Evangeline tinha treze anos quando percebeu que o mundo era muito maior do que diziam.
Até aquele dia ela acreditava que a pior coisa que poderia acontecer era ser obrigada a se casar com algum aristocrata entediante escolhido pela família.
Mesmo que, naturalmente, aquilo ainda estivesse longe demais para realmente acontecer.
Então Joseph apareceu.
Ele era irritante.
Arrogante.
Machista.
Exatamente o tipo de homem que ela dizia odiar.
E mesmo assim...
ele a tratava como se ela fosse importante.
Como se suas ideias não fossem apenas caprichos de uma menina.
Como se o mundo realmente pudesse mudar se ela quisesse.
Como se ele fosse capaz de fazer qualquer coisa por ela.
— Você é um machista — ela disse.
Joseph levantou uma sobrancelha.
— Você tem treze anos.
— E já sou mais inteligente que metade dos homens que conheço.
— Isso não é um grande desafio.
Ela cruzou os braços.
— Eu odeio você.
Joseph sorriu.
Era um sorriso calmo.
Daqueles que parecem entender algo que você ainda não percebeu.
— Não.
Ele disse simplesmente.
— Você não odeia.
Evangeline odiava o fato de que ele provavelmente estava certo.
Ele não a tratava como criança.
Não ria das ideias dela.
Não tentava corrigi-la o tempo inteiro.
Na verdade, Joseph parecia fazer algo muito pior.
Ele a levava a sério.
Evangeline não sabia explicar o que sentia quando ele a olhava daquele jeito calmo, compreensivo.
Ou quando ria das suas piadas como se realmente as entendesse.
Mas sabia de uma coisa.
Não queria que aquilo acabasse.
Foi por isso que aconteceu.
O tempo sempre responde a sentimentos fortes.
E o amor de uma garota de treze anos pode ser mais poderoso do que qualquer feitiço.
Evangeline estava dançando com aquele inglês alto e rígido que não conhecia Black Eyed Peas quando o mundo se partiu.
Num segundo ela estava rindo.
No outro...
estava sozinha.
O céu estava vermelho.
As cidades estavam em ruínas.
E não havia ninguém vivo.
Ela caminhou por horas.
No começo tentando encontrar alguém.
Depois tentando entender o que estava vendo.
Até perceber a verdade.
Joseph nunca tinha existido naquele mundo.
E sem ele...
tudo tinha sido diferente.
Serena nunca lançou a maldição.
Matthew nunca a traiu.
A história tomou outro caminho.
E isso mudou tudo.
Porque a linhagem Slorach não carregava uma ruptura temporal.
Em vez disso...
Evangeline nasceu com o poder que Serena teria passado naturalmente.
Ela não era uma viajante.
Ela era uma bruxa.
Evangeline caminhou pela cidade em silêncio.
Algo estava errado.
Não era apenas a ausência de Joseph.
Era o mundo.
Algumas poucas pessoas sobreviventes olhavam para ela com medo quando ela tentava pedir ajuda.
Não com suspeita.
Com medo.
No começo ela pensou que era paranoia.
Até a primeira chama surgir.
Sem feitiço.
Sem palavra.
Sem esforço.
A chama simplesmente nasceu na palma da mão dela.
Evangeline ficou olhando.
A chama cresceu.
Respirou.
Como se estivesse viva.
— Isso... não deveria acontecer.
Mas aconteceu.
Porque naquele mundo Serena nunca lançou a maldição.
E sem a maldição o poder nasceu dentro dela inteiro.
Cru.
Antigo.
Sem limites.
No começo ela acreditou que aquilo era libertação.
Bruxas finalmente tinham alguém poderoso o suficiente para protegê-las.
Então veio a guerra.
Humanos reagiram como sempre reagiam.
Com medo.
E violência.
As bruxas responderam.
Evangeline liderou.
No começo acreditando que estava salvando seu povo.
Depois apenas tentando sobreviver.
O problema com poder absoluto é que ele não vem com manual de instruções.
Um dia Evangeline perdeu o controle.
Não por ódio.
Mas por desespero.
O poder saiu dela como uma tempestade.
Oceanos evaporaram.
Montanhas partiram.
Cidades desapareceram.
Quando tudo terminou...
o planeta estava morto.
Evangeline ficou de pé no silêncio.
Ela tinha treze anos.
E tinha acabado de destruir um mundo.
A maldição de Serena nunca tinha sido apenas uma punição.
Era uma contenção.
Sem ela...
alguém como Evangeline não deveria existir.
O pavor foi grande demais para alguém daquela idade.
E o tempo respondeu.
Levando-a para outro lugar.
A Linha do Genocídio
No começo aquela linha do tempo parecia melhor.
Nela, Evangeline encontrou algo que nunca tinha tido antes.
Uma causa.
Ela liderou bruxas.
Desafiou a Igreja.
Organizou revoltas.
Por algum tempo acreditou que aquilo poderia funcionar.
Mas guerras raramente terminam bem para quem começa acreditando demais.
A Igreja respondeu com fogo.
E ferro.
E morte.
Um por um, os aliados de Evangeline caíram.
Até que restou apenas ela.
