No fim da tarde, a estrada parecia feita de cobre.
O sol caía por trás das colinas, espalhando uma luz dourada que fazia até as pedras parecerem gentis. Eliezer seguia sozinho havia dois dias, o cavalo cansado, a armadura marcada pela poeira e pequenos arranhões de viagem. Ele falava pouco, observava muito, e agora carregava o silêncio como se fosse um peso adicional.
Foi por isso que notou primeiro a fumaça fina saindo de uma casa pequena, quase escondida entre árvores secas e ervas penduradas nas janelas.
A casa ficava longe demais de qualquer vila para parecer segura. Mesmo assim, Eliezer desmontou e bateu duas vezes na porta de madeira.
Quem abriu foi um rapaz magro, de roupas simples de linho, mangas dobradas até os cotovelos, cabelos castanho-claros soltos e longos, com alguns fios caindo sobre os olhos. Tinha o rosto delicado, mas o olhar de quem media perigo antes de oferecer ajuda.
— Se for vender alguma fé, já aviso que não compro — disse ele, antes mesmo de cumprimentar.
Eliezer olhou para o rapaz, depois para o próprio ombro, onde o sangue escorria por baixo da couraça.
— Só preciso de alguém que saiba costurar carne.
O rapaz suspirou.
— Isso eu faço.
A casa cheirava a alecrim, lavanda e chá fervendo. Potes de vidro se empilhavam nas prateleiras, livros se amontoavam sobre a mesa, raízes secavam penduradas em barbantes.
Num canto, Neris dormia enrolado numa manta, abraçado a um pedaço de pão como se temesse que alguém fosse tirá-lo.
— Seu irmão? — Eliezer perguntou.
— Sim — respondeu o rapaz sem olhar. — Neris.
— E você?
— Caelun.
Caelun retirou a armadura com cuidado, limpou o ferimento lentamente, examinando cada corte, cada rasgo. Suas mãos eram leves, surpreendentemente firmes, e a forma como tocava a pele mostrava prática e paciência.
— Você fala pouco — comentou Caelun.
— Você fala por nós dois — disse Eliezer, e o rapaz esboçou um sorriso curto, quase sem querer.
Os dias seguintes se arrastaram em silêncio e pequenos gestos. Eliezer ficava mais do que pretendia, porque o ferimento precisava de cuidado e Caelun não deixava ninguém partir antes da hora. Pela manhã, Neris corria em volta da casa, perseguindo galinhas como se fosse uma grande batalha. Caelun preparava remédios, resmungando sobre o vento, o barro e o cavalo que insistia em comer suas ervas. Eliezer apenas observava, aprendendo as rotinas do lugar, ouvindo sem interromper.
À noite, sentavam do lado de fora enquanto o céu mudava do laranja ao violeta. Neris dormia primeiro, encostado no braço do irmão. Caelun ficava quieto, como se o silêncio puxasse alguma memória que ele preferia não nomear.
Foi numa dessas noites, sem pressa e sem aviso, que Caelun ergueu os braços para recolher um lençol preso alto demais, e o cabelo preso se soltou com o movimento. A nuca apareceu, e Eliezer viu. Uma marca vermelha, antiga, cruel — um círculo queimado na pele, e no centro, uma flor de lótus gravada com precisão brutal.
Caelun percebeu o olhar, e rapidamente recolheu os cabelos. O silêncio entre eles não precisava de palavras. Cada respiração carregava algo que nenhum dos dois ousava nomear.
— Quem fez isso? — Eliezer perguntou, finalmente.
Caelun não respondeu de imediato. Olhou para o chão, as mãos apertando o tecido molhado do lençol.
— Um clã — disse por fim, a voz baixa. — Levaram crianças, mentiam sobre propósito e disciplina. Meu vilarejo queimou numa madrugada. Eu e Neris fomos levados.
Ele respirou fundo.
— Eu disse que podia trabalhar no lugar dele. Curar, limpar, obedecer. Qualquer coisa.
Eliezer permaneceu quieto. A chuva fina começou a cair, e a luz do luar refletia nas folhas molhadas.