— Escute minha voz, agora, acorde, agora. Escute - me. Escute a minha voz.
Me despertou no pulo, em frente ao computador no qual trabalho, planilhas para preencher, ligações a fazer. Sozinho numa sala no qual não me lembro de como cheguei até aqui. Apesar do computador.
— Escute-me.
A voz novamente fala comigo. Olho para o teto todo branco com uma luz toda escrachada em minha cabeça.
A tela do computador se liga sozinha, com uma frase "A insuficiência, a sua voz, o desespero interno que corrói os aldeões do castelo, castelo? Construções em si mesmo, fortificadas na sua mente"
Escuto uma respiração atrás de mim, devagar olho para atrás, e uma mulher de vestido sujo e rasgado olhando para mim, seus olhos focam em meu rosto, sem se desviar. Seus cabelos negros todo bagunçado, lábios curtos e serenos, olhos castanhos, altivos.
— Escute - me. — Ela diz, olhando para o computador.
Uma ligação cai, eu rapidamente coloco o meu megafone para atender o cliente.
— Alô? Falo com Vilma? — Eu digo, e uma forte respiração por trás da linha é um breve preparo para dizer alguma coisa para mim.
— Vocês me ligam, não aguento mais, seus merdas, PAREM, PAREM, PAREM, PAREM, PAREM.
Me afasto no Pc, respirando fortemente escutando aquela voz cheio de ódio mortal por mim. Ando para trás sem notar que a moça me segura pelos ombros.
— Acorde.
Meus olhos se abrem. Me encontro numa sala toda vermelha, sem janelas, sem portas, sem nada. Nem mesmo aquele computador bizarro que estava a minha frente. Só vejo vermelho, apenas o vermelho. E uma das paredes refletem a minha imagem. Me aproximo desta estranha figura de mim mesmo à minha frente. Levo meu dedo em direção a parede. Toco nela, e consigo atravessa-la. Meus braços passam por ela como se eu estivesse mergulhando numa piscina, e ao passar para o outro lado, vejo um grupo de seis pessoas sentadas no chão em frente ao computador.
Todos eles seguem sentado em sincronia, com os cabos do Pc conectados na cabeça deles.
Que cena asquerosa. Seus olhos estão fechados numa completa imersão mental que eles vivem. Caminhando vejo que um cabo está faltando, falta alguém conectado a esse cabo. Então seria sete pessoas no caso?
A sala não é toda vermelha como a outra, ela é escura, e vejo apenas essa cena, com mais uma porta atrás do grupo. Sigo até ela e tento abri-la.
Ao entrar, noto que a sala tem vários desenhos de olhos que se movimentam. E no meio delas, vejo uma frase "Você precisa despertar"
Tudo é tão confuso, tão abstrato, tão incerto, tão inseguro. As formas de cada olho que me vê refletem os terrores que há dentro de mim. Despertar, o que isso significa? Por certo, me sinto dentro de um sonho sinistro com várias aleatoriedades. Os olhos amarelos, raivosos e cheios de julgamento nas paredes.
Todos os olhos desenhados na parede se juntam, se misturando entre si, e todos formam uma figura de "x" vermelho na parede, que se tornará escura destacando somente a palavra.
— Você viu tanta coisa em tão pouco tempo, você viu abstrações de sua mente, resquícios do seu trabalho, pessoas em seus medos, olhos que o analisam o tempo inteiro, isso o deixa flutuando na sua dor. Sim, ela o esmagará — Escuto a voz fria e seca em meus ouvidos, sem forma e sem corpo, dentro desta sala escura
— O que é tudo isso exatamente?— Pergunto na esperança de receber uma resposta, nem que seja vaga, mas uma resposta.
— Pense, essa não é uma história, são apenas uma sequência de acontecimentos gerados da sua mente.
De repente tudo ficou escuro de novo, como um vazio engasgado dentro da minha alma. Vejo sons de alguém teclando no computador mas não vejo ninguém. Caminho curtos passos a frente tentando encontrar a origem do som. E uma luz ganha sua forma e vejo um homem de frente ao computador com fone em seus ouvidos conversando com alguém. Ao lado dele vejo silhuetas de três pessoas o vigiando, murmurando alguma coisa que ainda é inaudível para mim, me aproximo mais.
— Argumente.
— Bata metas.
— Você não vai conseguir.
— Você é incapaz, você é gago.
— Argumente! A sua ligação está horrível.
— Inacreditável, horrível.
— Você não pode trabalhar aqui, seu imprestável!
Essas palavras despertaram em mim choque no qual não esperará, são sentimentos que sinto, vozes que ecoam pela minha cabeça. Estou entendendo esse lugar. Meu coração fica apertado pela tamanha angústia, ansiedade, uma respiração fica ofegante em meu ser, mal consigo respirar direito. Mentiras, mentiras e mentiras. O homem no computador escreve com mais rapidez, chegando a usar a força com mais exagero e a bater com as mãos no teclado. Dou passos para trás, a mão dele sangra e a silhueta de três pessoas se afastam do homem, que no momento está gritando, suando, surtando em sua total loucura. Ele libera um grito desesperador dentro da sua alma.
— Controle-se, desperte do seu medo. Acorde. Eu estou com você — Eu fico sozinho com aquele homem, e uma voz suave disse essas palavras aos meus ouvidos. E no lado do rapaz que continua surtando, um buraco se abre na parede, e me atrai, sou levado a entrar naquele buraco que se abriu na parede.
Jogo meu corpo e me arrasto com dificuldade dentro dela. Arrasto e arrasto, tentando descobrir se vou achar uma saída, e uma luz que se assemelha a luz do dia fica no fim deste buraco. Me aproximo, chego perto, estou próximo da luz…. Vejo seis silhuetas…. Uma cabo… Uma carta…. Eu despertei….
"Caro senhor Jeremiah
O seu pedido para o novo tratamento de Psique Emocional Enclauso foi um sucesso, conseguimos conter e apagar as suas emoções, principalmente a sua ansiedade. Contudo houve falhas no teste, quando acordar, espero que leia essa mensagem, lançaremos esse programa para a Austrália. Mesmo com falhas técnicas, arrumaremos até lá, você saberá que deu certo… Caso acorde.
Direção de SUT"
FIM