ele para perto demais. O ar entre nós fica quente, denso, quase impossível de respirar.
— Você não devia estar aqui — eu digo, mas minha voz não obedece a firmeza que eu queria.
Ele sorri de lado, aquele sorriso perigoso.
— E você devia ter ido embora.
Os dedos dele tocam minha cintura. Não é brusco. É lento, firme, como se estivesse me lembrando de algo que meu corpo nunca esqueceu. Minha respiração falha.
Ele se inclina.
O beijo não pede permissão.
É intenso, urgente, carregado de uma saudade que queima. Sinto minhas mãos puxarem a camisa dele sem pensar, como se precisasse ter certeza de que ele é real. Ele aprofunda o beijo, e o mundo ao redor simplesmente desaparece.
Só existe o calor, o toque, a proximidade.
— Eu senti sua falta — ele murmura contra minha pele.
Antes que eu responda, um barulho corta o momento.
Seco.
Errado.
Um disparo.
O corpo dele enrijece contra o meu.
Por um segundo, acho que é só susto. Só um reflexo. Mas então sinto o peso.
E o calor.
Não é mais o mesmo calor.
Ele se afasta o suficiente para me olhar. Os olhos ainda presos nos meus, mas agora… diferentes. Surpresos. Perdendo a luz.
— Não… — minha voz quebra.
Olho para trás dele.
Um homem parado, a arma ainda erguida. Frio. Decidido.
O assassino.
Meu coração dispara, mas minhas pernas não se mexem. Eu só consigo voltar para ele.
Para nós.
— Fica comigo — sussurro, segurando o rosto dele.
Ele tenta sorrir. Tenta.
— Eu… sempre estive…
As palavras se desfazem antes de terminarem.
Eu o seguro enquanto ele escorrega, enquanto o mundo inteiro parece ruir em silêncio ao nosso redor. A música continua tocando, como se nada tivesse acontecido. Como se aquilo não fosse o fim de tudo.
O homem vai embora.
Simples assim.
E eu fico.
Com o gosto do beijo ainda nos lábios.
Com o calor dele desaparecendo entre meus braços.
Com a certeza cruel de que, dessa vez, não fui eu quem matou.
Mas isso não faz doer menos.