O vampiro e a literatura gótica, surgida no século XVIII, estão muito ligados e
separá-los é quase impossível. Por exemplo, quando pensamos no vampiro por
excelência, ou seja, Drácula, dificilmente o dissociaremos do gênero com seus castelos
lúgubres e isolados e moças indefesas perseguidas por sinistros vilões. No entanto,
Drácula rompe com esta mesma tradição no que diz respeito aos vampiros. Nos dias de
hoje, estes monstros sugadores de sangue são associados instantaneamente à Transilvânia.
No entanto, o conde foi o primeiro vampiro da literatura a habitar tal região.
A localização do castelo foi escolhida bem depois que Bram Stoker começou a
escrever seu romance. O autor pensava localizar o castelo na região da Styria, cenário de
outra história de vampiros já publicada e reconhecida por muitos críticos como fonte de
inspiração para o autor de Drácula. A história em questão é o conto Carmilla, do escritor
irlandês Sheridan Le Fanu, publicado em 1872. A Styria, porém, não era o local
apropriado para o desenrolar da narrativa que Stoker tinha em mente. O motivo da
mudança é um tanto sutil: a região dos Cárpatos era conhecida pelos súditos da rainha
Vitória como sendo palco de inúmeras turbulências políticas, bem como guerras por motivos raciais. Considerando a história que Bram Stoker tinha em mente, ou seja, de um
ser racialmente perigoso e disposto a conquistar Londres, nenhum outro lugar na Europa
de 1897 poderia ser mais propício para a proliferação dos mortos-vivos do que a terra
natal de Vlad Dracul, personagem histórica que inspirou o terrível vampiro.
Além disso, Drácula afasta-se significativamente de seus predecessores literários.
Ao contrário de Carmilla, criação de Le Fanu, e Lord Ruthven do conto The Vampyre,
escrito por John Polidori e publicado em 1819, que são criaturas lânguidas e nervosas,
Stoker retrata Drácula vigoroso e cheio de energia. Enquanto Carmilla e Lord Ruthven
são aristocratas decadentes, fúteis e amantes das artes, cujo vampirismo é uma extensão
dos vícios tradicionais da aristocracia do período, Drácula é um nobre guerreiro e seus
feitos após a morte continuam de certa maneira as conquistas que fizera enquanto vivo.
Seu maior e mais arrojado plano, porém, estava prestes a concretizar-se assim que ele
chegasse a Londres e para tanto contaria com a ajuda de seres que, como acreditava a
época vitoriana, eram extremamente propícias ao pecado: a mulher.
Neste período, todos reconheciam a superioridade masculina e a mulher deveria
estar sempre pronta a sacrificar tempo, esforço, bem como seus próprios desejos a favor
do homem. A falta de castidade e a infidelidade da esposa eram crimes gravíssimos, sendo
que este último era capaz de manchar a reputação de todos os homens da família a qual
ela pertencia – pai, filho, marido e irmãos. O pior, segundo muitos formadores de opinião
do século XIX, era que as mulheres estavam se desvirtuando mais e mais a cada dia com
o surgimento da “new woman”, ou seja a “nova mulher”, que exigia mudanças no status
quo.
Talvez por todos estes fatores, há muita hostilidade para com a sexualidade
feminina permeando todo o romance, sendo que as vampiras se parecem muito com as
mulheres “decaídas” dos romances dos séculos XVIII e XIX. As personagens femininas
“normais” nunca se mostram “desavergonhadamente” sexuais até se transformarem em
vampiras e, naturalmente, devem ser perseguidas e destruídas por causa disto.
Tal perseguição muito se assemelha à caça às bruxas pois, como elas, as mulheres
do romance são ludibriadas devido ao seu caráter fraco e propenso à fraqueza. Entregam-
se a Drácula como as feiticeiras do passado se entregavam a Satanás e o motivo para
deixarem-se levar pela sedução do vampiro também parece ser o mesmo: sexo. O príncipe
das trevas dava às bruxas poder para conseguir o que desejassem por meio de feitiços –
curiosamente, a maior parte deles voltados para a área sexual, ou seja, para conquistar ou
vingar-se de um homem. Durante os Sabás, entregavam-se ao sexo desenfreado e ...
continua---