No andar debaixo, uma festa acontece. O som alto da música se mistura aos gritos das pessoas, e o filho do presidente fecha a porta do quarto com força.
Locais lotados de estranhos ㅡ todos puxando saco de uma só pessoa, a fim de ganhar algo em troca.ㅡ não entram na sua lista de hobbies favoritos.
Entretanto, ninguém dá a mínima, e isso consegue estressá-lo profundamente.
Os anos que passara com a melhor psicóloga da cidade ajudaram a controlar o temperamento difícil de Min Yoongi, que ainda recusa-se a admitir o quão úteis foram as sessões, embora não falte uma única vez.
Suspirando, encara a janela.
Lá fora, a chuva molha a grama verde, embaça o vidro das janelas enquanto nuvens cinzas cobrem o céu e ventos fortes balançam os enormes pinheiros.
Não era assim que planejava passar o Natal, preso em uma cidadezinha do interior, completamente longe dos seus amigos de Los Angeles. Mas, de quê adianta reclamar? Aliás, já está aqui.
Os olhos de âmbar percorrem o vasto cômodo, desde a cama sempre arrumada até a escrivaninha ao lado. Param no pequeno rádio azul-escuro, repousado na superfície de madeira branca; a marca Marshall refletindo a pouca luz do Sol. Os dedos tocam alguns botões, giram-nos. Logo, em meio aos chiados, uma música diferente acaricia os seus ouvidos.
Quando quiser viajar
Ligue o rádio
Se precisar relaxar
Este é o lugar
Acredite, ele pode ajudar
Deixe que seja seu amigo
Peça "Fique comigo"
E veja a mágica começar
Você só tem que ligar
Depois do botão girar
É preciso sonhar
Então, vamos lá!
Uma risada amarga escapa, arranha a garganta.
A letra bagunça a mente, enche-a das mais perigosas mentiras; traz as lembranças à tona como um redemoinho traiçoeiro, que envolve o seu pobre coração. De repente, fica impossível tirá-lo dali, sem noção alguma de tempo ou espaço.
Escuridão domina tudo à sua volta, com sombras enroscando-se nas pernas trêmulas do jovem, feito quisessem arrastá-lo para um lugar tão escuro quanto às profundezas do mar. O vento forte tira os seus pés do chão, usam os estilhaços da vidraça para cortar a pele sensível.
Desesperado, agarra a primeira coisa que vê pela frente.
As mãos seguram o eletrônico e, imediatamente, um baque absurdo aparece; as unhas tornam a arranhar o carvalho, mas falham.
Os corpos estranhos continuam a assolá-lo, cobrem toda a face: boca, nariz, olhos.
Mesmo cansado, com o ar faltando nos pulmões, ele resiste; tenta livrar-se do aperto peçonhento.
Arrepios percorrem a espinha dorsal quando seus dedos finalmente agarram a carne gelada. Aos poucos, elas vão tomando a forma de serpentes verdes, vivas e mortíferas.
O susto é tão grande que arranca-lhe gritos agudos, faz-no se debater.
Não percebe a tortura acabar, traumatizado e assustado demais para olhar ao redor. Somente sente as costas colidirem com algo.
Resmungando, toma a coragem de descobrir o que houve.
O mundo inteiro está diferente, repleto de árvores imensas e pássaros cantando.
A grama, onde está deitado, causa-lhe cócegas. Flores dos mais variados tipos colorem o cenário, estendem-se do mato aos troncos, também rodeados por cipós.
É tudo incrivelmente belo.
Agora, mais calmo, Min Yoongi levanta. Há um brilho em seu olhar, o qual julgava estar perdido, na pior das hipóteses, morto. Solta o tecido da larga camiseta branca e, encantado, admira cada detalhe dessa floresta.
Assiste esquilos estocando comida, águias sobrevoando o céu azul, lebres à procura de comida, com os focinhos tremendo. Ao longe, o barulho da cachoeira aparece, o cheiro de água doce misturado com o pólen. Enquanto caminha, presta atenção nas pedras, evitando tropeçar ou pisar em falso.
Escondida entre as plantas, uma raposa de pelos brancos como a neve, com as cores azul e verde colorindo as íris.
Um sorriso escapou de seus lábios, àquele verdadeiro, capaz de iluminar tanto quanto a luz do Sol.
Vagarosamente, aproxima-se do animal arisco, numa tentativa de ganhar a confiança dele.
A raposa, percebendo, recua um pouco. Contudo, as feições amáveis afastam qualquer sentimento de ameaça que poderia ter. Então, diminui a distância, ainda cauteloso.
Yoongi agacha, estende a destra na direção da raposa, e o focinho comprido cheira-o, confirma que não existe perigo. Sorrindo, o coreano acaricia o topo da cabeça dela, os dedos sentindo a pelagem macia.
ㅡ Você é uma gracinha.ㅡ Diz, todo sorridente.
O animal fita-o intensamente e, por um segundo, Min Yoongi pensa que ela pode até responder ao elogio. A cauda peluda balança, um sinal de que as carícias estão lhe agradando.
O tempo parece eterno, faz o jovem agradecer, pois não quer que esse momento acabe.
Desconcertado, ele perde o equilíbrio e quase cai para trás quando um objeto pontudo raspa a lateral da sua bochecha.
A raposa foge, perde-se em meio às árvores e plantas rasteiras.
Com medo, Yoongi levanta rapidamente. Pensa em fugir também, mas sequer consegue olhar as redondezas.
ㅡ Parado!
A ordem veio do general, àquele cuja armadura de ônix ofusca os olhos do asiático.
