Na manhã de quinta-feira estava chovendo e
ventava muito, a neblina tomava conta das ruas, o
vento forte balançava os galhos secos das arvores e os ruídos entravam no meu quarto obrigando-me a levantar. Eu não ia à escola porque ainda estava com febre e meio confusa com o que estava acontecendo, pois a cada dia eu passava a barriga da mamãe crescia mais. Papai não me dizia nada, mamãe muito menos, eu só queria entender porque todos estavam assim, meio bobos, sorrido a todo instante, aquilo já estava ficando chato.
Tudo começou a ser terrível para me quando o papai chegou com uma sacola muito mimosa e
perfumada, eu fiquei irradiante pensando que era
presente pra me, mas ele chegou em casa procurando pela mamãe e ao encontrá-la no quarto disse sorrindo:
- Olha o que eu trouxe querida. Ela pegou a mimosa
sacola e sorrindo tirou de dentro umas roupinhas
minúsculas, eu fiquei me perguntando pra quem era
aquilo, pois ninguém me falava nada, me deixava cheia de perguntas a ponto de formar uma fumaça negra na minha cabeça. Eu passei o dia no quarto sem falar com ninguém, estava triste e queria que a mamãe cuidasse de me.
Quase todos os dias o papai chegava com uma daquelas sacolas mimosa, o quarto já estava cheio delas e eu precisava saber pra quem era.
Quando a mamãe estava com seis meses de
gestação eu ainda não sabia o que estava acontecendo, ela me chamou pra conversar e disse-me que eu ganharia um irmãozinho e um monte de vantagens em tê-lo, ela só esqueceu de mim falar as desvantagens. Passei a me sentir como alguém que incomoda, meus pais só falavam nesse bebezinho e cada vez mais eu estava sendo excluída. Presentes chegavam a todo instante, todos tinham me esquecido, me pisavam
como um inseto nojento. Agora eu sabia que um
irmãozinho ia chegar e eu teria que dividir tudo, isso era inevitável, eu pensava e me desmanchava em choro. “E se ele for chato, chorão ou babão, já vi na TV um daqueles bebezinhos que só fazem chorar, comer, babar, suja tudo e salta phu, isso é horrível.” Eu estava sufocada, triste e chateada, precisava contar para Julia, àquela coisinha que ia chegar estava tomando conta da casa, da vida de meus pais, da minha vida, ate parecia um extraterrestre dominando a terra. Era para me o terror da humanidade, o fim do mundo, todos estavam subalternos a ele, meus pais, minha
família e ate meus amigos. Sentir que precisava fazer alguma coisa. Passei muitos dias em silêncio, precisava pensar em algo para libertar todos dessa maldição. Na escola quase não falava com Julia, tinha medo de contar para ela, e passei a ter medo depois da visita que os pais dela nos fizeram. Ate a Julia ficou elogiando a enorme barriga da mamãe, trouxeram presentinhos e um monte de elogios, aquilo me incomodava. “E eu? Vocês esqueceram de mim, faço parte desta família também.” Falava a todo instante.
O inverno se foi e a melhor época do ano estava chegando, mas ninguém tinha percebido, estavam ocupados demais com a chegada do bebê. Eu estava ainda na sala de aula quando tia Elena veio me pegar dizendo que meu irmãozinho tinha chegado e que ela precisava me levar ate lá. Não estava gostando muito da idéia, mas tinha que acompanhá-la. Naquela noite a mamãe não dormiu em casa e eu pude experimentar o sabor maravilhoso de dormi com o meu pai, bem
abraçadinho, sentindo seu carinho, seu chamego, era bom demais e fazia tempos que isso não acontecia. Conversamos bastante e ele me disse que tinha comprado uma bela casa, com espaço para brincar, uma enorme varanda e um lindo jardim, mas ele só estava esperando a etapa final, o acabamento para nos mudarmos. Pelo menos uma coisa boa ia acontecer. Não demorou muito para a mamãe chegar, depois da conversa que tive com o papai, já me sentia bem melhor e tudo aconteceu de uma forma doce e graciosa. Depois que o bebê foi acomodado no quarto a mamãe me chamou de forma dócil com um jeitinho agradável que só ela sabia fazer. Eu me aproximei um pouco receosa, cheguei perto do bebê e fique espantada com o que estava vendo, era o bebezinho mais lindo do mundo e ele sorriu para me, sua pele era tão macia quanto uma rosa, sua boquinha, o nariz pequenininho e os olhinhos claros era iguais aos meus. Eu estava apaixonada por aquele ser minúsculo e quanto mais os dias passavam eu me apaixonava mais. A chegada daquele bebê mudou tudo em minha
casa e mudou para melhor, pois o papai passou a me levar para a escola e mamãe a me ninar quase todas as noites. Depois de tudo que vivi passei a pensar e agir diferente, afinal eu não era mas filha única, eu tinha um irmãozinho.
Fim