Abri os olhos rapidamente.
A visão era tão clara e nítida, que por um momento deixou turvo meu olhar.
Me vi em um lugar diferente, onde eu estava? O sentimento era de alguma forma familiar.
Estava no quintal de uma casa, de aparência simples. Algumas pessoas passaram por mim, olhei rapidamente para os lados, eu com certeza conhecia aquele lugar, quando me virei me assustei ao me deparar com uma árvore, era uma enorme árvore linda, tomava todo o quintal, estava repleta de frutos amarelos que pareciam tão saborosos e apetitosos só de olhar.
Observei mais claramente ao meu redor, percebi que aqueles rostos não eram tão desconhecidos, me lembravam de parentes distantes cujo contato eu já não mais tinha. De repente, de dentro daquela casa saiu um homem tão alto, eu me lembrava dele.
Como eu poderia me esquecer daquele caminhar?
“Papai!”
Gritei a todos os pulmãos e corri em sua direção, percebi que meus passos eram tão curtos, olhei para as minhas mãos, e elas eram tão pequenas, espera um pouco... Eu sou criança de novo!
Meu pai abriu os braços pra mim, pulei em seu colo com toda a minha força, que sensação é essa? É um sentimento indescritível, me sinto como um cavalo solto em um pasto onde pode correr livremente sem amarra alguma. Uma liberdade genuína, como se eu estivesse no lugar mais seguro do mundo, e não tivesse mais nada com o que me preocupar.
“O que foi? Está com fome? Vou preparar a carne, vamos comer já já.”
Ele falava com uma voz tão calma, será que é porque sou criança de novo? Apenas quero ficar nesse abraço pra sempre, não me importo se nunca mais voltar a ser adulta, apenas quero ficar aqui.
Estava tão feliz que nem percebi outra pessoa se aproximar.
“Ora ora, quem acordou! Ficou cansada de tanto brincar?”
Mãe! A senhora era tão bonita assim? É como se o tempo nunca tivesse passado... Cada traço, cada ruga, cada pequeno sinal, seu rosto é exatamente como eu me lembrava. A mulher mais linda do mundo.
“Mãe! Que saudade!”
Corri para aqueles braços tão finos e frágeis, que me seguraram e levantaram como se eu fosse uma pequena e leve pena, meu agarrei naquele colo com toda minha força, mas que cheiro é esse? É como um cheiro de nostalgia e saudade, eu não me importo com mais nada, nunca mais quero deixar esse lugar.
“Saudade? Você só dormiu por uma horinha! Teve um pesadelo?”
Quando a ouvi dizer aquilo, um imenso nó se formou em minha garganta, mãe... Você acreditaria se eu contasse? Meu pesadelo foi tão terrível, que eu não ousaria contar pra ninguém, tenho medo que se torne verdade novamente, agora que recebi mais uma chance, apenas quero ficar pra sempre nesse lugar. Por favor Deus... Me deixe ficar aqui.
Nesse lugar onde o tempo parece nunca passar.
“O churrasco vai ficar pronto já já, pode ir brincar mais um pouco.”
Meu pai me disse compreensivo, mas eu não quero sair de perto de vocês, não quero brincar, não preciso de mais nada!
Mamãe me colocou no chão, e em um rápido reflexo eu vi algo, e olhei para aquela grande árvore, percebendo que tinha uma pessoa ali.
Levei um susto enorme! Era eu! Era meu eu adulto, escondido atrás dos galhos, olhando para mim com olhos tão aflitos, tão doloridos, era como se não fosse preciso palavras, eu sabia o que ela queria dizer. Eu sabia, mas mesmo assim...
Olhei para os meus pais de novo, eu queria ter forças para falar, mais sentia que as lágrimas cairiam se eu falasse qualquer coisa. Rapidamente busquei meu eu adulto, ela me olhou profundamente, com olhos tão apreensivos, que pareciam querer me apressar.
Como se dissessem ”Rápido! Você tem que dizer! Rápido, diga!”
O que eu digo? Agora eu tenho a chance de dizer o que sempre quis. O que eu digo? Eu preciso dizer!
“Mãe... Pai.”
Após reunir todas as minhas forças, os chamei, eu precisava dizer aquilo, será essa a segunda chance que a vida me deu? Pra eu voltar para esse lugar?
“O que foi querida? Pode falar.”
Minha mãe falava tão amorosa, como eu senti falta dessa voz, é como uma melodia única, que preenchia a minha vida com uma sinfonia de amor.
“Me desculpa... Mãe, pai! Me desculpa!” Me perdoem, por favor...”
Antes que eu percebesse as lágrimas caíram tão rapidamente... Junto com aquelas palavras, mas não era isso que eu queria dizer, eu queria dizer o quanto eu os amava, será que eu tinha tanta culpa assim alastrada dentro de mim?
Meus pais me olharam tão confusos, sem entender.
Eu não queria ter dito isso, mas agora em meio as lágrimas, parece que não há mais nada que eu consiga dizer.
“Desculpa pelo que querida? O que há pra se desculpar?”
Ouvi minha mãe responder, e rapidamente olhei para cima, ambos me sorriam tão lindamente. Pareciam me dizer que estava tudo bem, aquelas palavras que eu não esperava, pareciam como tudo que eu sempre quis ouvir, fui tomada por um imenso alívio, como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros. Eu apenas sorri brilhantemente.
Olhei pra trás e vi meu eu adulto, agora sorrindo pra mim, um sorriso tão triste... Uma expressão que parecia ter tanto a dizer, mas que não diria nada.
Que não podia dizer nada.
Ergui os braços para os meus pais, e eles me pegaram.
“Eu amo vocês. Obrigada por tudo.”
Sussurrei baixinho, tão baixinho que talvez eles nem tenham ouvido, agora foi mais fácil de dizer. Fechei meus olhos naquele abraço, naquele cheiro tão nostálgico, naquele amor tão grande...
E quando os abri novamente, me deparei com o teto do meu quarto. Ergui minha mão, a vendo tão grande, um sentimento de tristeza inundou meu corpo instantaneamente.
Levantei devagar, meus olhos ainda não conseguiam focar direito. Sem querer, meu cotovelo derrubou um porta retratos que estava em cima da minha cômoda.
Um triste sorriso se formou em meu rosto ao ver ali minha foto favorita do mundo...
A segurei firme, com as duas mãos, era um retrato do passado, de um dia caloroso de domingo.
Eu entendi... Estou no hoje.Todos os dias, apenas eu estou aqui.
Foi apenas um sonho. Um sonho tão vívido.
Onde eu sonhei com aquele pé de carambolas que por mim, há muito tempo, já havia sido esquecido.
FIM.