Há detalhes em prateado, um tipo de brasão na região dos braços e no peitoral.
O capacete, da mesma cor, impede a visão da face. Existem apenas quatro espaços que permitem a entrada de ar, todos em formato de linha. A espada, também prateada, está apontada para o rapaz estranho, que rende-se.
Não deixa de notar as orelhas pontudas, os cabelos negros e a pela pálida.
ㅡ Em nome do rei de toda Morristown ordeno que apresente-se.ㅡ A voz sai rígida e causa calafrios no jovem, que engole em seco.
Apesar de suas mãos estarem tremendo, ele tenta não fraquejar. Aliás, é o filho do presidente.
Lembrando das aulas de etiqueta, rapidamente, arruma a postura; ergue o queixo, arrebita o nariz, estufa o peito.
ㅡ Sou Min Yoongi.ㅡ Utiliza o mesmo tom para responder à questão.
Os guardas cochicham entre eles. Alguns comentam sobre a insolência ou coragem desse garoto; outros, dizem nunca terem conhecido-o antes, confusos e intrigados.
Todos esses murmúrios ferem o orgulho do comandante, mancham a reputação de "o temido".
Quem ele pensa que é para afrontá-lo assim? Não, não interessa, pois ninguém trata-o deste jeito. Caso trate, há sempre uma punição. Contudo, não pode punir um desconhecido, sequer sabe se este estranho faz parte da realeza.
Portanto, precisa manter a educação, ter paciência…
ㅡ De qual reino vieste? ㅡ Após coçar a garganta, as perguntas retornam.
Reino? ㅡ Pensou Yoongi, franzindo o cenho em confusão.
Okay, está claro que adentrou um mundo completamente diferente, mas os únicos Reinos conhecidos por ele são fictícios, nem devem existir aqui.
Merda…ㅡ xingou, olhando ao redor.
Tudo à sua volta resume-se em árvores enormes, plantas rasteiras e animais selvagens. Mesmo que não estivesse na mira de tantas flechas e espadas pontudas, seria arriscado fugir para a mata sem conhecer os perigos que moram nela.
Pensa rápido.ㅡ Dá um sorriso amarelo aos sentinelas, os quais estranham a demora.
Riscando a opção de fugir, lista as mais prováveis de não darem errado.
ㅡ Não me surpreende que não saibam sobre as minhas terras. ㅡ Enrola, tentando ganhar tempo para inventar uma mentira plausível.
Cogitar se deve dizer que mora em uma terra ainda desconhecida, pois não faz a mínima ideia dos conhecimentos gerais deles. Entretanto, mesmo assim, tenta a sorte.
ㅡ Vim de um reino distante.ㅡ Prolonga a última palavra.ㅡ De um terra que fica além do horizonte, do outro lado do oceano. ㅡ Gesticula enquanto explica.
Os guardas parecem desconfiados, relutantes em acreditar na resposta dada.
ㅡ Como chama esse lugar?ㅡ O general arqueia as sobrancelhas, analisando cada gesto de Yoongi.
Os dedos agarram o tecido da calça jeans, descontando o nervosismo ali.
As memórias invadem a mente, apertam o coração acelerado e formam a imagem de uma moça, cujas características assemelham-se às de anjos ou outros seres mitológicos.
A escova adentrava os cabelos negros, que escorriam pelo queixo fino. Os olhos na cor de carvão vegetal penetravam a alma, arrancavam segredos e sentimentos que ninguém desejaria revelar, embora as sobrancelhas bem desenhadas transparecessem uma expressão suave. A boca em formato de coração abre um sorriso genuíno, delicado e amoroso.
Min Yoongi escuta a estória com atenção, absolve cada palavrinha que é dita. E, de repente, sabe exatamente o que responder:
ㅡ Aquarius.
Eles franzem o cenho, trocam olhares.
ㅡ E, por acaso, Aquarius possui um rei?
Desconfiança banha o tom de voz. Contudo, as armas já não estão mais erguidas. Ainda em silêncio, apenas observando, estranham a risada soprada de Yoongi.
ㅡSim, possui.ㅡ Diz, tecendo as mentiras com cuidado.
Não sabe dizer ao certo se é verdade ou não, pois os únicos relatos foram de sua mãezinha, que contava estórias sobre portais, seres fantasiosos e mundos mágicos.
Passava horas escutando cantigas estranhas no rádio, cantando-as, à noite, como canções de ninar enquanto balançava o berço branco do seu bebê. Infelizmente, não pôde chegar ao final, sequer explicar a origem dos mitos.
Na internet, pouco sabem também. Todavia, estar aqui muda tudo.
Não restam dúvidas de que os reinos dos contos, contados quando era somente uma criança, realmente existiram.
As íris castanho-escuro vivenciam os cenários descritos, perdem-se no meio de tanto verde, exatamente iguais aos que a esposa do presidente falava com carinho e orgulho.
No quarto, o abajur azul ilumina o cômodo, o suficiente para que a mulher possa continuar a leitura de um livro antigo. Sentada em cima da cama, ela arruma os travesseiros brancos e põe-se ao lado do pequeno menino, acariciando as madeixas macias.
ㅡ Boa noite, meu príncipe.ㅡ Beija o topo da cabeça dele.
Passa algum tempo observando o filho dormir, mas o vento frio faz com que levante para fechar as janelas. Antes, admira o brilho das estrelas, e lembranças de uma vida já quase inexistente regressam.
Encorajado pelo apelido amoroso, respira fundo, pronto para proferir:
ㅡ Eu sou o Rei.