O tempo, naquela floresta, não andava.
Ele hesitava.
Os dias se empilhavam como cartas que ninguém tinha coragem de abrir, e as noites voltavam sempre com a mesma lua, como se ela estivesse presa num ciclo de promessas que não sabiam se cumprir.
A Coelhinha aprendeu a contar o mundo em migalhas.
Uma palavra por dia.
Um olhar à distância.
Um “eu ainda estou aqui” que chegava tarde demais, mas nunca deixava de chegar.
Ela se sentava no mesmo ponto do corredor todas as noites, com o ursinho no colo, e olhava para as sombras onde o Lobo costumava se esconder.
Às vezes ele aparecia.
Às vezes não.
E quando não aparecia, a floresta ficava diferente. As árvores ficavam mais rígidas, como se estivessem segurando o ar. O vento passava sem cantar. Até a lua parecia menor.
A Coelhinha falava mesmo assim.
— Hoje eu vi uma borboleta atravessar o rio sem molhar as asas — dizia, para o vazio.
— Hoje eu senti medo sem saber do quê.
— Hoje… eu senti sua falta.
As palavras caíam no chão como migalhas invisíveis. E, em algum lugar entre os troncos e as raízes, o Lobo as recolhia uma por uma.
Ele ouvia tudo.
Mas responder… isso era mais difícil.
Porque cada resposta era um passo para fora da sombra. E ele tinha medo da luz. Medo de que, se a Coelhinha visse tudo o que ele era, ela não quisesse mais ficar.
Numa noite, ele apareceu.
Mais perto do que nunca.
A Coelhinha quase deixou o ursinho cair de susto.
— Você ficou — ela disse, com um fio de voz.
— Eu sempre fico — respondeu o Lobo. — Só nem sempre sei como chegar.
Ela inclinou a cabeça.
— Então me manda sinais. Mesmo pequenos. Mesmo bobos. Eu não preciso de discursos… só de saber que você pensou em mim.
O Lobo sentiu aquilo como um dente de sol atravessando o peito. Quente. Dolorido. Vivo.
— E se eu só souber dar migalhas? — ele perguntou.
A Coelhinha se aproximou, até as patas quase tocarem as dele.
— Então me dá migalhas — disse. — Mas não some com o pão inteiro.
O silêncio entre eles mudou.
Não era mais vazio.
Era cheio de coisa que ainda não tinha nome.
Naquela noite, o Lobo deixou algo no chão antes de voltar para a sombra.
Uma pequena pena branca, brilhando com a luz da lua.
A Coelhinha pegou e sorriu.
Porque não era a pena que importava.
Era a prova.