Uma Paródia da Bela Adormecida
Por Deyse Baptista Pires
Reza a lenda que um rei se desentendeu com uma fada com quem teve um “affair" e casou-se com uma princesa. Quando nasceu sua primeira filha, a fada foi a apresentação da herdeira e ao invés de abençoá-la, amaldiçoou a bebê:
“ No décimo sexto ano de vida, exatamente em seu aniversário a bela princesa curará o seu dedo na broca de um tear e dormirá eternamente."
O rei ao ouvir tais palavras condenatórias, reclamou e implorou a fada que mudasse aquela maldição, no que ela respondeu:
— Não posso desfazer o que já fiz, porém nenhum escape.
“ Quando a jovem estiver dormindo, se um jovem príncipe com força de vontade e muito amor a beijar, ela acordará e serão felizes para sempre. Porém, ela só acordará se for um beijo de amor verdadeiro."
Dizendo isso, a fada sumiu e todo o reino tentou proteger a princesa, mas não adiantou, em seu décimo sexto aniversário, ela furou o dedo no tear e caiu adormecida.
Cem anos se passaram, no castelo, todos dormiam e à sua volta cresceram trepadeiras de espinhos, tornando a entrada muito difícil.
Alguns príncipes já haviam tentado entrar e beijar a princesa, outros desbravadores quiseram simplesmente confirmar a lenda, mas ninguém voltou para contar a história.
Em um reino distante, o rei em desespero por seu reino estar totalmente falido, enviou o seu filho mais novo, o Príncipe Harry, para ir até o reino do Faz de Conta, ver se a lenda da Bela Adormecida era real.
O príncipe iniciou sua empreitada e levou cinco anos para percorrer o trajeto até chegar no castelo.
Antes dele, porém, um dos seus irmãos mais velhos, tentou chegar primeiro e conseguiu. Com sua espada, cortou um caminho entre a trepadeira de espinhos e com alguns arranhões, entrou no castelo.
— O que houve aqui? Todas essas pessoas parecem ter dormido recentemente, mas pelo que soube, já fazem 100 anos que esse Castelo não é habitado. Se estão dormindo há 100 anos, como parecem tão bem?
Conforme passava, via os guardas em suas armaduras com a cabeça baixa, dormindo. Algumas faxineiras, segurando em vassouras, de pé, também dormiam. Todos dormiam, incluindo o rei e a rainha, em seus tronos.
O príncipe não veio sozinho, e conforme abriu o caminho, o grupo de soldados que o acompanhava, entrou também e espantou-se com todos dormindo.
Subindo a escadaria da torre que levava ao quarto mais alto, o príncipe sentiu-se vitorioso e quando abriu a porta do quarto da princesa, apaixonou-se pela imagem linda e adormecida da bela jovem.
Aproximou-se e recitou um pequeno verso, mesmo sabendo que ela não podia ouvir.
— Vim de terras distantes, à procura do amor do meu coração,
Encontrei em seu belo semblante, algo melhor do que eu podia supor.
Depois daquele verso estranho, ele inclinou-se e beijou a donzela. Foi então que algo estranho aconteceu, todo o Castelo despertou e ele sentiu seus lábios serem mordidos e sugados, coisa estranha e terrível, pois logo sua existência se extinguiu.
A trepadeira de espinhos se fechou, novamente, envolvendo o castelo. Os corpos dos soldados sumiram e ninguém podia contar o que aconteceu, pois nenhuma alma viva, nunca mais se viu.
Sem saber que seu irmão havia partido na frente, o príncipe Harry, finalmente, chegou ao Castelo e olhando a trepadeira de espinhos, não pegou sua espada para sair cortando. Contornou toda a distância que ela ocupava e encontrou um local por onde podia escalar a planta e assim o fez.
Conseguiu atravessar o muro e andando por um galho grosso que levava a uma das janelas do Castelo, entrou. Olhou tudo à sua volta e parecia intacto, mesmo depois de um século haver se passado.
Porém, conforme andava, sentia-se observado e ao chegar à entrada da torre onde estava o quarto da princesa, viu as pernas de um soldado serem arrastadas para uma porta e correu para ver o que era, ocultando-se para não ser visto.
Deparou-se com algo terrível, uma criada comendo a carne de um soldado. Pelo resto do uniforme, ele percebeu que era um dos soldados do exército de seu pai, mas ele não havia trazido nenhum com ele.
Prestando atenção para não encontrar mais nada estranho, subiu as escadas e chegou ao quarto da princesa. Assim como seu irmão, achou-a linda, mas observou que o seu ventre estava muito volumoso, como se ela tivesse comido muito recentemente ou estivesse grávida.
— Não pode ser, nenhuma das duas opções seria possível, já que ela está dormindo há 100 anos. — sussurrou.
Aproximou-se e percebeu que as vestes dela estavam sujas de sangue e o cheiro no ar era de morte.
— O que está acontecendo aqui, princesa? Esse cheiro podre de morte e de sangue, muitos adormecidos e os que não estão, viraram canibais?
Sentando-se na beira da cama o príncipe segurou a mão da princesa e viu que as unhas dela estavam em forma de garras e sujas de sangue e detritos.
