Lucy torna-se voluptuosa somente após ser mordida; Mina, nem mesmo depois
de seu encontro noturno com Drácula. Afinal de contas, segundo Van Helsing, ela tinha
o cérebro masculino, havia um pouco de razão nela. Mostra-se tão pura quanto a Virgem
Maria ou a protagonista de uma história de amor cortês. Lucy e as três vampiras, todavia,
assemelham-se às mulheres descritas no Malleus Maleficarum, o Martelo das Feiticeiras,
famoso manual de caça às bruxas. Segundo seus autores, a mulher é uma quimera. Seu
aspecto é belo, mas seu contato fétido e sua companhia mortal.
A única mulher merecedora de respeito é Mina, que demonstrava possuir
qualidades intrinsecamente masculinas. Van Helsing deixa isso bem claro ao dizer a ela:
(...) Ainda há boas mulheres no mundo para alegrar nossas vidas – boas
mulheres cujas vidas e cujas verdades podem servir de lição para as
crianças que estão por nascer. (Drácula, p. 166)
No entanto, esta declaração tão cheia de amor por ela e desprezo por todas as
“outras” não impede que ele a acuse de maneira deveras sarcástica, fazendo alusão ao
encontro que ela tinha tido com o conde. Quando estão discutindo a melhor hora para
matá-lo, ele diz, em sua presença:
Vocês estão se esquecendo que ontem à noite ele se deleitou com um
banquete e que, por causa disso, vai dormir até mais tarde hoje?, disse
ele, para nossa surpresa, com um sorriso. (Drácula, p. 258)
Sua hostilidade é tão óbvia que os outros membros do grupo ficam chocados, mas
não dizem nada. É como se, no fundo, compartilhassem da mesma opinião, embora não
tivessem coragem de externá-la. Para eles, a pouca masculinidade presente em Mina fora
retirada após sua entrega ao vampiro. Com isso, igualara-se às outras, decepcionando-os.
Assemelham-se a Jean Bodin, citado por Jean Delumeau em seu livro História do Medo
no Ocidente (1993). Segundo Bodin, as mulheres se entregavam às forças demoníacas
não por sua fragilidade e sim por força da cupidez bestial. Também afirmava que elas
eram menos confiáveis do que os homens.
Quando Lucy foi atacada, perdendo muito sangue e estando à beira da morte, Van
Helsing recorre a copiosas transfusões para salvá-la. Quatro homens doaram seu sangue
para que pudesse resistir às investidas do vampiro: o próprio Van Helsing, Arthur (seu
noivo) e os dois homens apaixonados por ela, Seward e Quencey. Mesmo assim, Lucy foi
atacada novamente, dessa vez de maneira fatal. Desesperadamente eles procuram por
novos doadores e, não encontrando ninguém, cogitam o sangue das quatro empregadas da casa, mulheres muito saudáveis. Van Helsing, porém, rejeita a idéia. Por quê?
Lembremos que somente homens tinham doado sangue a Lucy, dando-lhe força para
vencer sua fraqueza feminina, algo que o sangue de mulheres não poderia fazer. O médico
até cogita a idéia, mas logo a abandona por não achá-la uma atitude prudente. O motivo
é óbvio: “Não confio nestas mulheres”, diz ele.
O sangue das mulheres não poderia salvar Lucy. Afinal, Drácula consegue
propagar sua maldição por meio do corpo feminino. A sexualidade dos vampiros e das
mulheres era idêntica, primitiva e voraz, capaz de ameaçar a hegemonia patriarcal da
sociedade.
No romance, bem como na Inglaterra da época, a sexualidade feminina
desempenha uma única função: a reprodução dentro do casamento. Uma vez tirada deste
contexto, como a das vampiras, torna-se algo monstruoso que deve ser destruído.