O campo estava silencioso demais.
Silencioso daquele jeito que só existe depois de uma batalha.
Evangeline caminhava entre os corpos como se estivesse procurando algo que tinha perdido.
Ou alguém.
No começo ainda havia esperança.
Ridícula.
Mas esperança.
Ela encontrou o primeiro.
Não era ele.
O segundo também não.
O terceiro...
também não.
Evangeline começou a respirar rápido demais.
— Não...
Ela continuou andando.
Mais rápido agora.
Como se pudesse desfazer o que tinha acontecido apenas andando rápido o suficiente.
Então ela viu.
Joseph.
Deitado na terra.
Imóvel.
Por um segundo Evangeline apenas ficou olhando.
Como se o cérebro estivesse tentando entender o que estava vendo.
— Levanta.
Silêncio.
Ela se ajoelhou ao lado dele.
— Joseph.
Nada.
Ela sacudiu o ombro dele.
— Isso não tem graça.
Silêncio.
A realidade começou a se dobrar.
Não o tempo.
A mente dela.
— Você sempre levanta...
A voz saiu fina.
Infantil.
— Você sempre levanta.
Ela tocou o rosto dele.
Frio.
Frio demais.
Foi então que ouviu o choro.
Uma criança.
Pequena.
Imóvel.
O coração dela disparou.
Ela não lembrava de ter filhos.
Mas quando viu o rosto da criança...
soube exatamente quem era.
O primeiro.
Outro corpo.
Outro menino.
Outro rosto que ela reconhecia.
Mesmo nunca tendo visto antes.
O tempo estava mostrando.
Filhos.
Filhos que ela teria.
Filhos que agora estavam mortos.
— Isso não é real.
A frase saiu automática.
— Isso não é real.
Evangeline começou a rir.
Um riso pequeno.
Que não parecia humano.
Joseph morto.
Crianças mortas.
O campo inteiro morto.
A mente dela tentou organizar aquilo.
Não conseguiu.
Então fez a única coisa que conseguiu fazer.
Quebrar.
As lembranças começaram a se misturar.
Matthew.
Serena.
Joseph.
O lago.
A fogueira.
Crianças.
Casas.
Guerras.
Planetas mortos.
Versões dela mesma.
Todas ao mesmo tempo.
Evangeline segurou a cabeça.
— Parem.
As vozes não pararam.
— Parem.
O tempo inteiro estava gritando dentro dela.
Ela caiu de joelhos.
Respirando rápido demais.
— Eu não quero ver isso.
Mas o tempo não pede permissão.
Ele mostra.
Evangeline olhou para Joseph uma última vez.
Então fugiu.
Não de um lugar.
Mas de uma realidade inteira.
O Almoço de Domingo
Quando abriu os olhos novamente, o sol estava alto.
O cheiro de comida veio primeiro.
Carne assada.
Pão quente.
Vinho.
Almoço de domingo.
A represa da família.
Risadas.
Parentes espalhados pela grama.
Matthew perto da água.
Joseph mais distante.
Evangeline demorou alguns segundos para entender.
Ela estava vendo a própria infância.
Aos treze anos.
Foi quando ouviu o grito.
O dela mesma.
A Evangeline jovem apareceu correndo.
A mão queimada.
Os olhos aterrorizados.
Matthew se levantou.
Joseph também.
— Eve!
Mas antes que chegassem perto, Evangeline apareceu entre os dois.
Descalça.
Os cabelos bagunçados.
Os olhos vazios.
— Não!
Matthew tentou passar.
Evangeline o segurou.
— Deixe ela!
— Ela vai se machucar!
Joseph também tentou avançar.
Evangeline o empurrou.
— NÃO!
A menina chegou à beira da represa.
Parou.
Hesitou.
Por um instante Evangeline pensou em gritar.
Em impedir.
Em salvar aquela menina.
Salvar a si mesma.
Mas ela já tinha visto.
Na água.
O corpo dela mesma.
Flutuando.
Se mudasse aquilo...
o tempo inteiro poderia quebrar.
Então a menina pulou.
Matthew correu.
Joseph também.
Mas Evangeline ficou entre os dois.
— Ela vai morrer! — Matthew gritou.
Evangeline balançou a cabeça.
Joseph segurou seus braços.
— Ela é uma criança!
Evangeline olhou para ele.
Os olhos completamente vazios.
— Eu sei.
E começou a chorar.
Não como alguém que quer impedir uma tragédia.
Mas como alguém que sabe que já é tarde demais.
Porque em algum lugar quebrado dentro dela...
ela queria aquilo.
Queria silêncio.
Queria o fim.
Queria que a dor parasse.
Na água, o corpo desapareceu.
O lago voltou a ficar quieto.
Como se nada tivesse acontecido.
Matthew correu.
Joseph também.
Mas Evangeline ficou parada.
Sabendo que tinha acabado de assistir o momento que quebraria sua vida inteira.
E foi ali, naquele almoço de domingo aparentemente comum, que Evangeline descobriu algo que levaria séculos para aceitar.
O tempo sobreviveu a reis, guerras e impérios.
Mas quase não sobreviveu a uma garota apaixonada.