Mãe.
Existe algo de divino nessa conexão.
Sou a filha mais velha de 3 irmãos e eu posso dizer que tenho a melhor Mãe do mundo inteiro!
Quero compartilhar algo que permanece vivo em minha memória como se fosse hoje, e que ainda me emociona.
Fui Criada por uma mãe solteira numa comunidade que, na época vivia em conflitos de facções. Minha mãe sempre foi aquela mulher de garra, trabalhava como faxineira para nos criar, comíamos 1 refeição por dia, quando tínhamos as coisas, só podíamos almoçar para garantir o almoço do dia seguinte. Na época ela ganhava 400,00 por mês por limpar a casa de uma mulher, e isso pra 2 filhas o mês inteiro era muito pouco.
Eu sei que ela fazia seu máximo.
Como filha mais velha podia vê-la na sua angústia e entendia porque ela se recusava na maioria das vezes a comer com a gente. Sabia que íamos a igreja cedo aos Sábados de consagração porque la dava café da manhã.
Em meus 7 anos eu não era uma criança questionadora, pelo contrário, eu assimilava nossa situação com perfeita clareza, tanto que pensava em ajudar. Tanto, que chorava quando ela chorava em desespero de tão cansada do trabalho, pois ela cuidava de um apartamento grande todo dia por uma miséria.
Precisei aprender a cozinhar aos 7 anos e a cuidar da minha irmã, coisas básicas como banho, dar comida, pentear... E ajudar na casa já que minha Mãe so chegava tarde. Eu também estudava.
Lembro de sentir fome a noite e ir dormir cedo para amenizar a fome; Lembro de irmos a centros espíritas para pegar roupas e cesta básica; Lembro de minha mãe no sacolão catando chepa (Aqueles legumes e frutas passando que os estabelecimentos jogavam num canto do lado de fora pra mendigos e quem mais quisesse aproveitar); Lembro também de catarmos latinha pra vender por uns trocados.
E meu pai? Você deve se perguntar.
Era um bom homem quando minha mãe o conheceu, mas quando engravidou ele caiu no mundo do crime organizado. E ela nunca quis aceitar 1 real sujo das mãos dele.
Na adolescência, senti raiva dela por nao aceitar. Achava que dinheiro era dinheiro. E culpei ela por passarmos uma vida de sofrimento onde eu não podia ter brinquedos roupas e até um biscoito de chocolate, que era raridade. Vivemos a base de fubá e arroz. Nao compreendia que ela recusava para nos proteger.
Lembro dela ser ameaçada por ter sido mulher dele, pela facção rival que tomou a comunidade. E de sairmos as pressas de lá com medo de morrermos.
Só entendi quando me tornei mãe. Só entendi o cuidado dela porque passei pela fase de carregar alguém em meu ventre e esse alguém ser a coisinha mais importante da terra. Hoje eu a amo por nao ter aceitado dinheiro sujo. E Nao aceitar nos fez passar por situações horríveis quando criança, e eu agradeço por minha irma ser tão pequena naquela época que nao se lembra de nada.
Mas o que marcou minha vida como ser humano, e me fez valorizar tudo o que ela viveu para nos sustentar foi algo que aconteceu com alguém que amávamos.
Estávamos em um daqueles dias terríveis onde só havia água e farinha de trigo velha em casa. Esse dia chorei de fome. Os parentes nossos nao ajudavam muito, criticavam ela por ter engravidado 2 vezes e só diziam ser culpa dela passarmos por tudo aquilo. Mas naquele dia estava tão ruim que minha mãe me pediu para ir a casa da irmã dela e pedir um pouco de fubá para fazer um angu para nós três.
E eu fui.
Minha tia era nossa vizinha. Morava á 1 casa de nós. Lembro de chegar lá cheia de esperança e pedir minha tia um pouco de fubá, que ela reclamou um pouco, mas cedeu 1 pacote fechado de fubá.
Pense em como voltei saltitando achando que iria comer e que sobreviveríamos mais um dia.
Cheguei em casa e entreguei a minha mãe e fui ficar com minha irmã a fim de que deixasse ela preparar a única refeição que faríamos aquele dia.
Percebi que demorava, então fui até ela e a peguei chorando muito. Ela havia acabado de se tornar Cristã, então estava orando baixinho enquanto chorava.
Perguntei se íamos comer agora. E ela disse que não podíamos comer o fubá naquele dia. Pra bebermos um pouco de água e irmos pra cama que ela iria fazer o fubá no dia seguinte, pois estavamos sem gás e ela tentaria ajuda pra comprar.
