A chuva caía fina sobre a cidade quando Lucas saiu da biblioteca da escola. Ele sempre gostava da chuva. O barulho suave nas telhas parecia acalmar os pensamentos que viviam bagunçando sua cabeça.
Enquanto caminhava pelo corredor quase vazio, viu alguém sentado perto da janela.
Era Rafael.
Rafael era o tipo de pessoa que quase ninguém entendia. Sempre quieto, sempre com fones de ouvido e um olhar distante, como se estivesse em outro mundo. Alguns diziam que ele era frio. Outros diziam que ele era estranho.
Lucas achava que ele parecia… solitário.
— Você vai ficar aí parado? — Rafael disse sem olhar para ele.
Lucas se assustou.
— Eu achei que você não tinha me visto.
Rafael tirou um dos fones.
— Eu sempre vejo.
Lucas se aproximou um pouco. A chuva batia no vidro atrás deles, criando pequenas trilhas de água.
— Você não vai embora? — Lucas perguntou.
— Estou esperando a chuva passar.
Lucas sorriu de leve.
— Eu gosto da chuva.
Rafael finalmente olhou para ele. Seus olhos eram calmos, mas carregavam algo difícil de explicar.
— A maioria das pessoas odeia.
— A maioria das pessoas não presta muita atenção nas coisas.
Por um momento, Rafael ficou em silêncio… e então deu um pequeno sorriso.
Foi a primeira vez que Lucas viu aquilo.
E por algum motivo, seu coração bateu um pouco mais rápido.
Nos dias seguintes, Lucas começou a encontrar Rafael com mais frequência.
Às vezes na biblioteca.
Às vezes no pátio vazio.
Às vezes apenas caminhando pelo corredor.
Eles não falavam muito no começo.
Mas o silêncio entre os dois nunca era desconfortável.
Era como se… de alguma forma, eles se entendessem.
Um dia, sentados no banco do pátio depois da aula, Rafael perguntou:
— Por que você sempre vem falar comigo?
Lucas pensou por alguns segundos.
— Porque você parece alguém que precisava de um amigo.
Rafael olhou para o chão.
— E se eu não souber ser amigo de ninguém?
Lucas deu de ombros.
— A gente aprende.
O vento soprou devagar pelo pátio, balançando as folhas das árvores.
Rafael ficou olhando Lucas por alguns segundos.
— Você é estranho.
Lucas riu.
— Você também.
E pela segunda vez, Rafael sorriu.
Mas dessa vez… ele não escondeu.
Algumas semanas depois, enquanto caminhavam juntos para casa, a chuva começou de novo.
Lucas levantou o rosto para o céu.
— Eu disse que gosto da chuva.
Rafael ficou observando ele.
— Eu sei.
Lucas virou para ele.
— Como?
Rafael hesitou… e então respondeu baixo:
— Porque eu presto atenção em você.
O coração de Lucas bateu forte.
Nenhum dos dois disse mais nada.
Mas naquele momento, andando lado a lado sob a chuva, algo silencioso e bonito começou a nascer entre eles.
Algo que não precisava de muitas palavras para existir.