— Princesa, princesa…vim aqui pensando em lhe salvar, mas na verdade, quem precisa ser salvo é o meu pai e o nosso reino. Acho que existe bem mais coisas neste castelo do que contam as lendas.
Ele percebeu que alguns galhos da planta que cercava o castelo, começavam a entrar pela janela e ele estranhou como a planta poderia ter se estendido de forma tão rápida.
Resolveu acabar com tudo de uma vez e se inclinando, beijou primeiro o rosto da Bela. Esperou por alguma reação, mas não teve. Beijou então o outro lado de sua face e mais uma vez esperou por uma reação, que não veio.
Então, estava com receio de beijar seus lábios e por isso tirou sua luva e a enrolou, fazendo um montinho como se fosse a forma de uma boca e encostou nos lábios dela. Imediatamente, percebeu que dentes afiados saiam de sua arcada dentária e fixavam-se na luva, mordendo com força.
Com um salto para trás, levantou-se rapidamente da cama e apontou para ela, acusando:
— Você é uma canibal e todos no castelo também são. Por isso ninguém consegue sair do castelo e contar o que está acontecendo aqui dentro. Sua farsante, você não é uma princesa, você é um monstro.
A Bela adormecida, despertou e sentou-se na cama já não era tão Bela e sim, medonha, uma figura difícil de se encarar.
— Como você queria que eu sobrevivesse por 100 anos? É claro que eu precisava comer e aproveitei todos os que conseguiram chegar aqui. A profecia linda que todos contam como uma benção da minha fada madrinha, na verdade, é bem diferente.
— Então você e o seu povo, todos os que vivem no castelo, são canibais?
— E daí se formos, você não faria o mesmo se fosse para sobreviver?
Ele olhou em volta e viu um espelho de mão na penteadeira que ela devia usar para se pentear. Pegou e mostrou a aparência feia e indigna da princesa:
— Olha como você está! É isso que o canibalismo faz, não me sujeitaria a ficar como você, talvez até me matasse antes.
Ela levantou-se da cama e andou pelo quarto. Analisou o príncipe que era menos robusto do que o anterior e pensou se daria um bom alimento. Talvez seus ossos fossem finos e sua carne magra, mas não estava com muita fome.
— Você é um hipócrita, nunca passou por isso, como pode dizer que não faria?
— Pois estou dizendo, eu não mataria e comeria outros seres humanos.
— Bem, não tenho opções. Fazia parte da tal benção da fada madrinha, eu furaria o dedo na roca e dormiria eternamente, até que um beijo de amor verdadeiro de um príncipe, me acordasse.
— Você não me parece bela e nem adormecida. Então, como acordou?
— Acho que a fada madrinha não previu a quantidade de fome que eu estaria sentindo depois de dormir por tanto tempo, por isso, quando o primeiro príncipe chegou, se apaixonou pela minha beleza e me deu um beijo de amor, eu acordei e tudo que senti foi fome.
— Óh! Você comeu o primeiro príncipe que te beijou e conseguiu te acordar? Que horror!
A princesa não tinha mais consciência de certo e errado, nem emoções para sentir compaixão, por isso, só analisou o príncipe como um bom alimento para dar substância a ela e continuar vivendo.
O príncipe Harry começou a ficar apavorado, olhou as plantas continuando sua invasão pelo quarto e logo pegou sua espada para cortá-las e impedi-las de fechar a porta. Depois de horas lutando, caiu ao chão cansado e viu a princesa se aproximar.
— Por favor, princesa, não me coma. Posso restaurar o seu castelo e a vida das pessoas dentro dele. Posso providenciar comida saudável e cozinheiras para prepará-las, você não precisa continuar sendo uma canibal.
— Agora é tarde, não consigo deixar de ser quem sou. Minha natureza mudou, não sou mais uma mera humana, agora, os humanos se transformaram em meu alimento e isso faz parte da minha natureza atual.
Um cipó da planta se enroscou no tornozelo dele e o suspendeu, o prendendo às raízes que cobriram o teto. Lá, ele ficou pendurado como se fosse um inseto preso na teia de uma aranha e viu a princesa deitar-se de novo para dormir.
— Ei! Não me deixe aqui, se você dormir por muito tempo, morrerei de fome.
— Não antes que eu te coma. Vou descansar a refeição que fiz a pouco tempo e quando sentir fome de novo, acordo para lanchar. Pois é isso que você será, apenas um lanche, já que é tão pequeno e magro.
— Espere, princesa, Meu pai está esperando o meu retorno e meu reino precisa de ajuda, se eu morrer aqui, como ficará o meu povo?
— Não ligo para o seu povo, se eles vierem atrás de você, serão mais alimento para o meu povo.
— Porque fazer isso com pessoas que você nem conhece?
— Porque vocês não vêm aqui para me salvar, vem atrás da riqueza que podem conquistar casando com a Bela Adormecida, pessoas interesseiras que só pensam na riqueza. Vocês não merecem outro fim, agora cale-se, estou cansada e quero dormir.
Ele tentou falar de novo, porém, outro cipó tampou sua boca e por fim, ele desmaiou de fome e cansaço e nem percebeu que seu destino se cumpriu, guardando assim, o segredo da Bela adormecida.