Só de olhar para aquele belo rosto eu sabia que não era real o que eu estava vendo, afinal de contas Marie não estava mais aqui, ainda me lembrava da comoção que foi o enterro, da dor, e mesmo os outros me dizendo que o tempo curava tudo, ainda tinha minhas dúvidas, afinal ela ainda estava lá, e sempre parecia tão real.
Emocionado levei minha mão lentamente ao seu rosto delicado, estava tão emocionado que as malditas lágrimas não deixavam meus olhos, e isso acabava me incapacitado de ver com perfeição todos os seus traços, mas eles deviam estar lá, não e mesmo ?
Ainda me lembrava dos grandes cabelos vermelhos, seus olhos verdes, as sardas próximas ao nariz que ela tanto reclamava, mas que eu achava um charme, e da boca carnuda, mas antes que pudesse ter ela em meus braços, veio a maldita luz seguido do som de freios, e em seguida a escuridão.
…
Como sempre eu acordo suado, e com o coração saindo pela boca, das cobertas já não haviam nem sinais sobre minha cama, podia ouvir vagamente o som de batidas na minha porta, e o som de vozes.
— Por favor, por favor meu filho, você tem que seguir em frente.
Era a voz chorosa da minha mãe, me doía tanto vê-la daquela forma, mas como ? Como eu poderia seguir em frente quando eu só fiquei para trás ?
Marie me deixou naquele trágico acidente de carro a seis meses atrás, foi tudo tão repentino, e tudo culpa de um idiota embriagado que não ficou muito tempo atrás das grades, o que devia ser uma piada cômica do destino do tipo, seja imprudente, tome uma vida, e fique apenas algumas semanas atrás das grades, mesmo que deixe a vida de muita gente uma merda por causa disso, inclusive a minha.
Eu estava no fundo do poço, e sem sinal algum da luz prometida no final dele, na verdade eu achava que era impossível ter fim.
Foi por isso que permaneci em silêncio diante do apelo de minha mãe, e tentei voltar a dormir um pouco.
Ou juro que tentei, por que diante dos primeiros raios de sol, eu já estava de pé, minhas olheiras estavam tão profundas que não duvidava nada que mais um pouco e chegariam ao meu cérebro, mas tanto faz, perguntas do tipo como estou, ou como vou ficar deixou de fazer importância na minha vida.
Apenas sigo o meu caminho, me arrumo de qualquer forma, e desço antes que os demais pudessem dar algum sinal de vida, e vou direto comprar bebida.
Essa tem sido minha rotina desde que ela se foi, levantar antes de todos, comprar bebidas com o dinheiro que devia ser usado para construirmos um futuro juntos, encher a cara, e voltar para casa para ter mais pesadelos.
Trabalhar já nem sabia mais o que era isso, eu sou um encosto total para a minha família nessa fase, talvez eu pudesse usar todo o dinheiro que havia guardado para algo mais útil do que beber, mas eu era fraco demais para ficar sem, um verdadeiro covarde, mas não podia fazer muito quando não se visse a minha coragem em canto algum.
Como os bares a essa hora não eram abertos, fui direto a um supermercado que tinha por perto mesmo, e comprei logo dois pacotes de cerveja da primeira que vi, sem me importar com o nome e preço, estava ávido pelo pouco de paz que o álcool poderia me dar, mesmo que passageira.
Assim que paguei por elas, fui em direção a uma pequena praça que havia ao lado, me sentei em um dos bancos, e me preparei para abrir a primeira.
Já havia perdido a conta de quantas latinhas eu havia tomado, quando notei que a praça estava mais movimentada do que eu me lembrava que era costume.
Estava tão perdido no meu mundo que só consegui situar o que estava acontecendo, quando duas meninas passaram por mim conversando.
— Nossa amiga, o festival esse ano está incrível.
" Merda, então era hoje o maldito festival ? Como eu poderia ter paz em meio a um festival ? Eu preciso do meu silêncio e da minha solidão ".
Frustrado eu recolho as duas últimas latinhas, e vou em busca de um lugar mais tranquilo. Só que meu estado de embriaguez parece que não quer concordar comigo, por que nos meus poucos momentos de lucidez, eu reparo que os números de pessoas aumentam a cada vez mais, mas de repente eu estava cansado demais para voltar atrás, e resolvi parar pensando que talvez exista um lugar por aqui onde eu possa não ter que ser sociável com ninguém, mas de repente minha mente muda de foco quando ouço.
— Barraca dos desejos, venham e façam seus pedidos por apenas uma moeda de prata, e satisfação garantida, ou seu dinheiro de volta.
Se eu estivesse em meu estado normal, jamais cogitaria a ideia de entrar ali, afinal era impossível acontecer o que eu desejava, mas esse coração destruído se animava com qualquer possibilidade, então me aproximei.
O homem que estava fazendo propaganda se curvou levemente quando eu passei, no entanto sequer reparei em seus traços, mas também com essa visão turva duvido que conseguiria.
A barraca dos desejos era algo escuro e cheio de fumaça, por alguns segundos pensei estar alucinando, quando vejo um homem sentado perto de uma bola de cristal.
— Olha só o que temos aqui, um freguês, em que posso ajudar.
Com as mãos tremendo pego a minha última moeda do bolso e ofereço a ele dizendo.
— Quero Marie de volta, por favor, traga meu amor para mim.
Minhas lágrimas começaram a cair, dificultando ainda mais minha visão, quando ele falou.
— Um coração partido por conta de uma partida inesperada, lamentando mas é impossível trazer os mortos de volta à vida.
— Por favor, eu tenho dinheiro — ergui minha mão para que ele tivesse uma melhor vista.
— Mortos não podem ser trazidos de volta, mas posso te levar de volta, aí caberá somente a ti evitar a morte.
Voltar, voltar onde ? No tempo ? Eu definitivamente devia estar delirando, mas quem se importa ?
Foi tudo que pensei quando falei " Eu quero " é uma fumaça escura começou a cobrir o lugar, e era como se eu tivesse acordando ?
Levantei em um pulo e levei minhas mãos só coração, eu definitivamente estava assustado, mas aquele lugar não parecia meu antigo apartamento ? Mas como se eu me desfiz dele a muito tempo.
Eram tantas as questões em minha mente que viraram pó quando mãos suaves me tocaram, e uma voz doce falou.
— Teve um pesadelo querido, calma, respire, não foi real, está tudo …
Antes que ela pudesse terminar de falar, me virei e a abracei forte, era minha Marie, minha Marie estava aqui, então era certo que toda aquela dor devia ser um sonho certo ?
Mas era uma preocupação que passou longe quando tomei seus lábios com os meus avido de saudades, tanto que nem percebi quando vozes sussurram em meio a quietude da noite.
— Não sei por que você ainda aceita o pedido, ele sempre comete os mesmos erros.