Lá estava ela, o anjo mais belo de todos.
As madeixas rosas destacam a pele, cachos cobrindo os ombros. O vestido, da mesma cor, possui renda branca nas barras. Entretanto, é o sorriso dela que poderia encantar o mundo, caso as pessoas pudessem enxergá-la.
Charlotte Kim passeia pelas ruas de Seul como se fosse realmente humana, tão curiosa quanto uma criança. Apesar de seus superiores já terem dito para não estender a visita, a menina continua prolongando a viagem.
Exatamente igual aos outros anjos, foi dada-lhe uma missão: Plantar e semear o amor entre mortais.
Desde pequena, gentileza e paciência sempre foram suas melhores qualidades, embora a ingenuidade complicasse o julgamento da jovem ao realizar as missões.
Por isso, Charlotte deve observar ㅡ e apenas observar.ㅡ os diversos cidadãos, aprender com os atos de cada um.
Enquanto caminha, aprecia os arranha-céus, a luz do Sol reluzindo no vidro. Os olhos lilás brilham intensamente, correm pelos rostos desconhecidos ㅡ alguns estressados; outros, alegres. De fato, está encantada.
Não é a primeira vez que visita o mundo humano, mas nunca esteve em Seul. Antes, os lugares mais designados eram Daegu ou Busan. Convenhamos, só loucos iriam designar cidades grandes para um anjo tão ingênuo quanto Charlotte Kim.
Então, olhava tudo com atenção, desde coisas simplórias até as exclusivas, das quais somente existem aqui, nesta cidade grande.
Os trajes sociais não fazem sentido para a menina, sequer os uniformes. Porém, seu coração balança ao pensar em vestir-se igual.
Tenta desviar do aglomerado das pessoas, que atravessam a avenida movimentada; os carros estacionados, esperam o farol abrir. Espreme o corpo pequeno, com um sorriso decorando a face alva e covinhas, desenhadas nas bochechas rubras.
Distraída, esbarra em alguém. A testa colide com o peito rígido, coberto por uma camiseta preta da Vogue.
Paralisou, refém do medo e da surpresa.
Quando, enfim, levantou o olhar, encontrou um moreno alto, dono de uma beleza inigualável: Os cabelos castanhos-escuros cobriam parcialmente as íris cor de âmbar, que demoraram-se nas delas; o canto dos lábios carnudos curvados num riso discreto.
A calça social escura marca bem as pernas e combina com os sapatos, mas Charlotte Kim sequer nota isso, pois está hipnotizada demais para perceber algo além daquele olhar hipnotizante.
ㅡ Desculpe.ㅡ A voz grave ecoou pelos ouvidos sensíveis da garota.
Ele deixa-a paralisada ali e segue em frente, momento algum espera por uma resposta.
Nada faz sentido.
Durante o aprendizado, seus superiores ensinaram que humanos não podem ver ou tocar os anjos, somente crianças ㅡ devido a pureza e inocência.ㅡ são exceções desta regra. Portanto, como esse humano pôde vê-la? Pior, falar com ela?