Liberty, o nome que mamãe me deu em meu segundo dia de vida. Ela sempre dizia que me queria livre, sem medo para viver e ser quem eu quisesse ser, mas a medida que eu crescia, mais medo ela tinha disso.
Aos quinze, confidenciei meu segredo:
“Estou apaixonada por Carolina” eu disse. E a partir daí, ela temeu cada dia.
“Não conte a ninguém.”
“Esqueça isso!”
“Vai passar.”
Tudo me soava como: Não seja você.
Ela dizia que tinha medo do mundo, mas parecia que tinha medo de mim. Assim, me escondi até seu último suspiro, quando eu tinha dezoito.
De início a mudança pareceu assustadora. Eu costumava falar com meu pai por ligação ao menos duas vezes ao mês, desde o divórcio, quando eu tinha quinze. Ele se mudou e desde então embarcou na onda, literalmente, do surf. Com a morte de mamãe decidi viver com ele. Sua casa, em uma cidade praiana, parecia mais uma casa de férias, não parecia que alguém vivia alí todos os dias de suas vidas com o mar no quintal. Papai costumava participar de competições pequenas de surf, mas no verão as ondas ficavam menores, por isso cheguei em sua fase tranquila, quando ele dedicava mais tempo ao quiosque na praia.
Os amigos dele eram “uma onda” como eles mesmos diziam. Engraçados e me faziam sentir bem confortável. Eu não precisava de muito tempo junto pra saber que amava o lugar e gostava das pessoas.
Era aconchegante e tinha a cara de liberdade.
POV RUANA
Sabe quando você acabou de sair de um relacionamento e seus amigos estão obcecados em te ajudar a superar? Não que eu estivesse em casa chorando as pitangas, mas é compreensível terminar um namoro e preferir não frequentar os mesmo lugares que a ex, pelo menos no primeiro mês. Eu queria meu espaço, voltar a me reconhecer.
Quem era a Ruana de antes? É complicado depois que você encaixa a própria vida a de alguém por tanto tempo. Eu não amava mais ela, isso era bem óbvio, mas finais são complicados mesmo assim.
— Sol, mar, praia fervendo no verão de Maresia. É disso que você precisa, minha amiga — dizia Gustavo terminando de colocar a prancha no teto do carro.
— Sabe que não tem onda, né? — falei e ele mostrou a língua.
— Precisa de muita cachaça também! — Lua balançava duas garrafas em frente aos peitos enquanto saia da casa.
— E beijar umas gatinhas — completou Lucca, jogando a mochila no porta malas.
O percurso até Maresia era de duas horas e foi bem tranquilo, apesar da quantidade de gente que também tava indo pra lá. O que era normal no verão.
Nós apenas jogamos tudo no Airbnb, pegamos protetor, dinheiro e seguimos pra praia. Tivemos sorte de chegar antes de começar a loucura que aquele lugar fica na temporada. A praia ainda não estava tão cheia.
— Aquele quiosque é de um cara muito maneiro. Lembra que bebemos lá na última vez que viemos, Ruana? — falou Gus e confirmei enquanto seguiamos até lá.
— Vão na frente, tenho que usar o banheiro — falei seguindo pela lateral do quiosque.
— A gente acabou de sair do Airbnb! — gritou Lua.
Eu não parei para ouvi, já estava quase chegando na parte de trás, onde ficavam os banheiros, quando a porta lateral foi aberta de uma vez e alguém praticamente se jogou encima de mim.
Senti no corpo a cerveja gelada, descendo por minha barriga e se infiltrando em meu short.
— Cacete! — exclamei.
— Puta merda, desculpa, desculpa — repetia ela e só então levantei o rosto para olhar.
Ela parecia pálida demais para quem trabalha na praia. Baixinha, com cabelos presos, porém bagunçados. E rindo de nervoso.
— Linda — pronunciei sem querer.
— O quê? Ah meu Deus, eu sinto muito mesmo!
— Relaxa, não foi nada.
— Liby? — Se aproximou Betto, o cara que eu sabia ser o dono do quiosque. — O que rolou? — Ele analisou a situação.
— Perdão, fui desatenta — falei.
Não ia deixar a menina levar uma bronca do chefe. Provavelmente estava começando.
— Tudo bem eu conheço a filha que tenho, ela é meio desligada. — Ele riu.
— Pai! — reclamou ela fazendo um bico. — Desculpa mesmo, ta?
Pai? Ok né.
— Relaxa.
Eu fui no banheiro e quando voltei encontrei meus amigos bebendo sentados embaixo de um guarda sol. Bebemos, conversamos e tomamos banho de mar, como sempre fazíamos. Como a praia já estava lotada e meus amigos não tinham paciência, iam buscar as bebidas no balcão do quiosque, até que o álcool fizesse efeito e eles simplesmente começarem a pedir. Eu fiquei na esperança de ver a baixinha de antes, mas aparentemente ela não estava mais servindo.
