Renan estava parado naquele corredor de hospital, ouvindo do médico responsável pelo caso de sua esposa Nataly, ele não conseguia se concentrar em nada além do sorriso dela que ainda parecia ser muito vívido em sua memória.
Mas Renan sabia que era uma luta trabalhar para manter isso, já que em três meses corridos tudo o que ele tinha dela era aquela visão sem vida, de um corpo acamado cheio de aparelhos e com uma projeção inexistente de vida. E no fundo do sorriso dela, como o background das lembranças do porquê ela sorria, tinha o pequeno Jhon e sua expectativa.
O maior erro do ser humano é criar promessas... promessas criam expectativas e expectativas podem gerar satisfação, felicidade, animação, entre outras coisas muito boas, mas em contrapartida pode gerar decepção e todo mundo sabe que sentimentos negativos sobressaem por completo o oposto.
O que fazia com que Renan sentisse como se estivesse levando facadas diretas no coração, porque havia prometido ao filho que Nataly voltaria.
Agora ele era o responsável por levar o desapontamento à criança de apenas cinco anos, mas o que podia fazer? Esteve mais perdido que qualquer outra coisa ou alguém no labirinto que estava sendo sua vida, não conseguiu formular racionalmente qualquer resposta para quando seu filho Jhon perguntou se a sua mãe voltaria logo, talvez Renan apenas tenha respondido ao menino o que queria ouvir.
Renan e sua família queria que Nataly voltasse para sua casa, sã e salva.
Seus sentimentos e sensações se triplicaram conforme o doutor lhe explicava que tudo o que podia ser feito por ela, já havia sido executado de acordo com um protocolo de excelência, e que ali os médicos empenhados no caso da Nataly já havia chegado com um quadro passado do grave, eram os melhores do hospital.
Embora Renan tivesse consciência disso, seu lado emocional não conseguia lidar com aquela informação, ele até poderia pensar mas não naquele momento, naquele mesmo instante se ouviu a voz do médico dizer:
Médico: "Se passou o tempo previsto e amanhã procederemos com o desligamento dos aparelhos, como diz no documento assinado pelo senhor".
A vontade de Renan era de pegar o médico pelo colarinho e o obrigar a trazer sua esposa de volta, a trazer a mãe de seu filho Jhon de volta, pois Nataly merecia algo melhor do que se despedir de todos daquela forma, com sua vida cortada pela raiz quando muitas coisas se encaixaram e estavam vivendo o auge, até mesmo da vida como pais de primeira viagem.
— ...Senhor Alvarangue?
Renan ouviu a voz do médico um pouco mais alta e soltou o ar que estava preso, sentindo aquele aperto em seu peito.
— Eu sinto muito por isso, senhor Alvarangue…
Doutor Dênis levou a mão gentilmente no ombro de Renan.
— E-eu…
Renan gaguejou, sendo inundado por suas lágrimas.
— Aproveite o dia de hoje para se despedir… tome seu tempo para isso e amanhã conversamos sobre a parte burocrática.
Dênis disse recolhendo os papéis sobre doação de órgãos, Renan apenas suspirou e se manteve no lugar por um curto tempo em que o médico juntou os papéis e fez menção de retomar seu caminho para a direção contrária, que o levaria de volta para sua sala, entretanto Dênis sentiu em seu coração, um tanto calejado pelos anos de profissão, que deveria ser a luz para o esposo de sua paciente.
Naquele momento era tudo o que Renan Alvarengue precisava: alguém que iluminasse seu caminho, nem que fosse uma meia luz.
Dênis compreendia que o que havia acontecido com Renan, embora o tempo que Nataly estivesse ali já fosse o suficiente para que ele conhecesse mais sobre o casal e seu filho de cinco anos.
Ele não conseguia mais continuar sendo a pessoa responsável que daria as notícias ruins ao marido de Nataly, então de certo modo, aquele fim lhe causava um certo alívio, até mesmo porque Nataly encontraria sua paz e acabaria o sofrimento, todos poderiam seguir em frente.
— Eu não conheço muito sobre a história de vocês, Renan.
Doutor Dênis se aproximou mais um passo, colocando sua mão no ombro de Renan, tendo sua total atenção agora.
— Mas eu conheço sobre casos como o de sua esposa, não que tenha compreensão sobre o que de fato os tiram daqui dessa forma e no fim nenhum é o suficiente.
Dênis suspirou.
— E em casos como o dela, só o tempo poderá curar e explicar para você, porque ali…
Ele ohou para a direção do quarto de Nataly, vendo seu corpo em cima da cama, coberto por fios e sem vida.
—...Porque ali não tem a vida que você tanto quer que tenha.
Suas palavras eram duras, sim, mas era o que Dênis podia oferecer ao rapaz, nada além da realidade.
— Ela vai permanecer na sua vida por mais tempo que você achou que a teria, mas como uma lembrança incrível e o que vocês construíram se encarregará de te mostrar isso.
As lágrimas de Renan eram incessantes, assim como sua dor profunda, ele se sentia solto em um caminho imaginário e nada do que se passava em sua cabeça o ajudava, porque aquele sentimento de perda só o guiava em um caminho sem nenhum outro.
Amélia era uma enfermeira que já havia visto o pequeno Jhon mais animado em outros dias, o garotinho sempre aparecia na UTI e, dentre todos os anos de trabalho da chefe de enfermagem, era de se admirar e ver como Jhon era diferente dos demais.
