E se Maquiavel estivesse errado sobre o medo, e Sócrates estivesse certo sobre a cura? Como o 'temor' pelo erro e o 'parto da verdade' podem salvar o futuro da pediatria e das nossas escolas.
"É melhor ser temido do que amado, se não for possível ser ambos." Nicolau Maquiavel destaca que o temor por algo ou alguém tende a gerar ordem e comportamento adequado — desde que não se faça odiado —, enquanto o amor, para ele, é o vínculo que gera a confiança. Recentemente, aprofundei-me nessa frase de Maquiavel e a relacionei com a pediatria. Diante desse cenário, o "temor" maquiavélico adentra a cultura de segurança: na área médica, esse sentimento não é o medo da chefia, mas sim o temor dos erros irreversíveis e suas consequências inevitáveis à criança. Perante essa lógica, a citação parece se inverter; o que impera não é o ódio ou a quebra de confiança, mas o "amor" — traduzido como confiança técnica e empatia humana —, que é o que permite que o trabalho funcione.
Acredito que, quando as pessoas escolhem a pediatria, sabem o peso dessa escolha por envolver o cuidado com uma nova vida; surge, então, novamente esse temor. Sob essa ótica, entender o porquê de um deslize e compreender o erro pode gerar incentivo quando se acerta, resultando em mais eficiência, produtividade e uma sociedade igualitária, onde todos admitem suas falhas e buscam o "parto" que ocasiona o nascimento da verdade, como afirmava a filosofia clássica de Sócrates. Conclui-se que, além da eficiência, se essa postura persistir de forma saudável e sem julgamentos sociais, poderá causar impactos benéficos nas gerações futuras, fortalecendo as relações humanas e a admissão dos próprios erros, fazendo com que a discrepância hierárquica — que muitas vezes é o que alimenta o temor autoritário — seja superada.
Esse modelo de excelência transcende a medicina e se aplica a qualquer ambiente formativo. Na escola, por exemplo, quando um professor admite um deslize, ele envia uma mensagem poderosa: se aquele que detém o saber e estudou anos para isso é capaz de reconhecer um erro, o aluno sente-se seguro para fazer o mesmo. Esse estímulo dissolve a barreira da hierarquia rígida e cria um ambiente de conforto psicológico, onde o foco deixa de ser a punição pelo erro e passa a ser a liberdade para aprender e evoluir.
Que o temor, portanto, deixe de ser a sombra que pune e passe a ser a luz que vigia, transformando a vigilância em cuidado e o erro em semente. Ao silenciarmos o eco das hierarquias rígidas, damos voz ao choro que ensina e ao diálogo que cura, permitindo que a verdade floresça não pelo medo do julgamento, mas pelo amor à vida. No fim, a medicina — e a própria humanidade — não se firma na infalibilidade de seus mestres, mas na coragem de suas mãos dadas, onde admitir a própria fragilidade é o ato mais nobre de força que uma geração pode legar à próxima.