Nao entendi. Mas obedeci.
Realmente estava com muita fome, mas não queria deixa-la mais aflita.
Não dormi. Então quando ela e a Gigi estavam adormecidas eu fui ate o fogão velho que tínhamos e peguei o pacote de fubá.
Foi quando percebi que ele estava cheio de bichinhos andando por todo ele. O pacote ainda lacrado, mas cheio de bichos e o fubá numa tonalidade esverdeada em alguns pontos.
Por isso mamãe não nos deu. Nossa tia havia nos dado algo podre e com bicho.
Nesse dia eu fui pra cama chorando em meio aquela dor compartilhada.
Porque que alguém que era nosso sangue faria isso Sabendo que haviam crianças? Qual ruim pode ser um ser como esse? Eu ajudaria uma mulher sozinha com duas crianças. Eu ajudaria!!
E nesse dia eu disse pra mim mesma que assim que possível tiraria elas dessa situação.
No dia seguinte eu abracei minha mãe sabendo que ela sofria por ser humilhada pelo seu próprio sangue. Ela não aguentava mais aquela situação. Eu não aguentava vê-la sofrer tanto. A fome não era a pior coisa. A dor emocional era.
Mas eu sabia que Deus deveria ter algo bom pra nós la na frente.
Poucos anos depois de sairmos da comunidade para morar de favor na casa da minha Bisa por parte de Mãe, as coisas começaram a mudar para nós.
Mamãe arrumou emprego na casa de outra moça, e com a ajuda de minha Bisa (Outra mãe maravilhosa) fomos crescendo e nossa situação melhorando até ela casar denovo, com um segurança.
Meu padrasto foi um presente. Passamos a ter coisas que outras meninas da nossa idade tinham e não faltava alimento em casa. Ele pagava as contas e nos criava. Até os dois terem meu irmão mais novo.
Aos 15 anos saí de casa e fui trabalhar e morar de aluguel. Por duas vezes voltei a morar com eles por conta de crise financeiras.
Ela me ajudou todas as duas vezes. E consegui me erguer, por causa dela.
Casei e lhe dei netos.
E desde então, minha meta é fazer minha mãe sentir mais do que a dor que compartilhamos naquela época. Compartilho tudo que posso, dou-lhe presentes, mimos, a levo pra passear e comer fora. Passamos muito tempo juntas e nos falamos todos os dias.
Desde que ela casou, teve um refrigério. Pôde realmente viver sem se preocupar com o que comeria.
Sou grata por ter me criado com toda educação e valores que hoje passo a meus filhos. Agradeço até pela situação que vivemos, porque doía mais nela como Mãe. E hoje não quero vê-la chorar a nao ser de felicidade. Hoje a meta é fazê-la muito feliz.
Eu também tive momentos de dificuldades financeiras como Mãe. Se aguentei firme e consegui passar foi porque ela aguentou firme e ficou do meu lado.
Minha mãe sempre foi companheira, amiga, conselheira e carinhosa. Hoje é a melhor avó para meus dois filhos. E melhor avó para o filho de minha irmã.
Hoje vivemos uma boa vida. Porque Deus tinha um plano para ela, teve para mim e minha irmã também. Nós 3 somos casadas, temos nossa vida estável e, acima de tudo, temos uma a outra.
Minha mãe só foi descobrir que eu sabia o real motivo de não comermos aquele fubá àquele dia á alguns anos depois, eu já estava adulta e tinha dado um neto a ela.
Choramos juntas quando contei que eu tinha visto e que lembrava de tudo, até de suas lágrimas, mas desta vez compartilhamos a alegria de termos sobrevivido.
A mulher, Mãe, Irmã, Esposa e filha que sou hoje é por causa dela.
Sobre a tia que havia feito aquilo, não guardamos rancor. Aprendemos que só damos o que temos, e se damos amor, é porque temos. E minha tia nao tinha amor. Não temos muito contato, mas soube que ela sofre com os 3 filhos que se tornaram pessoas horríveis. Enquanto a irmã que ela humilhou tem orgulho das duas filhas e da família forte que construiu.
Não é sobre desejar o mal a quem te fere, é sobre seguir em frentr e deixar Deus fazer justiça.
Minha meta de vida ainda é dar tudo que ela merece. Minha mãe, Cristiane, é minha Rainha e merece todo amor e jóias do mundo.