— Crianças, hoje a noite vou fazer um luau aqui. Vai ter roda de música, bebida liberada e uns petiscos — falou Betto servindo as bebidas. — Vocês estão convidados.
Claro que todo mundo ficou animado. Me perguntei se a menina desatenta estaria presente. Não sei porquê ela não saiu mais da minha mente. Eu nem tava afim de me envolver com ninguém, queria só curtir um pouco e esquecer esse lance de relacionamento. Não que eu estivesse já pensando em relacionamento com ela. Enfim, era estranho me ver solteira de repente. E mais estranho ainda que a primeira garota com quem esbarrei já prendesse minha atenção dessa forma.
POV LIBERTY
Terminei de fazer a trança em meu cabelo e depois dei batidinhas em meu batom, tentando espalhar melhor.
— Ta bonita — disse meu pai me assustando.
— Obrigada. — Sorri sem jeito.
— Já encontrou um paquerinha?
— Pai! — Ele gargalhou antes de sair da porta do quarto.
Papai não sabia sobre eu gostar de garotas, mamãe nunca me deixou contar. Mas eu não sabia como dizer que a única pessoa que chamou minha atenção alí, era a garota com olhos cor de amêndoas. Ela tinha um corpo bronzeado, bem definido e aparentemente tinha alguns anos a mais que eu.
Nunca fui do tipo que batia o olho em alguém e já me sentia interessada, mas ela e aquele olhar me tiraram do sério. Me perguntei se ela estaria no Luau e por incrível que pareça, eu mal coloquei os pés na areia e lá estava a dona do olhar mais lindo que já vi na vida. Ela me olhou e eu até esqueci como andar.
A roda de música já tinha começado e meu pai era quem tocava violão. Sentei ao lado dele, mas minha atenção estava sempre indo para ela, que sentou com os amigos do outro lado da roda.
As faíscas da fogueira entre nós atrapalhava minha visão, mas ao mesmo tempo ajuda a não deixar tão óbvio quando meus olhos insistiam em ir para ela. Até que em determinado momento nossos olhos se em entraram e eu estremeci ficando sem jeito.
Levantei, indo procurar uma bebida, mas como não costumava tomar nada alcoólico, abri o isopor onde havia água e quando estava prestes a pegar uma garrafa alguém foi mais rápido, colocando o objeto diante de meus olhos.
— Você não bebe? — Meus olhos seguiram a mão até encontrar seu par de amêndoas que brilhavam devido ao fogo das tochas, ao redor daquela área da praia onde estávamos. — Porque não gosta, ou não tem idade? — perguntou.
— N-não gosto — respondi recebendo a garrafa.
— Seu pai arrasa — disse enquanto virávamos na direção da roda onde papai tocava e cantava.
— É.... Ele é muito bom. — Sorri.
— Eu nunca te vi aqui antes.
— Me mudei faz pouco tempo... — Ela pareceu esperar que eu dissesse mais alguma coisa. — Antes vivia com minha mãe, mas... Enfim, agora estou por aqui.
— Ta gostando? — Confirmei. — Deve ser legal viver aqui.
— Você é de onde?
Nós começamos a conversar sobre nossas vidas e assim sentamos na areia. Ela falou um pouco sobre trabalhar numa agência de marketing e eu sobre minha nova vida na praia. A conversa fluiu de uma maneira surreal, mesmo que claramente fossemos muito diferentes. Nós falamos um pouco sobre tudo e não vimos o tempo passar.
Quando dei por mim o pessoal já estava indo embora e os amigos chamando ela.
— Te vejo amanhã aqui? — perguntou ficando de pé e eu confirmei.
Quando deitei na cama minha mente só tinha ela, seu sorriso e o jeito de me olhar.
No dia seguinte dormi demais, por isso demorei a descer para o quiosque, mas quando cheguei, lá estava ela saindo do mar, só de biquíni. Eu acompanhei tudo em câmera lenta, até sua aproximação.
— Você demorou — falou com um sorriso, se encostando ao balcão. — Já estou quase indo embora, o pessoal quer ir em outra praia.
— Outra praia?
— Quer ir com a gente?
— E-eu não sei...
— Vai lá, Liby! — disse meu pai me assustando. Eu nem percebi que ele entrou no quiosque.
Ela me apresentou aos amigos, Gus e Lucca que eram um casal e Lua. Eles encheram um isopor com bebida e nós saímos pelas estradas de terra de Maresia, em busca de uma praia que eu sabia ser bem pouco frequentada. Todos eram super divertidos. Ri praticamente o caminho inteiro.
A praia La Bela, de fato ficava bem distante. E além do percurso de carro, tivemos que fazer uma caminhada até sermos agraciados pela vista incrível do mar tranquilo, com água cristalina. Todos correram na frente e nós duas, que levávamos o isopor, ficamos para trás.
