Arthur guardava cartas que nunca teve coragem de entregar. Estavam todas dentro de uma caixa azul, escondida no fundo do armário. Eram cartas para Theo, seu melhor amigo da faculdade — ou talvez algo mais que ele nunca ousou nomear.
Theo era luz. Ria alto, fazia piadas bobas e tinha o dom de transformar dias difíceis em algo suportável. Arthur, ao contrário, era silêncio e cuidado. Eles se completavam sem perceber.
O problema era o medo.
Quando a formatura chegou, Theo recebeu uma proposta de trabalho em outra cidade. Arthur sorriu, desejou sorte… e ficou. Nenhuma carta foi entregue. Nenhuma verdade foi dita.
Dois anos depois, Theo voltou.
Reapareceu na pequena livraria onde Arthur trabalhava, segurando um livro infantil e com o mesmo sorriso de sempre — só um pouco mais maduro.
— Você ainda dobra as pontas das páginas? — Theo perguntou, rindo.
Arthur corou. — Você ainda repara nisso?
A reconexão foi tímida, mas doce. Cafés depois do expediente, caminhadas sem destino, conversas leves misturadas com silêncios carregados. Havia uma alegria simples ali… e uma dor antiga que insistia em permanecer.
Numa tarde chuvosa, Arthur finalmente abriu a caixa azul. As mãos tremiam quando entregou tudo a Theo.
— Eu escrevi quando você foi embora — disse, quase num sussurro. — Não tive coragem de te chamar.
Theo leu em silêncio. Sorriu em algumas partes, os olhos marejaram em outras. Quando terminou, puxou Arthur para um abraço apertado, quente, seguro.
— Eu esperei você me chamar — confessou. — Mas acho que a gente só precisava se reencontrar no tempo certo.
O beijo veio devagar, desajeitado e sincero. Não foi perfeito. Foi real. Um daqueles beijos que curam mais do que prometem.
Entre risadas tímidas e lágrimas leves, Arthur percebeu algo importante:
nem todo amor nasce fácil — mas alguns valem cada espera.
E dessa vez, nenhuma carta ficou guardada.