É madrugada, hoje a onna mucha está de folga. É o plantonista novo: Gui.
Já me avisou que não posso assustar seus amigos…
Ele é até que eficiente, jeito diferente. Mas eficiente…
Aproveitar que ela não está para escrever um pouco, aqui no quiosque onde conversava com o kappa.
Que decadência Hiro… unir a solidão com um ser inferior…
Mas não é isso que vou escrever aqui. Mas a descoberta que Yoshio me revelou:
Território neutro, áreas onde a movimentação era liberada entre nós, youkais e outras entidades dessa cidade caótica.
A doninha era útil. Fria, calculista, mas extremamente eficiente. Ter um filhote o fazia cuidadoso com alianças.
Perfeito.
Ficar em meu território estava sendo entediante… César de Souza é vasto,concordo… mas minha presa não mora aqui…
Seria refrescante ter acesso continuo a ela…
Mas tem o guardião. O protegido de itamori…
O que estragou meus planos.
No início era diversão: mais uma que vou quebrar, fazer fugir…
Doce ilusão .
Seduzi imperatrizes, reis, rainhas… causei quedas … nesses 700 anos sendo temido, desejado, adorado…
Mas nunca desprezado.
zombado? Jamais! Consumi almas por muito menos…
Queimei vilas por puro tédio.
E me aparece ela: meia idade, humor pavoroso, com as marcas do tempo aparecendo…
E me faz sentir algo estranho…
Algo que mexe em algo morto.
Que vê além do que mostro…
Mas não é isso .
Fui no bruma… a yuki onna após um leve interrogatório soltou onde foi com a Olhos da noite.
Tive que me humilhar por um tempo com
Ela… enquanto aquele lobo maldito…
Prefiro ignorar… mas toda vez que ele a olha, voltam juntos… que ele a toca …
Sinto as chamas me queimarem , por dentro.
Ela não é DELE. Nem MiNHA…
Ela é dela… e escolheu o guardião a muito tempo…
Mas …
Não esqueci o que senti no jipe…
O coração acelerado. O olhar que não era só medo…
Ter anos de existência tem suas vantagens…
Decidi antes do plantão, a tarde ver esse café. Ver o que tem de especial… o que faz ela gostar daqui? É tão simples . Tão banal… tão ela… tão …
Estava pensando em sair, mas sinto o cheiro dela.
Me levantei e fiquei em um ponto cego…
Ela entra, fones no ouvido, uniforme preto e amarelo… a bolsa que quase me matou e a lancheira… mas está cedo? Ela saiu cedo para aproveitar…
Ela encosta no balcão, tão viva. Distraída em seu som infernal… lembrava um coelho saltitante quando entrou… aquilo mexeu..
Me aproximo suave… os cabelos escuros até o meio das costas .. . Estavam um pouco úmidos, cheiro de limpeza, um perfume doce… vinha do seu pescoço…
O atendente viu minha aproximação, fiz um sinal de silêncio a ele… vi ele engolir seco.
Pousei a mão no ombro dela…
Ela sabia quem era… fui deslisando suave pelas costas… tão quente… elétrica…
Senti o pulso dela aumentar e não era só medo…
Desejei por minhas garras… deixar nela a marca, como ela fez comigo em meu pescoço…
Maldita onna mucha…
Quando ela se virou e me viu, vi aquela faísca de raiva… medo e algo que ela tenta apagar… mas farei questão de acender…
Ela pede seu café… achei estranho : ela poderia ter saído, fugido… Mas ficou.
Será que… Não. Ela só fez isso para mostrar que EU estou invadindo seu espaço…
Ali é seu lago, parte de seu pequeno mundo…
Peço o mesmo que ela..
se senta no canto , sem me dar as costas,perto da parede de vidro.
Inteligente… sabe que ali fica visível qualquer ato meu…
Ela carrega no sangue a segurança…
Uma verdadeira guerreira. MINHA Onna mucha…
Aquele olhar… ela não desvia… o olhar que lê minha nudez, que ve quem sou… e me confunde…
Os pedidos chegam.
Fico observando ela comer.
Primeiro o chantilly… o prazer.ah olhos da noite… somos parecidos…
Essa sombra que tenta calar… ressoa com minha natureza…
O jeito que ela leva a colher aos lábios, o batom no metal… rosa? Coral ? Rosa antigo… sim Rosa antigo.
O copo no lugar é de vidro , servem com canudo… queria aquele canudo…
Ter a sorte que ele tinha… que horror Hiro Watanabe! 700 anos e encantado com uma tia? Absurdo… ela é meu brinquedo..
Sei que a provoco um pouco…
Mais forte que eu.
Falo do lobo… ela revida.. isso Onna Mucha. Revide. Dance comigo esse xadrez… meu jogo, nosso jogo…
Ela pergunta o porque estou ali… invento uma história… igual ela…
Mentirosa onna mucha… eu vejo o que esconde.
O que tenta abafar…
Delicioso…
Sinto um cheiro incômodo.
O lobo… ele não entra, mas vai até o vidro… olha a tensão dela e me olha…
Vi seu ódio… o desejo de sangue …
Deixo ela ir… zombo dele um pouco..
Pago a conta…
Vejo ela sair escoltada por ele… montanha bruta.
Me sento onde ela estava … ficou um pouco do café dela. Caramelo extra..,
Pego o copo, aquele canudo marcado, tomo o que ficou, guardo o canudo discretamente…
Doce, amargo…
Delicioso onna mucha
Tem bom gosto…
Me levanto , vou ao atendente e deixo uma gorjeta…
— volto mais vezes… muito bom o café…
Digo saindo..
É só o começo onna mucha
A caçada começou agora…Nada