— Não parecem crianças? — Riu ela observando os amigos entrando no mar.
Nós colocamos o isopor no chão e ela me olhou.
— Devia tirar essa camiseta.
Eu fiquei sem graça, mesmo assim retirei minha blusa e assim como ela fiquei apenas com short e a parte de cima do biquíni.
— Vem, vamos dar uma volta.
Nós seguimos pela beira da praia, as ondas batendo em nossos pés. Não muito longe havia um paredão de rochas, antes dele muitas pedras. Nós seguimos conversando, eu contando tudo o que meu pai me contava sobre o lugar, até nos aproximarmos das pedras, eram altas, por isso não dava para ir além ou subir com facilidade, não que nos quiséssemos subir. Na verdade, eu não tinha entendido o motivo de termos ido tão longe, até ela me pegar de surpresa, puxando pela cintura, nossos corpos se chocando e logo eu estava com as costas contra a pedra.
— Eu realmente espero que não seja coisa da minha cabeça... — disse ela antes de me beijar.
Apesar de pega de surpresa, correspondi, infiltrando meus dedos em seus cabelos da nuca. Seu beijo tinha gosto de menta e mar. Bom demais. Eu me perdi em cada movimento de nossas línguas, até pararmos aos poucos, finalizando com um selinho.
— Você ainda duvidou se eu queria? — perguntei quando ela afastou me olhando e sorrimos antes de voltar a nos beijar.
Nós ficamos um tempo ali. Eu não queria mais parar de beija-la. Era bom demais. O problema é que seus amigos começaram a chamar, pareciam preocupados. Nós voltamos rápido e quando chegamos vimos que Lucca fez um corte feio no pé, por isso precisamos voltar e fomos com ele até o hospital.
— Levou alguns pontos — dizia Ruana enquanto nós duas saíamos do hospital, os outros já estavam praticamente no estacionamento. — Acho que eles vão querer voltar mais cedo pra casa.
— E você vai também? — Ela não respondeu, mas deu pra entender que sim. — Fica comigo hoje, então — sugeri, tirando coragem não sei de onde.
Eu só precisava de mais tempo com ela. Por isso nós aproveitamos cada segundo do resto do nosso dia. Já eram três da tarde, mas fomos almoçar em um restaurante de frutos do mar. Era simples e pequeno, ficava perto da minha casa, mas muito aconchegante.
— Olha isso — Ela movia as patas da lagosta me fazendo gargalhar.
— Boba!
Ruana era bem divertida e muito atrevida, me beijava sem aviso prévio, onde quer que estivéssemos, mesmo enquanto estávamos olhando os artesanatos nas lojinhas.
— Para! — murmurei nos lábios dela que sorria mordiscando meu lábio, mas ouvimos a vendedora se aproximar e ela afastou-se rapidamente.
Nós assistimos ao por do sol na praia, num lugar um pouco afastado do resto das pessoas que também apreciavam a vista no fim de tarde. Foi só a metade de um dia, mas foi perfeito cada segundo.
Eu nunca imaginei viver algo assim, rápido e imenso.
— Que carinha é essa? — perguntou meu pai durante o jantar. — O estrogonofe tá ruim?
— Não, tá ótimo.
— Então o que rolou? Foi aquela menina da praia? Ela te dispensou?
— O quê? N-näo... Pai...
— Filha eu sei, sua mãe me contou há anos. E tá tudo bem.
Aquela sensação era completamente nova para mim.
— Então... — continuou. — A menina lá...
— Ela é incrível. — Dei um breve sorriso, olhando meu prato. — Mas vai embora amanhã.
— E o que cê tá fazendo aqui? Podia tá curtindo a noite com ela.
Eu ri.
— Não é bem assim, ela tá com os amigos e... Sei lá.
— Trás ela aqui. Eu tava mesmo querendo sair com os caras hoje.
— Pai? — Nos encaramos. — Eu te amo! — Fiquei de pé e após dar um beijo na bochecha dele, saí rapidamente.
Ruana tinha me dado o endereço do Airbnb e o número de celular, por isso fui até lá e mandei mensagem. Eu sabia que estava no quarto porque combinou com os amigos de ficarem curtindo no lá mesmo, já que Lucca não estava bebendo e desanimou devido ao ocorrido. Ela não demorou a sair e seu sorriso lindo enquanto se aproximava me deixou ainda mais boba.
— Você aqui? Quer se juntar a nós? Estamos em meio a uma partida de UNO. — Riu.
— Na verdade vim te roubar deles.
Ela franziu o cenho, mas quando fiz o convite para dormir em minha casa, aceitou na mesma hora.
Esse foi sem dúvidas um dos melhores verões da minha vida. O tempo que passei com ela, mesmo curto, pareceu mágico. E eu com certeza vivi cada segundo da forma mais real e intensa possível.