É uma da manhã já… esse trabalho é uma droga. Mas paga até que bem.
Quase não tem movimento , a não ser uns estranhos…
Os chamo carinhosamente de vampiros: tão pálidos pela falta de sol quanto eu…
Já era estranho: alto , magro… óculos grossos de mais. Nunca fui O CARA…
Era o nerd do livro. E sinceramente não me arrependo…
Com o que pego aqui com esse horário de merda banco minhas necessidades.
E o projeto diurno , o adicional para um futuro mais tranquilo.
Coloco meu rock. Quem vem lavar roupa esse horário ? Aproveitar.
Puxo meu livro dentro da gaveta : A dama do lago… aquele detetive ferrado o Phillip Marlowe. Livro Velho, história boa…
A porta abre, até gelo, escondo meu tesouro…
E uma figura digamos diferente dando o ar da graça.
Já vi essa mulher em algum lugar…
Não é nova . Semblante cansado… mal dormido.
Veste um moletom cinza rato de esgoto…
Vem com uma cesta e um saquinho separado…( sei o que tem ali…)
cabelos escuros, mas não pretos.
Óculos… olhar cansado de que já viu muita merda.
Ela me olha.— boa noite… qual desses trambolho aguenta um coberdrom ,querido?- diz direta.
— Máquina 5 senhora.
Ela dá um sorriso pequeno cansado, e leva o cesto com o item até a máquina indicada.
E as “peças delicadas “ tira e põe em outra máquina.
Não sou um tarado. Mas a curiosidade é um veneno.
Uma peça escapa e vejo a renda negra…
Trabalhada.
Pego algo da gaveta , fingido que não vi nada…
Mas sinto o sangue fluir mais rápido .
Vou passar um café, beber uma água.
Esfriar o sangue.
Tem uns puffs podres onde o povo espera
Ela se joga, literalmente.
Não é delicada. Não tem cara de boa moça…
Cara de sabe o que quer. Pega a bolsa e puxa um livro.
Meu coração até parou…
Igual o meu…
Puta merda!
A maioria das mulheres que conhecia NUNCA . NUNCA viram esse livro.
Romance clichês… amores rasos. Receitas de bolo…
Meu bem: o coração não segue receita.
Ele toca jazz… blues… um rock bom nos batimentos…
Acho que fixei nela… vejo aqueles olhos felinos observadores…
Julgando de valia a pena .
Se o trabalho de reagir seria recompensado ou,
Se era melhor fingir demência …
Pego o meu e começo a ler. Ela vê,
Aquele sorriso ilumina o semblante sem vida.
— Fã do Phillip?! — diz.— interessante jovem.
Engulo seco.— Curto. Diálogo direto. Seco. Sem frescura… como tem que ser. — digo.
Ela ri e o silêncio reina… aquele silêncio gostoso. Com cheiro de café passando e , produtos de limpeza.
A máquina começa a pular…
Ela se assusta. Deixo meu livro, vou ao cavalo de metal…
Com calma e precisão cirúrgica… acaricio as costas frias daquele paquiderme de aço.
E um tapa seco no meio. Ela volta ao normal.
— nossa querido! Máquina masoquista é a primeira vez que vejo .— diz rindo.
— Cada um tem seus gostos… alguns mais parecidos.— digo
Ela sorri e volta a ler.
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