Todos os sábados e domingos naquele lugar se tornavam mais alegres com o pequeno, mesmo que ele estivesse lá pelos motivos mais tristes possíveis.
Apesar de Jhon ter sua mãe em um daqueles leitos, o menino continuava acreditando em um mundo diferente e Amélia se sentia frustrada por como o mal do mundo podia ser cruel com crianças como ele, que não sabiam e nem tinham tempo para viver a realidade trágica.
— Por que não trouxe girassóis hoje, Jhon?
Amélia saiu de trás do balcão e parou apoiada naquele móvel, com uma mão na cintura, olhando para o garotinho que estava se aproximando.
Jhon parou de frente para a enfermeira, olhando para os próprios pés.
— Papai disse que hoje iremos levar os que estão aqui embora, então não deveríamos trazer mais.
Sua voz saiu baixa, diferente do costume, Amélia apenas encarou o pai dele, Renan estava péssimo e ela poderia dizer com tranquilidade que o homem não sabia o que era uma boa noite de sono há meses.
— Doutor Dênis deixou os papéis aqui em cima, senhor Renan.
A enfermeira suspirou, de forma sutil.
— Se quiser ter o seu tempo, eu entro com Jhon e vamos arrumando as coisas para vocês levarem.
Renan apenas balançou a cabeça em sinal de confirmação... depois de passar álcool nas mãos, Amélia pegou a tão pequena e macia de Jhon, o guiando para o quarto.
A criança entrou correndo quando ela abriu a porta de correr, impulsivamente o menino subiu na cama e se sentou perto dos pés de Nataly. Amélia não fez nada que o impedisse, já era um momento muito difícil para Jhon que tão pouco entendia, o mínimo que poderia fazer pelo garoto órfão era deixá-lo ter aquele momento.
Então a enfermeira começou a juntar os itens que decoravam o quarto, colocando na caixa que tinha ali perto da mesinha.
— Mamãe…
Ouviu a voz de Jhon, ainda baixa, começar.
— Eu perguntei para meu papai hoje porque não iríamos trazer girassóis e ele me disse que é porque você vai embora.
O coração de Amélia se apertou, olhou para o lado de fora do quarto, vendo Renan assinar os papéis em cima do balcão. Aquelas assinaturas permitiram que outros médicos tirassem de Nataly qualquer órgão que pudessem, para que outras pessoas tivessem uma nova chance, à chance que ela não teria mais.
— Então eu perguntei para ele porque você não poderia ir embora com a gente e porque o papai começou a chorar quando disse isso.
Jhon aumentou um tanto de sua voz, parecendo mais convencido.
— Ele me disse que é porque algumas pessoas precisaram de você em outro lugar e que agora você vai se transformar em uma estrela para cuidar de mim e do papai.
Amélia sorriu involuntariamente com a explicação, lembrando-se que as outras pessoas seriam aquelas que receberiam os órgãos de Nataly.
— Espero um dia poder conhecer todos eles.
Renan entrou neste mesmo instante no quarto, tentando limpar os olhos e encarando o filho. Amélia resolveu que seria sua hora de sair, levando a caixa com os objetos decorativos que juntou.
Dênis entraria por aquela porta a qualquer minuto para dar início ao processo de desligamento dos aparelhos e ela não queria encarar aquela cena envolvendo uma criança.
Os minutos se passaram e Renan não conseguia mais estar ali sem sentir que o seu mundo havia acabado, mas precisava se manter firme pelo filho, era sua obrigação como pai, de fato Jhon não tinha culpa.
Dênis entrou e trouxe com ele aquele ar pesado que ele tanto estava tentando evitar, Renan pegou seu filho no colo e o colocou em seu peito, enquanto o médico ditava o que faria.
Conforme os fios estavam sendo desconectados, Renan sentia que seu corpo perdia mais um sentido mas em contrapartida ele agora compreendia que ali era somente um corpo e que sua esposa não estava mais naquele ambiente.
Ele só queria imaginá-la em um ambiente feliz e com muitas, mas muitas, flores, principalmente girassóis.
O único barulho que se permaneceu naquele ambiente foi o do monitor, contando os batimentos de Nataly, que eram comandados pelo aparelho.
— Eu vou desligar e tirar o tubo, quando o corpo dela estiver pronto, o batimento some e o barulho fica continuo.
Amélia explicou, tentando não soar uma vilã para a criança que ouvia, odiava fazer aquilo, e odiava mais a presença dele ali, não era o lugar para se estar mas talvez fosse o que estava dando forças para Renan, portanto ela decidiu não deixar seu julgamento sobressair.
Jhon fechou os olhos, apertando o pai, Renan o abraçou mais forte pois sentia tanta falta da mulher que não conseguia mais pensar; não tinha mais coragem de ouvir a música escolhida pelos dois como representação do relacionamento; girassóis se tornaram suas flores mais odiada e em sua casa não havia mais presença nenhuma de amarelo ou qualquer coisa que se remetesse à flor.
Mas tudo isso ele sabia que era a consequência de seu luto, da sua dor e que o tempo seria capaz de o ajudar a superar aquela falta.
Renan iria se acostumar a dormir apenas com os lençóis e a ausência de sua amada esposa, assim como se acostumou com aquele barulho contínuo do monitor.
Apertou os olhos, sentindo-os inundados.
— Papai… nós ficaremos bem, minha mamãe vai cuidar da gente.
Jhon diz contra seu peito, disse com toda sua calmaria, como se soubesse que isso seria o combustível para guiar os dois.
FIM.