Raquel Smith respirou fundo enquanto observava o movimento frenético da ala infantil do hospital. O cheiro de antisséptico misturava-se com o aroma suave de desinfetante, criando uma atmosfera que, embora familiar, a deixava inquieta. As paredes brancas e frias do corredor refletiam a luz fluorescente, tornando tudo ao redor ainda mais estéril. Ela olhou para o relógio pela quinta vez naquela tarde. Faltavam apenas algumas horas para o término do seu turno, e sua mente já estava longe dali, imaginando o jantar que prepararia para seu marido, Matheus. O prato favorito dele, um risoto de frango com ervas, dançava em sua mente como uma promessa de conforto.
“Doutora Raquel, você tem um momento?” A voz de Samuel Sanches, o cirurgião que sempre a deixava um pouco nervosa, interrompeu seus pensamentos. Ele era um homem alto, com cabelos escuros e um sorriso que poderia iluminar até os dias mais sombrios. Raquel forçou um sorriso enquanto se voltava para ele, tentando esconder a ansiedade que a consumia. “Claro, Samuel. O que você precisa?” Ela se esforçou para manter a voz firme, mas a expectativa de ir para casa a deixava inquieta.
“Precisamos revisar os prontuários das crianças que foram operadas esta semana. Algumas delas estão apresentando complicações e...” Samuel começou, mas Raquel já podia sentir seu coração disparar. O que mais poderia dar errado? Ela estava cansada e desejava apenas voltar para casa, para a segurança de seus braços. “Posso dar uma olhada mais tarde? Estou um pouco ocupada agora”, respondeu, tentando manter o tom cordial. Samuel a observou por um momento, como se estivesse avaliando sua disposição. “Entendo, mas é importante. Vamos juntos, pode ser mais rápido.”
Raquel hesitou, mas a determinação nos olhos de Samuel a fez ceder. “Está bem. Vamos lá.” Enquanto caminhavam, ela não pôde deixar de notar a maneira como ele se movia com confiança, cada passo firme e decidido. Era um contraste com sua própria ansiedade. O corredor estava repleto de risos infantis e o som de máquinas bipando, criando uma sinfonia caótica que a lembrava do porquê de estar ali. As crianças, com seus olhares esperançosos e sorrisos tímidos, eram a razão pela qual ela se dedicava tanto à medicina.
“Você parece distante, Raquel. Alguma coisa a preocupa?” Samuel perguntou, quebrando o silêncio que se instalara entre eles. Ela hesitou, não querendo revelar a fragilidade de seus sentimentos. “Só estou ansiosa para terminar o dia. Tenho um jantar especial para preparar”, confessou, tentando manter a conversa leve. Samuel sorriu, um sorriso que parecia iluminar o ambiente. “Ah, o famoso risoto de frango do Matheus. Ele tem sorte de ter uma esposa tão talentosa na cozinha.”
As palavras dele a atingiram como uma flecha. A menção de Matheus, seu marido, fez com que uma onda de emoções a invadisse. O que ele diria se soubesse que Raquel ainda se preocupava em agradá-lo? Era um pensamento que a atormentava, mas ela rapidamente se recompôs. “Sim, é uma receita da minha avó. Espero que ele goste”, respondeu, tentando disfarçar a tristeza que surgia em seu peito. Samuel, percebendo a mudança em sua expressão, mudou de assunto. “Vamos revisar esses prontuários. Depois, você pode ir para casa, e eu cuido do resto.”
Quando chegaram à sala de arquivos, o cheiro de papel e tinta a envolveu. Raquel se sentou à mesa com um suspiro, pegando os documentos enquanto Samuel se posicionava ao seu lado. Ele a ajudou a organizar as informações, e a proximidade deles gerou uma tensão no ar. Raquel sentiu o calor subir em seu rosto, suas mãos tremiam levemente enquanto ela tentava se concentrar nos números e diagnósticos. “Você realmente se dedica a essas crianças, não é?” Samuel comentou, observando-a com admiração. “É o que me faz continuar, Samuel. Cada sorriso, cada recuperação, vale a pena.”
Por um breve momento, Raquel se perdeu no olhar dele, um olhar que parecia entender suas lutas e aspirações. Havia algo ali, uma conexão que transcendeu a amizade. Mas ela rapidamente afastou esses pensamentos. Não podia se permitir sonhar. “Eu só faço o meu trabalho”, respondeu, tentando manter a voz neutra. Samuel sorriu, mas havia uma seriedade em seu olhar. “Você faz mais do que isso. Você traz esperança.”
A conversa fluiu enquanto revisavam os prontuários, mas a mente de Raquel estava em outro lugar. As lembranças de Matheus a assombravam, como sombras dançando na penumbra de sua mente. O que ele estaria fazendo agora? Será que ele ainda pensava nela? O pensamento a incomodava, mas a presença de Samuel a ancorava no presente. Quando finalmente terminaram, o relógio já marcava quase sete horas, e o cansaço havia se instalado em seus ombros.
“Pronto. Agora você pode ir para casa e preparar seu jantar”, Samuel disse, com um tom de satisfação. Raquel sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto cansado. “Obrigada, Samuel. Você é um ótimo colega.” Ele a observou por um momento antes de falar novamente. “Se precisar de ajuda, estarei por aqui. Não hesite em me chamar.” Ela assentiu, sentindo uma onda de gratidão. “Claro, farei isso.”
Enquanto caminhava em direção à saída do hospital, Raquel sentiu a brisa fresca da noite envolvendo-a. A cidade de Pequim pulsava ao seu redor, com luzes brilhantes e sons vibrantes. O cheiro de comida de rua invadiu suas narinas, e seu estômago roncou em resposta. Mas a única coisa que ela queria era chegar em casa e preparar o jantar. Ao entrar no carro, seu coração estava dividido entre a expectativa e a incerteza. O que o futuro reservava para ela?
QUEM GOSTAR DEIXAR UM COMENTÁRIO E CURTIDA OBRIGADA